Hugo Costa

Tendência

É para todos: cada vez mais, a moda não tem género

Em Portugal, marcas e designers estão a deixar de pensar em públicos diferentes quando criam. Desde peças de roupa até à joalharia, tanto dá para homem como para mulher. Sem etiquetas e sem preconceitos não seria tudo mais fácil?

Texto de Ana Jorge Teixeira • 08/05/2018 - 08:06

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As barreiras estão a ser quebradas e são várias as marcas portuguesas (e internacionais) que estão a lançar colecções sem género. O objectivo? Acabar com os estereótipos e abrir mentalidades. Roupa, calçado, jóias ou malas. Em Portugal, multiplicam-se as ideias e nascem colecções de todos os tipos.

 

Hugo Fraga é o rosto por detrás da marca de joalharia que cria peças iguais para homens e mulheres. "Reparei que na joalharia em Portugal não havia nada do género", recorda o jovem criador. Nascia então, no ano passado, a Fraga, a marca de jóias unissexo que quer quebrar paradigmas sociais. "Não queremos ser aquela marca que vem do sonho de uma mulher ou do homem perfeito. A Fraga é para todos." O designer Miguel Marques da Costa partilha da opinião e acredita que cada vez mais a moda não tem género. É essa, aliás, a premissa da C.R.T.D (CURATED), a marca que lançou em 2017 especializada em camisas: "Usa quem quer."

 

Não são os únicos. Há inclusive quem tenha a mesma preocupação no que toca às roupas dos mais pequenos. "Com o nascimento dos nossos filhos, começámos a perceber que a roupa estava demasiado dividida por géneros", contam Bárbara Barreira e Mariana Santiago, as promotoras e criadoras da Blake, marca portuguesa de roupa infantil sem género. Para elas, não interessa se é rapaz ou se é rapariga. "São apenas crianças. Podem ser quando crescerem e durante o percurso da vida deles quem eles quiserem." O mundo Blake (como lhe chamam) é o mundo no qual gostavam que vivessem os seus filhos, o "mundo da igualdade, onde não há estereótipos".

 

Afinal, porque é que que as roupas têm de ter género? Porque é que uma mulher não pode vestir um casaco de homem? Porque é que um homem não pode vestir um casaco de mulher se lhe servir? As questões são levantadas por Hugo Costa, jovem designer de moda, natural de São João da Madeira, que desde 2016 tem marcado presença na semana da moda masculina de Paris. E dá o exemplo revolucionário de Coco Chanel, que masculinizou o vestuário feminino. "O que é que isso tinha de transcendente em termos estéticos, em termos de peças? Nada. Criou uma estética nova que foi uma mulher vestir roupa de homem ou que era conotada como roupa masculina." Dolores Gouveia, especialista em tendências, design e marketing de moda, aponta para o exemplo das marcas escandinavas, como a COS ou a Acne Studios, que inspiram um "mundo com looks sem género e oversized" — talvez não seja por acaso que esta tendência venha de países onde a igualdade entre géneros é mais expressiva. 

 

"Cada vez mais não se fala de um homem ou de uma mulher. Falamos de pessoas, de estilos, de formas de estar." É este o ponto de vista de Sara Mateus e da irmã Ana que representam a segunda geração da empresa fundada pelo pai, António Mateus, que deu nome à António - A Handmade Story. "Havendo marcas assim educam-se, de alguma forma, as mentalidades e conseguimos ultrapassar preconceitos", acrescentam. Assim, lançaram uma colecção de acessórios em que alguns dos modelos se adaptam tanto a homem como a mulher. "Temos dez modelos de malas, sendo que dois deles são masculinos e um é unissexo. Os dois modelos masculinos servem perfeitamente para mulher. Depois temos modelos femininos que também se adaptam a um género masculino."

 

É um sinal dos tempos. "O facto de várias marcas nacionais estarem a apresentar colecções sem género é resultado de um mundo globalizado em que as influências se espalham quase em simultâneo pelos diferentes territórios", sublinha Dolores Gouveia. Já em 2007, Mark J. Penn incluía este fenómeno no livro Microtendências, que compilava mudanças que estavam a transformar o mundo. O autor, relembra a especialista, dava "conta de sinais que indicavam que esta era uma tendência em crescimento rápido, designadamente dado o número crescente de pessoas que rejeitavam a categorização masculino/feminino". "Desde os anos 70", refere o analista norte-americano, que se "verifica um esbatimento substancial da linha entre feminino e masculino em termos de hábitos, gostos e moda".

