Rua

Das mantas dos vendedores de rua de Barcelona nasceu uma marca

É um negócio, mas até pode ser um movimento. Mais de 400 vendedores de rua em Barcelona podem estar perto de se tornarem "empresários". Top Manta tem sapatilhas, peças de vestuário e malas

Texto de Pedro Castro Esteves • 24/08/2017 - 18:51

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Aziz Faye tem 33 anos, nasceu no Senegal e já foi deportado do espaço europeu três vezes. Agora, dá entrevistas a jornais para falar de uma marca de sapatilhas que nasce, literalmente, das ruas de Barcelona. Estamos a falar da Top Manta, negócio que pode até ser considerado um movimento. Aziz dá a cara, mas a ideia é do Sindicato Popular de Vendedores Ambulantes de Barcelona.

 

“Queremos criar a nossa própria marca”, conta Aziz à PlayGround, para “deixar de vender todas as marcas que exploram os seus trabalhadores”. E, por isso, as mantas estendidas nas ruas de Barcelona podem passar a apresentar sapatilhas com um logótipo diferente do habitual: uma simbólica manta, que remete para o objecto que os manteros "utilizam para a ganhar a vida", mas também para a embarcação que trouxe muitos destes vendedores para a Europa.

 

Esta iniciativa pode ajudar a desmistificar aqueles que se expõem na rua apenas com o propósito de vender o que cabe em cima de uma manta. Pelo menos é esse o combustível que alimenta a marca catalã. É o primeiro passo para um objectivo ambicioso: “Ajudar os mais de 400 vendedores que vivem em Barcelona e regularizar a sua situação para poderem trabalhar de forma digna e legal”, adianta Aziz à PlayGround.

 

Para já o caminho faz-se devagar. Os mentores da Top Manta querem passar a prateleiras a sério e largar a sempre imprevisível rua. Deram o primeiro passo na semana passada com uma instalação na praça de Raspall, em Barcelona. Já não apenas com sapatilhas estampadas com a manta, também com peças de vestuário e malas. “Estamos orgulhosos porque estamos a fazer tudo de forma legal, com número de identificação fiscal, facturas e a declarar tudo o que vendemos. Tudo é legal”, adiantou Aziz, citado pelo El Periódico.

 

Ver o que esconde a manta

Dos mais de 400 manteros a operar em Barcelona — muitos deles migrantes — , metade já demonstrou interesse em vender os produtos da recém-criada marca, mas Aziz e os seus parceiros ainda se defrontam com perseguições por parte da polícia. Foi esta a razão do aparecimento do Sindicato, em 2015, que parece ter contribuído para construir uma imagem mais simpática dos vendedores ambulantes aos olhos dos catalães. Também ajuda que quando as ruas que tão bem conhecem são alvo de ataques terroristas, como o que aconteceu há cerca de uma semana, o negócio dê lugar à solidariedade e dezenas de vendedores marchem pelas ruas.

  

Em Barcelona, as opiniões sobre o modus operandi dos manteros dividem-se, apesar de — como noticiava o The Guardian — lhes ser reconhecida a tentativa de manter uma vida honesta, ao contrário de carteiristas espalhados pela cidade. A sondagem que o jornal britânico fez nas ruas de Barcelona mostra uma população ainda a apalpar terreno virgem — afinal é uma ideia sem precedentes no mercado. Uns dizem que quem compra aos vendedores ambulantes está à procura dos logótipos das grandes marcas e não de gastar dinheiro com mais um produto desconhecido; outros apontam para uma mensagem política que pode transformar o produto num “artigo de moda de culto” no futuro.

 

Alheio ao ruído, Aziz e a sua trupe continuam a luta pelo reconhecimento. O primeiro passo pode ser olhar para quem passa quase todo o dia, exposto ao sol de Barcelona, atrás de uma manta.

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