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Carlos Mendes é docente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

O excerto

Pela cabine do inspector circulam pessoas, passaportes, vistos, livros de protocolo, boletins oficiais, advertências, exemplares do jornal oficial "A Verdade de Arstotzka" e panfletos de bordéis. Será através destes elementos que a geografia política imaginária de Papers, Please se torna verosímil e que o jogo se converte numa potente alegoria da desumanização da circulação de pessoas entre países pelas modernas burocracias dos estados-nação.

DR

Crónica

Glória à Arstotzka!

Com o lançamento de Papers, Please, um jogo sobre a paranóia securitária dos estados modernos e a expressão burocrática desta, esta será uma semana gloriosa para a Arstotzka

Texto de Carlos Mendes • 07/08/2013 - 11:26

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Papers, Please de Lucas Pope é uma distopia em que se assume a perspectiva de um inspector do posto fronteiriço de um país ficcional, a Arstotzka, reaberto em 1982, depois de seis anos em guerra com a vizinha Kolechia. A mecânica do jogo é simples: o inspector verifica documentos - os "papéis" -, procurando neles "discrepâncias" que possam denunciar visitantes indesejados pelo regime autoritário.

 

Inicialmente, a retórica e a iconografia totalitárias produzem apenas um efeito de caricatura, seguindo uma velha tradição de satirizar o "autoritarismo" do "Leste". Há, por exemplo, uma espécie de ressonância da rivalidade entre a Sildávia e a Bordúria dos álbuns de Hergé na tensão entre Arstotzka e Kolechia.

 

Pela cabine do inspector circulam pessoas, passaportes, vistos, livros de protocolo, boletins oficiais, advertências, exemplares do jornal oficial "A Verdade de Arstotzka" e panfletos de bordéis. Será através destes elementos que a geografia política imaginária de Papers, Please se torna verosímil e que o jogo se converte numa potente alegoria da desumanização da circulação de pessoas entre países pelas modernas burocracias dos estados-nação.

 

À medida que se avança no jogo, Papers, Please torna-se mais complexo e confronta o inspector com os dilemas morais das suas decisões. Por um lado, há que ponderar o próprio drama pessoal do burocrata, insuficientemente remunerado para prover uma família numerosa que depende da manutenção de um posto de trabalho obtido através de um "sorteio laboral" estatal. Por outro, o impacto das decisões que concretizam a indiferenciação da burocracia de estado na existência da gente desesperada que se apresenta no posto fronteiriço.

 

Quem quiser experimentar um dos jogos mais originais e relevantes deste ano, ainda numa fase de desenvolvimento precoce, poderá descarregar uma versão beta de Papers, Please gratuitamente

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