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Loja ou restaurante? É a casa “simples” de dois alemães no Porto

Na portuense Rua do Almada, o Mondo Deli é o restaurante com que Markus Zictz e Christian Haas sonhavam. Tem pratos de inspiração asiática e do Médio Oriente, confeccionados com produtos regionais e da época

Texto de Ana Maria Henriques • 19/06/2017 - 12:22

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Nasceram no Sul da Alemanha, viveram sete anos em Paris e decidiram assentar no Porto. Markus Zictz e Christian Haas começaram por vir em trabalho para Portugal, sobretudo para o Porto. De viagens de trabalho passaram a fins-de-semana, feriados e temporadas mais longas. “Fomos ficando, cada vez mais viciados na cidade”, recorda Christian, designer. Markus, jornalista, sonhava em ter um restaurante — porque não em Portugal? “Paris não é muito convidativa se se quiser fazer algo novo, já foi tudo feito.” Christian pode trabalhar a partir de qualquer lugar, Markus queria mudar de profissão, estava gerada a ideia para o Mondo Deli, um restaurante, na Rua do Almada, que também tem alguns produtos de design para venda.

 

Esta rua do Porto é a preferida de Christian, por ser “especial”: com lojas tradicionais e outras mais alternativas convivem restaurantes antigos e modernos, pátios e jardins traseiros totalmente escondidos de quem passa à porta. É o caso do Mondo Deli, cujo edifício é, também, a casa dos dois alemães (e dos seus dois cães) e o estúdio de Christian. Encontraram o prédio ideal, fizeram obras de recuperação e transformaram-no no restaurante de que sentiam falta quando visitavam o Porto em versão turista.

 

“Não é cozinha de fusão”, faz questão de dizer Christian, numa das mesas do pátio interior. “A fusão, quando muito, acontece quando misturamos os vários pratos na mesa”, explica, em língua inglesa. Markus, para quem a cozinha sempre foi uma segunda paixão, sentou-se com a chef Catarina Garcias e juntos criaram uma ementa só com produtos da estação e preferencialmente locais. “É um mix de tudo o que nós gostamos”, resume. Agora que o Verão já está praticamente instalado, há salada vietnamita de polvo (€9,5), dumplings de porco em caldo asiático (€6,25), carpaccio de beterraba com iogurte de rábano e vinagrete de maçã, chalota e óleo de abóbora (€5,5) e kebabs de peixe, molho de tomate e fatias de pão torrado (€13,5). Nos meses quentes alteram a carta para incluir pratos “mais asiáticos”, no Inverno a inspiração chega do Médio Oriente.

 

“A carne não é a atracção principal aqui”, lê-se no site do Mondo Deli, e a carta que se vê na porta envidraçada prova isso mesmo. Há opções sem glúten, vegan ou vegetarianas e pessoas que entram sem saberem bem ao que vão: é loja, galeria ou restaurante? A configuração e a decoração da sala principal de refeições ajudam a baralhar quem espreita. Christian, que já fez projectos de design de interiores para lojas e restaurantes, idealizou um espaço “com uma atmosfera acolhedora”. “Ilhas de luz” para criar zonas mais escuras e mais iluminadas, muitos verdes (ambos são “obcecados por plantas”), paredes e chão em microcimento, almofadas em pele vegetal nos assentos dos bancos corridos, madeiras claras e de linhas rectas. “É simples, mas não minimalista”, descreve o designer.

 

Neste primeiro ano de porta aberta, o Mondo Deli já adequou a ementa aos produtos da época por quatro vezes, alargou o horário e acrescentou lugares. Às duas mesas originais comunitárias — mas largas, para não obrigar ao convívio — juntaram outras três pequenas e de quase todas se vê a cozinha. Durante a tarde, entre as 16h e as 20h, o foco são os snacks leves e as bebidas, desde cocktails a cervejas e vinhos, todos portugueses. “Não faz sentido importar vinhos italianos ou franceses, até o nosso espumante é português e nem sequer temos champanhe francês”, diz Markus.

 

Algumas das peças de cerâmica nas quais são servidas as refeições estão à venda, espalhadas por estantes de madeira que pontuam os cantos do Mondo Deli. Há louça japonesa, porcelana da Cornualha, cutelaria sueca e pratos negros de Tondela, a par de revistas e pequenos cadernos, joalharia alemã e algumas peças desenhadas pelo próprio Christian. “São coisas que gostamos de usar e que temos em casa, descobertas em viagens e com as quais temos uma relação pessoal”, justifica.

 

Markus e Christian continuam a aprender português, apesar de se exprimirem sobretudo em inglês, e planeiam ficar pelo Porto, em volta do Mondo Deli. “Não há razão para sairmos daqui, estamos felizes”, diz o antigo jornalista. Na Alemanha, completa Markus, “seria impensável fazer este projecto”. “Não sei que outra cidade nos poderia oferecer mais.”

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