 

Nem mesmo o calçado escapa. Marcas como a Eureka ou a Perks renderam-se à tendência e criaram sapatos destinados tanto ao público masculino como feminino. Em entrevista por escrito ao P3, Catarina Pires, directora de marketing da Eureka, conta que a ideia surgiu em 2011, "aquando da comemoração dos 25 anos da empresa com o lançamento do primeiro sapato produzido pela Eureka — o clássico Oxford”. No entanto, esta aposta não é uma novidade. "Todas as estações são criados modelos unissexo."

 

Lá fora, também já abraçaram a tendência grandes marcas como Calvin Klein, C&A, Reebok ou Zara — em 2016, a multinacional espanhola arriscou e criou a colecção Ungendered. Também a empresa de brinquedos Toys "R" Us lançou uma linha de roupa de género neutro para bebés. O mesmo fez a John Lewis. "Não queremos reforçar os estereótipos de género com as nossas colecções", afirmou a responsável pela moda infantil da marca, citada pelo Independent. Tudo Lindo e Misturado, como apela a C&A na sua primeira colecção sem género, que quer mostrar que cada pessoa pode vestir o que bem entender. Também o projecto Phuild, em Nova Iorque, foi criado para encorajar as pessoas a serem elas mesmas. Para que todos se "expressem livremente, sem julgamentos ou medos — apenas liberdade". É a primeira loja de roupa "sem género" inaugurada na cidade.

 

E em Portugal, estará a moda livre dos preconceitos?

Em Portugal, diz Miguel Marques da Costa, ainda se verifica algum preconceito. "As pessoas não podem ser muito livres de vestirem o que querem", diz o fundador da C.R.T.D. Por isso, quando cria, quer transmitir liberdade. "Não quero dizer o que é que as pessoas têm que usar, não quero dizer como é que as pessoas podem usar, nem quando é que têm de usar. Eu faço uma peça e as pessoas escolhem quando, como, tudo." Já o criador portuense Ricardo Andrez tem uma outra opinião. Apesar de "não pensar muito nisso" quando desenha, o jovem estilista afirma que o preconceito "tem sido reduzido" e que acontece mais entre homens, pois "as mulheres não se importam nada de vestir uma camisa que era de homem". É tudo uma questão de "a moda acompanhar a sociedade actual" para que seja "o espelho da sociedade". Sociedade essa que, sim, ainda pode "ter preconceitos acerca da moda", ao contrário do "mundo da moda" onde "nunca houve grandes preconceitos", aponta Hugo Costa.

 

Na Blake, os clientes começaram a aceitar de uma "forma mais natural o unissexo". "A grande maioria das pessoas, e principalmente quem nos procura, é porque acha uma boa ideia, um bom conceito para passar às crianças", explica Bárbara. Mariana Santiago concorda, ainda que sublinhe que tudo depende da escolha de cada um: "A rapariga, se quiser, pode andar vestida de princesa, assim como o rapaz, se quiser, pode andar vestido de cowboy". Hugo Fraga reforça que as marcas devem ser inclusivas e que ninguém deve "ficar de fora". O que o leva a definir a sua marca de jóias como uma "marca interventiva", "sem rótulos", que "quer estar junto das pessoas".

 

Na opinião de Dolores, "a população genderqueer tem um papel fundamental na promoção do princípio 'a identidade tem menos a ver com o ADN do que com o 'eu'", um fundamento, abraçado pelos millennials e pela geração Z, que "vivem na expectativa de um novo paradigma em que a inclusão é um dos principais valores". "Estamos a falar de uma geração que questiona os papéis de género, o que se reflecte na moda." E como? Segundo a plataforma de tendências global Worth Global Style Network (WGSN), conta-nos a especialista, há cada vez mais millenials que se afirmam como LGBTQIA (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgénero, Queer, Intersexo e Assexual), considerando ainda que a moda associada a um género está out.  

 

Os exemplos multiplicam-se. São cada vez mais as colecções que surgem nas prateleiras para que existam cada vez menos diferenças entre homens e mulheres. É para o menino e para a menina. Sem etiquetas não seria tudo mais fácil?

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