Tecnologia

Escolas de código, ou cursos para reprogramar a vida

Há quem esteja a cobrar seis mil euros por três meses de aulas numa área com emprego quase garantido. Os casos de sucesso são muitos, mas alguns empregadores hesitam

Texto de Karla Pequenino • 17/04/2017 - 13:11

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Depois de começar seis licenciaturas diferentes, Laura Schuch, 27 anos, precisava de um emprego estável. Via a universidade como o caminho para uma profissão bem paga, mas a única licenciatura que completou, em equinicultura (gestão de actividades equestres), não lhe dava acesso a mais do que estágios não remunerados. “Rapidamente percebi que não havia emprego na minha área em Portugal”, conta Laura. A última tentativa foi uma licenciatura à distância em Informática, mas desistiu passado um semestre.

 

Em 2016, optou por um curso intensivo de 14 semanas numa escola de programação. Funcionou. Não só chegou ao final do programa da Academia de Código, como o acabou numa sexta e estava empregada na segunda-feira seguinte. “Na faculdade aprende-se muita coisa que não é fundamental ao mercado de trabalho e os empregadores precisam, cada vez mais, de habilidades muito específicas”, defende Schuch.

 

Em Portugal não há falta de trabalho em informática. Só de profissionais. A Comissão Europeia prevê que até 2020 existam 15 mil vagas para informáticos no país se não existir uma orientação de pessoas para a área. A diferença entre talento disponível e procura levou à criação da Academia de Código, que se apresenta como uma hipótese de requalificação para os milhares de portugueses em situação de desemprego, em particular, jovens em licenciaturas sem saída. Mas não é preciso um diploma para entrar nestas escolas.

 

João Claro, 26 anos, passou de funcionário numa caixa de uma bomba da Repsol para programador numa empresa holandesa no Fundão. “Como só tenho o 9.º ano, o curso mostra o quanto se consegue fazer em apenas três meses. Felizmente há empresas que olham para as capacidades das pessoas”, diz Claro. Reconhece que, inicialmente, a oferta de perto de 100% de empregabilidade lhe parecia “demasiado boa para ser verdade”. Só começou a acreditar na recta final, quando já estava a ser entrevistado por empresas interessadas.

 

“O curto espaço de tempo é a chave do nosso conceito”, explica João Magalhães, um dos fundadores do programa. “Tem de ser uma coisa muito intensiva, que ajude a uma transformação rápida para que as pessoas comecem logo a trabalhar. Desenvolvemos o nosso currículo ao olhar para aquilo que as empresas a oferecer postos de trabalho precisavam num programador.”

 

A Academia de Código, com cursos em Lisboa e no Fundão, não é a única do género. No Porto, a Creators School oferece programação Web, em nove semanas, para grupos de dez alunos. “Surpreendeu-me descobrir que existem muitas empresas que já empregam autodidactas nesta área ou outros candidatos que venham destes cursos intensivos”, diz um dos antigos alunos, Ricardo Justo, 35 anos, um licenciado em História, que encontrou um emprego em desenvolvimento de software.

 

Existem também propostas menos intensivas, em regime pós-laboral, para quem não pode deixar de trabalhar. Nuno Francisco, 36 anos, está a tirar o curso da Galileu – uma empresa de formação que funciona em várias cidades do país – para deixar o ramo da segurança privada: são 182 horas, divididas em aulas de três horas e meia, duas vezes por semana. Diz que é acessível, “mas exige trabalho e empenho, especialmente quando combinado com um emprego a tempo inteiro”. Mudar de carreira não é a única meta: Nuno quer usar as bases para se candidatar a um curso universitário, mas diz que já foi contactado para uma entrevista de emprego na área de soluções web.

 

Ainda assim, há alguma cautela do lado dos empregadores. A empresa holandesa Logicalis SMC, com operações no Fundão, estava inicialmente céptica, mas já emprega 12 pessoas da Academia de Código. “São mais velhas, com mais experiência de vida, que não desistem à primeira, que é um dos grandes problemas que encontro em jovens recém-licenciados, que se assustam com alguns desafios”, diz Martijn Odijk, responsável pela actividade em Portugal. As falhas que encontra são nas competências para além da programação: “Faltam alguns extras da universidade: visão do funcionamento, estrutura e fluxo de informação numa empresa de programação. São coisas que lhes temos de explicar.”

 

Já a Uniplaces, que desenvolve uma plataforma para estudantes encontrarem alojamento online, tem algumas reservas. “A área da informática é onde um curso superior é mais relevante para nós”, diz João Figueirinhas Costa, responsável pelo recrutamento desta startup.

 

Apenas um profissional entre os cerca de 30 programadores na Uniplaces não tem formação universitária. Foi recrutado da Academia de Código, numa altura em que a empresa procurava profissionais em início de carreira. “É um caso único, que vem de um passado em música, mas teve um enorme sucesso. Conseguiu evoluir com uma rapidez comparável a um profissional de um curso de engenharia informática, mas vai para casa e estuda todas as noites para ser capaz de evoluir e manter-se actualizado”, justifica Figueirinhas Costa.

 

A lógica de contratação, acrescenta, é procurar trabalhadores que possam crescer na empresa: “Alguém que vem de um programa imersivo pode ter uma entrada mais fluida por ter competências práticas muito específicas. Contudo, o crescimento a curto prazo tende a ser muito menor do que um licenciado com bases teóricas."

 

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