Alma 560

Crónica

Abrir um negócio português no Dubai

O custo de abrir um espaço pequeno, como o Alma 560, no Dubai equivale ao necessário para abrir um restaurante em Portugal ou noutro país europeu

Texto de Maria Lopes • 02/12/2016 - 12:10

Maria Lopes
Maria Lopes trocou Portugal pelo Médio Oriente e partilha as suas aventuras num blogue - take a flight on the wild side

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Natacha Matos chegou ao Dubai em 2004. Movida pela curiosidade por um país, na altura considerado um tabu, e pela vontade de desbravar o mundo, abraçou a profissão de assistente de bordo, mantendo-se fiel aos seus sonhos. "Sempre quis abrir um espaço português", diz. Volvidos 12 anos, é graças a si e à equipa do Alma 560 que a comunidade portuguesa no Dubai mata saudades dos pastéis de nata, dos rissóis, do caldo-verde, entre outras iguarias que se encontram neste oásis luso localizado no Gold & Diamond Park, Sheik Zayed Road — a mais longa “avenida” do Dubai.

 

"Alma" porque todo o projecto se relaciona com e espelha a alma portuguesa; “560” porque é o código de barras de Portugal — tudo o que é 100% português tem este código. Assim nasceu o Alma 560, duas coisas 100% portuguesas.

 

Concretizar este projecto não foi fácil. O custo de abrir um espaço pequeno, como o Alma, no Dubai equivale ao necessário para abrir um restaurante em Portugal ou noutro país europeu. O conceito ou marca têm que estar muito bem estabelecidos no estrangeiro, no Dubai impera o "franchising" em detrimento do "enterpreunership". Há também imensas regras impostas que variam consoante a entidade que arrenda. Neste caso, o nível de exigência foi alto em todos os parâmetros, desde os materiais de construção do espaço às matérias-primas usadas na confecção alimentar.

 

A gestão de fornecedores é outro desafio. Todos os produtos são importados e a sua disponibilidade pode sofrer oscilações ou deixar de existir. “Há fornecedores para cada tipo de produto, o que se traduz em cerca de 40 fornecedores para um espaço pequeno como este. A maior dificuldade é coordenar todos e manter um 'standard' nas matérias-primas e no produto final”, explica Natacha. “Por exemplo, agora não há fiambre de bife; então, todos os produtos com este ingrediente têm que ser adaptados. Faz falta uma Makro como há em Portugal.”

 

Contra todas estas marés, o Alma veio para ficar. Com um conceito à parte do Dubai "posh" e luxuoso, este canto proporciona o ambiente descontraído dos cafés de bairro onde se pode dedilhar o Diário de Notícias enquanto se ouve um faducho. Há paredes caiadas, um cheirinho a café e pastéis de nata a sair do forno, graças a Carlos Bruno, o chef pasteleiro que veio de Portugal única e exclusivamente para integrar este projecto. Para Natacha, a sua presença no Dubai é uma mais valia. As manifestações sonoras associadas ao prazer dos clientes em cada trinca de doçaria portuguesa são a prova do seu sucesso.

 

O Alma já ganhou o coração de sul-africanos, indianos e ingleses. A comunidade local vai aos poucos sendo conquistada e tem especial predilecção pelo pão e caldo-verde. Os bolos com mais saída são o bolo de arroz, o guardanapo e o palmier. Mas é o pastel de nata que faz as honras à casa. “As pessoas apaixonam-se pelo pastel de nata."

 

Para o acompanhar não podia faltar o melhor café. No Alma, tudo é pensado ao pormenor com foco máximo na qualidade dos produtos: os mais frescos, caseiros, sem corantes nem conservantes. Como barista profissional, Natacha não podia deixar o café ao acaso e trabalha com uma empresa que o torra a cada 15 dias.

 

Para além de um sonho realizado, este espaço é para Natacha o motor de um orgulho maior: ser portuguesa e dar a conhecer ao mundo o que é realmente português. “Dá-me imenso gozo ver e ouvir as pessoas a comer um pastel de nata. Há sempre um som de prazer e ainda não houve uma pessoa que não gostasse.”

 

E se à porta humildemente bate alguém, seja português ou estrangeiro, é para se sentar à mesa com a gente. Bem-vindos a esta casa portuguesa no Dubai.

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