Dado Ruvic/Reuters

Crónica

Como é que eu uso o Facebook

Se queremos manter-nos conectados e em pleno uso dos benefícios de se viver no século XXI, mais do que nunca urge filtrar e pensar duas, três ou quatro vezes antes de partilharmos pensamentos com perfeitos estranhos em troca de meia dúzia de "likes"

Texto de João André Costa • 18/04/2018 - 15:40

João André
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Assusta-me a quantidade de informação que o Facebook já tem sobre mim, incluindo todo o meu registo de chamadas telefónicas, a duração de cada uma, mensagens e fotografias entre Dezembro de 2015 e Maio de 2016: sim, acabei de fazer o download e está tudo lá.

 

E, duas vezes sim, já apaguei a app do meu telemóvel, incluindo apagar o acesso de outras 74 aplicações à minha informação no Facebook, mesmo que pouca e já com uns anitos, sem esquecer as chamadas telefónicas. Quanto ao Google, por culpa de dois blogues entretanto desactivados, até uma fotografia da minha rua tem, e não é do street view. Ah, e o Google também sabe por onde andei ontem de bicicleta (40 quilómetros de informação ao todo) e que música estou neste momento a ouvir no YouTube (Arcade Fire, Haiti, do álbum Funeral). Ou sabia, bastando para tal aceder ao seguinte link, pasmar, e depois agir.

 

De caminho, não se esqueçam de rever todas as apps no telemóvel, ou não me fosse difícil compreender porque carga de água precisa o Zombie Tsunami de ter acesso à minha localização em tempo real, incluindo fotos, câmara e contactos.

 

Depois disto tudo, como é que eu uso o Facebook? Não uso. Não tenho uma fotografia minha como perfil, ao invés usando uma imagem generalista de modo a dificultar a minha identificação social por colegas e empregadores, Joões Costas há muitos e viva a privacidade, a minha e a de todos.

 

A minha data de nascimento não é a minha data de nascimento, o Facebook não tem necessidade alguma de ter acesso a informações pessoais e estou prestes a fazer “19” anos.

 

Não publico absolutamente nada online que seja de acesso público. Só eu tenho acesso à minha lista de amigos, não tenho fotografias, não tenho vídeos, livros, filmes ou séries de eleição, só eu sei do que ”gosto“ online, se me ”tagam“ não permito a publicação e tenho 38 pedidos de amizade de pessoas que, por não conhecer, não vou aceitar.

 

Mas se não publico nada online e tenho as definições de privacidade ao nível da castidade, porque é que uso o Facebook? Obviamente, para ver o que os outros estão a fazer e, graças ao bom senso e às notícias recentes, são cada vez menos e contados pelos dedos os que gostam de expor a sua vida como um livro aberto, sempre de boca aberta em jantares pagos por familiares (mas essa parte eles não contam) ou a fazer viagens ao estrangeiro, uma vez por ano que a vida está difícil, mas quando, finalmente, acontece, é às 70 fotografias de cada vez, para tédio geral e o polegar a passar ao próximo post.

 

E para ver as notícias, para saber quanto se passa em Portugal e no mundo — e não, não tenho televisão.

 

Somos todos culpados, somos todos responsáveis e já o fazemos há vários anos, mas se de facto queremos manter-nos conectados e em pleno uso dos benefícios de se viver no século XXI, e não nos anos 80 (parece que nos anos 80 é que era, mas não era), mais do que nunca urge filtrar e pensar duas, três ou quatro vezes antes de partilharmos pensamentos, emoções, memórias e mensagens online, gratuitamente partilhando as nossas vidas, não com amigos mas perfeitos estranhos com genuínos interesses particulares em troca de meia dúzia de likes. A soberba, meus amigos, foi sempre o pior dos pecados.

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