São Miguel

Aos 17 anos, Paula criou um queijo de água azeda

Como a jovem Paula reinventa o queijo no seu “laboratório” improvisado (a cozinha da exploração leiteira da família)

Texto de Andreia Marques Pereira • 28/05/2016 - 16:38

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Na escola, os colegas de Paula Rego já lhe pedem emprego. Afinal, não é todos os dias que se tem uma colega no 10.º ano (da Escola Básica e Secundária da Povoação) a formar uma empresa. Paula fê-lo, com o pai, Carlos Rego, porque criou um queijo — ou melhor, vários queijos que têm a particularidade de ter como ingrediente “secreto” água das Furnas. Fez testes com duas das águas que saem das pequenas fontes termais que abundam entre as fumarolas das Furnas, cada uma com características particulares, e a azeda foi a que deu melhores resultados. Com ela fez o queijo “normal” e mais três: um com orégãos, outro com tomilho e outro ainda com alho. Vêm em três tamanhos (250 gramas, 500 gramas e um quilo) e três estádios de cura (o amanteigado, o de meia cura e o curado). O curado será a aposta menor, explica Carlos. “Se o de meia cura não se vender todo, prolongamos a cura e temos o curado.” Nos sabores, o de orégãos é muito apreciado, os de tomilho e de alho registam opiniões radicais. “Já estávamos à espera.”

 

Provamos os queijos no “laboratório” improvisado (a cozinha da exploração leiteira da família) onde Paula, qual alquimista, fez os seus testes até chegar à receita final. “Agora é só aprofundar”, diz o pai. Se Paula fala com timidez, as suas ideias são audazes. O Queijo Furnense deverá estar a chegar ao mercado por estes dias (no início de Abril, a fábrica, no centro das Furnas, estava em fase de conclusão, e as licenças estavam pedidas), ainda faltam dois anos de ensino secundário, porém Paula já tem planos para depois. “Quero agarrar a oportunidade para fazer mais”. E mais é abrir uma confeitaria ao lado da fábrica para servir o próprio iogurte e gelados — vai ser o seu projecto final do secundário, a Prova de Aptidão Profissional. Pelo meio, ainda quer fazer formações “curtas, intensivas”, na França, Suíça, Holanda, tudo países onde a produção de queijo está muito desenvolvida.

 

Por enquanto, vai lançar-se na produção a sério, continuar a ir à escola e a fazer a ordenha depois — ao fim-de-semana também de manhã, às 5 horas. “Já o faço desde pequena, desde os seis anos.” Nessa altura, apenas ao fim-de-semana, a partir do sexto ano, diariamente. Ela e o irmão, Paulo, dois anos mais velho, que agora ganha responsabilidades extra com o gado — anda por aqui, sem parar e em pouco há-de começar a ordenha. É que a família é criadora de gado: tem cem vitelas (“as geishas”) e quase o mesmo número de vacas leiteiras. E foi o problema das quotas leiteiras que pôs, no final de 2014, Carlos Rego a pensar no futuro e Paula a pensar no queijo. “Não tínhamos experiência nenhuma”, recorda Paula, “começámos do zero: como pasteurizar o leite, encher...” Tiveram a ajuda de um engenheiro amigo e de outras pessoas. “Aqui nunca se sabe tudo. Um sabe isto, outro aquilo.”

 

Não foi fácil para Paula chegar até aqui. “Tive problemas com os professores”, conta Carlos, “que consideravam exploração infantil. Mas eles sempre quiseram vir. Ainda hoje o maior castigo que lhes posso dar é dizer que não podem ir às vacas”. Lembra que, quando Paula tinha 10 anos e o irmão 12, esteve internado no hospital e foram eles que controlaram tudo na exploração. “A mãe trazia-os e eles tratavam de tudo.” Isso, “andar nas vacas”, continua, não impediu o filho de estar no Parlamento dos Jovens pela sua escola, “agora vai à próxima fase”, e de Paula estar a criar um negócio. Já as duas filhas mais novas, de 10 e 12 anos, não querem nada com este mundo, diz, por isso não vêm — a de 12, porém, já mostra o mesmo espírito empreendedor dos irmãos e criou um sabonete de camélias e argila no âmbito de um programa de empreendedorismo jovem na escola.

 

Os mais velhos, apesar de as coisas terem mudado, “agora já fazem noitadas”, sabem que “podem não ter hora para chegar mas têm para sair, às 5 horas”, diz o pais, rindo-se. “Nunca falham.” Paula confirma. E não quer outra coisa. “Faço isto desde pequena, já estou habituada, não mexe muito comigo. E agora, com o queijo, ainda estou mais feliz, fui eu que o criei.” O pai, que já investiu cem mil euros no projecto – “não pedimos subsídios se não só em 2018 teríamos queijo”, ironiza — não tem dúvidas de que “isto é para o futuro”. “É cada vez mais difícil arranjar emprego... Já parece anedota, excesso de currículo para ter emprego.” Aqui, já tem tudo planeado: o Paulo trata das vacas, a Paula ficará mais com o queijo — tudo em família: o leite vai directamente para a fábrica. E sobrará muito: produzem-se 2.700 litros por dia, Paula vai trabalhar 500 litros por dia. Tudo virá daqui da Lagoa Seca (“Na última erupção, em 1630, a lagoa [das Furnas] mudou para onde está agora. Mas a água que cai aqui não sai, já chegamos a ter 10 hectares de terra submersa”, explica Carlos Rego), a poucos quilómetros das Furnas, rodeada de vales verdes, pastagens em baixo, criptomérias mais acima, onde somos recebidos pelo Rex, o labrador da família, patos, gansos e muitos gatos. Mas as estrelas são mesmo as vacas — e retiramo-nos quando começa a segunda ordenha do dia.

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