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Elsa Viegas: ela fez um vibrador discreto em forma de diamante

Como é que uma designer gráfica acaba por fundar uma empresa na área do erotismo para mulheres (a Bijoux Indiscrets, presente em 22 países) e idealizar um vibrador em forma de diamante (o popular Twenty One)? Esta é a história de Elsa Viegas

Texto de Amanda Ribeiro • 15/04/2015 - 16:19

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Elsa Viegas pára poucas vezes para pensar. O que "também é um erro", diz, entre risos. Ou talvez não. Com 38 anos, Elsa Viegas é uma das fundadoras da Bijoux Indiscrets, empresa espanhola de produtos sensuais que lançou em Novembro o seu primeiro brinquedo sexual: o Twenty One, um elegante massajador vibratório em forma de diamante, o primeiro do género no mundo. Esta é a história de como esta jovem designer gráfica portuguesa, a viver em Barcelona há 11 anos, se transformou numa empreendedora e, arriscamos, inventora na área do erotismo e sexualidade, especialmente para mulheres.

 

"Não me imaginava a fazer o que faço, mas agora não me vejo a fazer outra coisa." Natural de Lagos, saiu da ESAD das Caldas da Rainha para se dedicar ao design gráfico. Ainda passou dois anos pela Exposalão, antes de cruzar a fronteira com destino a Barcelona, uma cidade ainda hoje "efervescente a nível de design". Foi na empresa de publicidade em que trabalhou alguns anos que conheceu aquelas que viriam a ser as suas sócias, as espanholas Cristina Fernandez e Marta Aguiar. Elas da gestão e contabilidade, Elsa da direcção de arte.

 

As três, mulheres, sempre tiveram um fraquinho por este sector. Mas quando procuravam alguma coisa, fosse produtos, lingerie ou acessórios, raros eram os produtos que lhes enchiam as medidas. "Ou não tinham muita qualidade ou não tinham boa apresentação", conta Elsa. Começaram por pensar numa loja, um espaço "que fosse agradável para as mulheres e que oferecesse uma selecção de coisas bonitas". Assim, "à la" Kiki de Montparnasse ou Coco de Mer. Investigaram: viajaram, compraram muita coisa, experimentaram outras tantas. E perceberam: "É possível." Tempo de juntar as poupanças.

 

Coisas bonitas para desfrutar a vida sexual

A loja acabou por evoluir para uma marca, que hoje, nove anos volvidos, está presente em lojas de 22 países (inclusive Portugal). E pensar que, no início, tudo cabia na garagem do tio de uma das sócias. Os primeiros produtos? Elsa ri-se. Em 2006, diz, o que faltava era um produto "completo". Isto é, que respondesse às clientes que entravam numa loja a dizer "quero fazer um 'striptease'" ou "quero experimentar uma sessão fotográfica". Elaboraram, então, cinco "packs gigantes" com diferentes argumentos: do "striptease" (com todos os elementos, da música a adereços como a "boa de penas") ao agente secreto ("o nosso primeiro 'kit de 'bondage'"), passando pela pintura corporal.

 

Hoje, a Bijoux Indiscrets, nome herdado de Diderot, também mudou. "Se no início, o nosso discurso era mais focado no casal, agora dirigimo-nos muito às mulheres." Gerida no dia-a-dia por Elsa e Marta, a Bijoux é, nove anos depois, uma empresa com uma equipa de 13 pessoas que se foca em produtos para elas. Dedica-se "à sensualidade, ao erotismo e sobretudo à imaginação" (muitos produtos têm um duplo uso, como algemas que se transformam em pulseiras). "No fundo, são coisas bonitas para desfrutar mais a vida sexual."

 

Como o Twenty One, o "melhor amigo da mulher", avisa o "slogan", avisa a Marilyn. Um pequeno vibrador que não o parece ser. Feito de plástico ABS, cabe perfeitamente na palma da mão, é silencioso, à prova de água e recarregável por USB, com três intensidades e sete modos vibratórios. "Uma aventura", descreve Elsa, que lhes ocupou 2014 e parte de 2013. Dez mil foram vendidos nos primeiros meses de lançamento — e o tempo continua a passar.

