Redes sociais

Mário quer viver um mês sem “scroll”, para lá da ditadura das notificações

Sem Facebook, sem Instagram, sem Linkedin. “Adiós! See yaaa! Adeus!”: Mário Tarouca despediu-se dos “amigos” das redes sociais para viver um mês sem a pressão das notificações a cair a toda hora

Texto de Cristiana Faria Moreira • 23/11/2017 - 12:47

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Está quase na hora de almoço quando Mário Tarouca, 24 anos, espera pelos turistas a quem arrendou, por uns dias, a casa que tem no bairro da Graça, em Lisboa. Olha insistentemente para o telemóvel à espera de notícias de quem chega para fazer Lisboa sua por uns dias. Lançámos um olhar de desconfiança quando pega, uma e outra vez, no telemóvel. Estará a falhar o desafio a que se comprometeu? É que, desde 10 de Novembro, Mário não acede às contas de Facebook, Instagram e Linkedin. Porquê? Porque se desafiou a cumprir um mês de detox das redes sociais.

 

Perante o olhar de dúvida que lhe lançámos, explica que mantém o acesso ao Messenger e ao WhatsApp “para simplesmente poder comunicar”, acreditando que estas redes não têm o simples intuito de fazer scroll infinito enquanto, inconscientemente, se comparam vidas e se fica com a impressão de que a vida do vizinho é sempre melhor do que a nossa.

 

“Sempre fui um viciado, uma pessoa que estava sempre nas redes sociais. Recebia uma notificaçãozinha ou um e-mail e tinha logo de ir ver o que era”, conta ao P3. As redes sempre estiveram na sua vida. É ele quem o diz, ao ponto de admitir a dificuldade em “desligar” para ir simplesmente passear o cão ou ver um filme. Pelo menos durante este mês, conta ter mais descanso.

 

“Nos últimos meses estou a trabalhar a partir de casa. Se tinha mais tempo, passava ainda mais nas redes sociais. Já é desmotivante criar uma empresa sozinho, já tenho dentro de mim algo a dizer 'vai arranjar um emprego das 9h às 17h, que é muito mais fácil do que passares por esse processo todo'. Depois vou às redes sociais e vejo que o tipo x arranjou um emprego novo xpto, o outro está a comer o hambúrguer não sei onde. Isso cria depressão a quem está do outro lado do ecrã", admite. "Mas a minha vida não é como a deles?”

 

A par da ditadura das comparações de vidas que as redes sociais impõem, Mário questionava-se: “Será que sou o único a pensar nisto? Será que só a mim é que me acontece isto?” Com uma pesquisa rápida na Internet, percebeu que não, não era o único a pensar assim. Diz que encontrou “centenas de pessoas, artigos escritos há três, quatro anos”, em que as pessoas relatavam que quanto mais usavam o Facebook menos felizes se sentiam.

 

Começou a matutar nesta ideia — que se tornou uma “necessidade” — de diminuir o uso das redes sociais há alguns meses. Optou por desinstalar a aplicação do Facebook do telemóvel. “Comecei a fazer progressos. Mas comecei a migrar para o Instagram. E pensei: isto está a voltar ao mesmo, tenho que arranjar aqui uma solução”.

 

Fez questão de criar a hashtag #NoFacebookFor1Month e um manifesto onde, no final do tempo proposto, vai contar como foi a experiência de estar um mês sem a pressão constante das notificações a cair no telemóvel.

 

“Ninguém quer vender a sua parte má”

Um estudo publicado no início de 2017, por um grupo de psicólogos americanos, mostrava que passar mais de duas horas por dia em redes sociais como o Facebook, Twitter ou Snapchat duplicava a probabilidade de alguém se sentir isolado. Elizabeth Miller, co-autora do estudo, reconhecia à BBC que os investigadores não sabiam ainda “o que veio antes: se o uso de redes sociais ou a sensação de isolamento social”. Mas o estudo, que envolveu dois mil adultos com idades compreendidas entre os 19 e os 32 anos, fez a também professora de Pediatria da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, acreditar que “o uso cada vez mais recorrente das redes sociais os tenha levado a sentirem-se isolados do mundo real”.

 

“Tiramos mil e uma fotos, depois escolhemos a melhor. Da melhor, vamos escolher um filtro e ficar meia hora a pensar nas tags que metemos. Isto para mostrarmos o melhor de nós. E está certo. O ser humano faz isso offline ou online, mas a questão é que as redes sociais vieram fazer com que tenhas um catálogo das coisas boas e ninguém partilha o mau. Ninguém quer vender a sua parte má”, reconhece Mário Tarouca.

 

Até agora, confessa ao P3, ainda não sentiu “necessidade” de fazer o scroll diário a que estava habituado. “Acho que o que cria mais necessidade é tu veres que tens uma notificaçãozinha e está ali uma bola vermelha, tens lá um número e tens que ir ver o que é.”

 

No primeiro fim-de-semana desta experiência, recorda Mário, estava no Porto numa pastelaria para tomar o pequeno-almoço. “Hoje em dia quando uma pessoa chega a uma pastelaria, pede o que quer, e depois vai logo para o telemóvel. Não há interacção”. Reparou, conta, que havia uma mesa com jornais e revistas. Pegou numa, a namorada Mariana noutra e, “de repente”, estavam a trocar ideias. “Uma coisa que eu não fazia há anos. Ler em papel.”

 

A verdade é que, hoje em dia, há aplicações para tudo. Já não se perguntam direcções porque temos o mapa no telemóvel nem qual o melhor restaurante da zona porque temos aplicações que nos mostram o ranking dos melhores, horários de funcionamento e menus.

 

Neste processo de detox, Mário tem-se cruzado com “imensas armadilhas” na Internet. Dá o exemplo do processo de recrutamento que está a fazer para a empresa que acaba de lançar, a Breadfast, um serviço de entregas de pequenos-almoços ao domicílio. “Eles [os candidatos] mandam links do Facebook, do Linkedin. Tudo hoje em dia está conectado [com essas redes]”, nota. Já deu por si a fechar apressadamente as páginas para cumprir o objectivo a que se desafiou. “E é difícil, mas há sempre soluções.”

 

Para já, não sabe se tem ou não notificações, e diz-se “super feliz” com isso. Admite estar a “perder” alguma informação que circula nas redes, mas, para já, isso não o preocupa. Findo este mês de algum detox digital, pretende voltar a instalar as apps no telemóvel porque, “profissionalmente”, precisa de as utilizar. “Tenho é que saber racionar. Entendo o valor das redes sociais, preciso para as empresas onde as estou a utilizar, mas o uso que damos tem que ser racionado.”

 

Quer, agora, que as pessoas parem para pensar no tempo que gastam nas redes e, eventualmente, repliquem a experiência. Para quem quer ganhar tempo, mas também para quem quer poupar bateria do telemóvel, brinca.

 

Ficámos de mandar a Mário o link quando publicássemos este artigo. Mas não pelo Facebook, claro.

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