Gastronomia

A Comida da Vizinha: um site para partilhar refeições caseiras

O objectivo do projecto A Comida da Vizinha é aproximar as pessoas. Nesta plataforma é possível ser cozinheiro ou comprar comida caseira aos vizinhos a preços simpáticos

Texto de Mariana Correia Pinto • 09/06/2014 - 16:40

Distribuir

Imprimir

//

A A

Foi a paixão pela cozinha que o levou a aderir ao projecto. Manuel Soares estava em Amesterdão à procura de um trabalho e cruzou-se com um anúncio da empresa Share Your Meal, uma plataforma holandesa inspirada no poder da partilha onde se vende e compra comida caseira a vizinhos por preços praticamente simbólicos. O jovem portuense não só conseguiu o emprego como se transformou em cozinheiro na plataforma.

 

Vamos recuar. O casal holandês Marieke e Jan tinha pouco tempo para lides culinárias e a vizinha Janelva invadia-lhes frequentemente a casa com aromas tentadores. Um dia, há pouco mais de um ano, Marieke ganhou coragem e bateu-lhe à porta para descobrir os segredos. Saiu de lá com uma sopa de abóbora.

 

O momento tornou-se uma rotina e inspirou a criação de uma plataforma baseada na partilha e na troca onde qualquer pessoa pode registar-se e dar a conhecer o que está a fazer para almoço (ou jantar) do dia ou simplesmente procurar o que é que os vizinhos estão a cozinhar.

 

É esse o conceito do Share Your Meal, que na Holanda conta com 60 mil utilizadores registados, sete mil cozinheiros e 400 refeições por dia. Em Portugal os números são outros: Manuel Soares tornou-se responsável pela internacionalização do projecto, que por cá ganhou o nome de A Comida da Vizinha, há cerca de meio ano, mas a adesão do público tem sido difícil.

 

“As pessoas acham boa ideia, mas julgo que ainda falta o clique, a aceitação não é muito grande. Talvez os portugueses sejam mais fechados, estamos a crescer muito lentamente”, confessou ao P3.

 

"Combater o isolamento social"

Objectivo principal do projecto nas palavras de Manuel Soares: “Combater o isolamento social através da partilha de refeições. Acreditamos que comer une as pessoas.” No site, é possível fazer pesquisa por área geográfica e perceber que refeições estão os vizinhos a preparar nesse dia. Depois de estarem registados, os utilizadores podem contactar os cozinheiros e combinar preços, local e horário de entrega. 

 

Maria Rodrigues aderiu à plataforma pouco tempo depois de estar online. “Gosto muito de cozinhar e achei engraçado poder partilhar as minhas receitas e convidar pessoas para a minha casa”, diz a técnica de Análises Clínicas de Vila Nova de Gaia, que garante já ter deixado alguns estrangeiros felizes com os seus cozinhados na altura do Natal.

 

Apesar de os criadores do projecto fazerem questão de salientar que a ideia do projecto não é que os cozinheiros lucrem muito com a venda de refeições, a verdade é que os preços afixados são definidos por cada utilizador. Desempregada, Rute Pereira andava na internet em busca de alguma forma de fazer um dinheiro extra. “Uma amiga falou-me deste site e arrisquei. Como adoro cozinhar juntava as duas coisas”, contou.

 

Já vendeu umas dez refeições e pretende tornar-se ainda mais assídua na plataforma. Preços? “Anda à volta dos cinco euros a dose, mas uma dose bem aviada. E às vezes ainda acrescento sobremesa.”

 

“Fazer um dinheirinho extra” foi também uma das motivações de Manuel Soares, que usa a plataforma em Amesterdão: “Comecei a adicionar as refeições que fazia e comecei a receber encomendas de pessoas que queriam provar os meus pratos. Vinham a minha casa com ‘tupperware’ buscar refeições”, contou o jovem de 28 anos licenciado em Marketing e responsável pela página portuguesa.

 

Há quem opte por partilhar não só a comida mas também o momento da degustação: “Fica ao critério de cada um”, explica. No caso de Manuel Soares a experiência serviu para conhecer quem eram os vizinhos. “Não fiz grandes amizades, mas fiquei a conhecer melhor as pessoas que moram perto de mim, acho que isso já é importante.”

 

O responsável pela plataforma em Portugal salienta o facto de os dados pessoais como morada e contacto telefónico só estarem disponíveis depois de uma primeira abordagem: “Não estão na net para todos os que queiram ver. Só a partir do momento em que se faz a encomenda e que o cozinheiro aceita é que o comprador tem acesso.”

 

Rute Pereira nunca teve qualquer problema, mas pelo sim pelo não opta por “ter companhia no momento da entrega”. “Não conhecemos as pessoas, é uma questão de prevenção”, diz. Usar a plataforma como ‘foodie’ é também uma experiência a pôr em prática, mas isso terá de ficar para mais tarde, quando a situação financeira conhecer melhores dias.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que