 

Vibrador que pode ficar esquecido na sala

Ao estarem neste mercado, era "obrigatório" terem um brinquedo sexual. "Era a nossa disciplina pendente", admite Elsa. E quanto mais investigavam a anatomia feminina, e respectivo desconhecimento, questionavam-se: "Como é que pode ser possível que os grande parte dos produtos dirigidos às mulheres sejam fálicos e, muitas vezes, de formas e tamanhos exorbitantes, quando 75% delas precisam de estimulação externa para atingirem o orgasmo?" A pergunta orientou algumas das premissas que se seguiram: a existir um "sex toy" com a assinatura Bijoux Indiscrets, este teria de ser "de uso externo, bonito, extremamente discreto", explica. "Que possa ficar em cima da mesa", conclui, "e ninguém descubra o que é".

 

Depois de várias tentativas falhadas (e alguns protótipos: "Um dia ainda vão sair da gaveta e fazemos uma exposição do que não saiu", graceja a empreendedora), Elsa teve o seu momento "eureka". Virou-se para a sócia e disse: "Vamos fazer um diamante vibrador". Assim foi. "Fazia sentido que fosse uma jóia — nós chamamo-nos Jóias Indiscretas — e que fosse icónico." E o diamante "dura para sempre, é extremamente belo, tem um valor incalculável". Depois, confirmaram que a forma era ergonómica, "que funcionava onde tinha de funcionar", enquanto "objecto de prazer".

 

Para Elsa, o Twenty One pode ser assim um "quebra-gelo" para quem nunca adquiriu estes objectos mas sempre teve curiosidade, não só pelo preço (49.95€, longe do praticado pelos brinquedos, "autênticas obras de arte", de marcas como a Lelo ou a Crave) e da forma (um diamante dourado). "Chegamos a pessoas que talvez nunca usassem estes produtos", confirma a empreendedora. As reacções são várias: "Como é que pode ser um objecto sexual?"; "claro que se pode deixar em qualquer sítio"; "claro que se pode oferecer a qualquer pessoa."

 

O cuidado estético é, aliás, uma das características que ressalta em todos os produtos. Basta espreitar a loja online. De velas a óleos de massagem, das tintas corporais comestíveis aos tapa mamilos Mimi e à máscara Shhhh, a mais popular até à chegada do Twenty One, todos os produtos são sóbrios e discretos, principalmente quando comparados com a oferta que se encontra nas "sex-shops" convencionais.

 

A consciência ambiental é uma outra constante, como se pode avaliar, por exemplo, ao espreitar a secção de cosmética. E isto numa altura em que se começa a questionar se a ecologia chegou realmente ao sexo, com a ascensão de novos produtos "amigos do ambiente" na indústria. Dos preservativos à lingerie. "É uma tendência que está a acontecer, sim", confirma Elsa. "Acho que o mercado erótico ao aproximar-se do consumidor, tornando-se mais 'mainstream', também teve de reflectir as suas necessidades e exigências." Dentro da Bijoux, porém, é um cuidado que adoptaram desde o primeiro dia. Em relação ao ambiente, ao corpo humano (produtos sem parabenos e 100% naturais), aos animais (não aos testes e a elementos de origem animal). "Sou vegetariana e sou um bocado extremista. Acho que devemos respeitar os animais."

 

Mulheres estão "mais interessadas" 

Em nove anos, uma outra coisa mudou: o comportamento do sexo feminino. Elas estão "mais interessadas" neste universo, mas ainda é "subtil" — e sim, "As Cinquentas Sombras de Grey" podem ter sido uma porta de entrada (ouvir som à esquerda).

 

Correndo o risco de estar a "generalizar", Elsa considera, no entanto, que quando numa relação heterossexual o "poder de decisão é delas". Dentro dos perfis de clientes, há dois que se destacam: o das mulheres com mais de 40 anos, "confortáveis com o corpo e a sexualidade", que podem estar novamente solteiras ou, quando numa relação, estão num "momento em que exploram mais"; e o das jovens, entre os 25 e os 30 anos, com quem a empresária se diz "agradavelmente surpreendida": "São aquelas que estão a apostar forte na sua carreira profissional, independentes a nível económico, que até acreditam no amor romântico e procuram alguém, mas também vão explorando a sua independência a todos os níveis." Em oposição, entre os 30 e os 40, sente ainda uma curiosa "mentalidade conservadora".

 

Agora, depois do Twenty One, a Bijoux Indiscrets vai "voltar às origens" e apostar na gama de acessórios e de fragâncias (para lençóis e lingerie, principalmente). Para breve, está também uma colaboração com uma designer portuguesa para uma colecção de acessórios. E, para o ano, no 10.º aniversário, um "projecto enorme", no segredo dos deuses, para "lutar pela igualdade de género". Porque estão cada vez mais "determinadas em fazer a diferença na vida, na sexualidade das mulheres". "E isso é uma responsabilidade."

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