Crónica

“The Evil Within 2”: a arte do medo

“The Evil Within 2” é uma oportunidade para se reapreciar uma série que é um dos mais infelizes esquecimentos recentes

Texto de Carlos Mendes • 30/11/2017 - 18:31

Distribuir

Imprimir

//

A A

The Evil Within (Psycho Break, no Japão) é um dos mais infelizes esquecimentos recentes no meio dos videojogos. O jogo, lançado em 2014, marcava o regresso de Shinji Mikami ao género de terror de que é o grande visionário, por via de lhe ter estabelecido as convenções essenciais com Resident Evil (1996), o remake deste, de 2002, e Resident Evil 4, de 2005.

 

No entanto, foi recebido, em geral, com frieza e sobranceria pela crítica que o tratou como mera curiosidade antológica de um designer de jogos ultrapassado. Em grande parte, a abordagem da crítica consistiu no equívoco de tratar opções estéticas — como a introdução de barras horizontais pretas e de um efeito de granulado que, além de o distinguirem visualmente, produziam a atmosfera claustrofóbica e onírica que a temática requeria e correspondiam ao desejo de proporcionar uma “experiência cinemática” — enquanto limitações técnicas do jogo.

 

The Evil Within 2, a belíssima sequela dirigida por John Johanas, lançada em Outubro, na última sexta-feira 13, retoma o ângulo apertado, “por cima do ombro”, que Mikami popularizou, gerador de tensão constante. Permanece tão imaginativo, quanto o anterior, parecendo infindáveis as possibilidades de surpresa durante o jogo. A principal novidade da sequela é a interessante implementação de open world, em que cada casa visitada, cada “missão” resulta numa história que contribui para enquadrar no plano de uma conspiração mais ampla o drama pessoal de Sebastian Castellanos, ex-polícia alcoólico, profundamente fragilizado pelo desaparecimento da filha numa noite de casa em chamas.

 

Um vilão merece destaque. Ele é Stefano Valentini, fotógrafo de arte sádico, marcado pela experiência de repórter de guerra, pela desumanização que a exposição sistemática à crueldade e ao horror produz quando se tornam normalidade. Nalguns dos momentos mais marcantes de The Evil Within 2, a beleza musical da Serenata para cordas de Tchaikovsky enfatiza, em contraponto, a arrogância e o egocentrismo do artista contemporâneo com os seus tableaux vivants mórbidos de seres humanos expostos no momento da morte para deleite estético. Parecem evocações das criaturas sem vida exibidas em vitrines que popularizaram o artista britânico Damien Hirst.

 

The Evil Within 2 é uma boa oportunidade para se reapreciar esta nova série proposta por Mikami que é, no seu conjunto, uma das melhores experiências de terror da década.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que