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Little Nightmares

Crónica

“Little Nightmares”: delícias grotescas

Inquietante e belo, o jogo sueco "Little Nightmares" é um manjar de delícias grotescas

Texto de Carlos Mendes • 08/05/2017 - 11:23

Carlos Mendes
Carlos Mendes é docente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo

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Little Nightmares é a história de uma menina que procura escapar da Bocarra, a misteriosa embarcação que a aprisiona em alto-mar, um Nautilus de perversidade onde criaturas grotescas se acham exiladas. A fuga implicará a confrontação da diminuta figura da menina, Six, com os seus horrendos habitantes e a voracidade dos anafados glutões recebidos na Bocarra para se banquetearem em medonhas farras que os encarniçam.

 

Six procurará esconder-se ou escapar de todos estes. Aproveitará as sombras e os instrumentos usados pelos captores para consumarem a carnificina e os avanços permitirão explorar os fascinantes espaços e personagens da embarcação em detalhe. Na cozinha, lugar central da Bocarra, ocultar-se-á debaixo de armários e mesas, dando tempo a que observemos com cuidado, ao som do palpitar intenso do coração da criança, a grosseira fisionomia dos gémeos cozinheiros por quem tenta passar despercebida. São corpos carnavalescos que aparentam ser, como diria a crítica literária Susan Stewart, “a antítese do corpo como um instrumento funcional”.

 

Contrariamente ao que é usual na caracterização do grotesco na cultura popular, Little Nightmares dá-nos acesso aos espaços de intimidade destas figuras, que vivem como se de siameses se tratassem: no quarto, dormem em duas camas juntas, sob um retrato que é a junção de metade de cada um dos seus rostos; na casa de banho, usam duas retretes contíguas. Este é um jogo de corpos e coisas excessivos e minúsculos, em que nada parece corresponder à escala humana.

 

Na esteira de Limbo e Inside, Little Nightmares é dos mais belos e inquietantes jogos de plataformas de que há memória. É belo na tradição da animação da Aardman, na evocação de A viagem de Chihiro e na escala fora de proporção que recorda o onirismo expressionista de O gabinete do Dr. Caligari. É inquietante nas constantes alusões ao Holocausto, sobretudo quando evoca explicitamente as pilhas de sapatos de vítimas do nazismo que se tornaram numa das imagens mais capazes de rememorar a sua monstruosidade. É-o ainda mais quando Six, nos seus esfoços de fuga ao fim funesto que a Bocarra lhe destina, também pratica os seus próprios actos de horror para apaziguar a fome.

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