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Crónica

O meu dicionário de moda: Kilt e Lesbian-Chic

Não esperem encontrar por aqui o mais rigoroso dos dicionários de moda

Texto de Marta Moura • 27/06/2017 - 09:45

Marta Moura, jurista e autora do blogue fashiONoir

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Kilt

É um tipo de saia masculina trespassada, de lã, com comprimento até aos joelhos e pregas laterais e traseiras arrematadas por fivelas ou alfinetes. A designação deriva do verbo de origem escandinava ‘to kilt’, que significa amarrar à volta do corpo, tendo esta peça surgido no século XVI, como vestimenta de jovens e homens das regiões montanhosas da Escócia, apresentando diferentes padrões de xadrez (denominados ‘tartan’) conforme a família ou clã a que pertenciam.

 

Impõe a tradição que o verdadeiro escocês não use nada por baixo do seu kilt (aliás, os escoceses costumam dizer algo como Isto é um kilt. Se usássemos algo por baixo, então seria uma saia).

 

A androginia está cada vez mais presente na nossa sociedade, é relativamente banal vermos mulheres com looks masculinos, mas o inverso já não é verdade. Eu (que me considero nada preconceituosa), não estou preparada para ver os homens usarem peças tendencialmente femininas, como saias ou vestidos, mesmo que a desculpa seja o Carnaval. E não é por preconceito, é porque o uso dessas peças lhes retiraria masculinidade, e gaja que é gaja gosta de homens másculos (não confundir masculinidade com o conceito tradicional de macho latino, que gaja que é gaja foge desses espécimes com quantas pernas arranjar). A questão é que seria muito difícil levar um homem a sério se ele me aparecesse à frente com um vestido cintado florido ou uma saia midi.

 

No entanto, a coisa muda de figura se estivermos a falar de um kilt, que é uma peça de roupa ultra-sexy. Só uma vez tive o privilégio de ver um homem de kilt (mais All Star mais t-shirt branca), numa saída normalíssima à noite no norte do país, e tenho a dizer que tanto eu como o amigo bi que me acompanhava ficamos com tema para cusquice — da boa — para o resto da noite. Está bem que o rapaz em causa era giro que se farta e tinha um corpitxo muito jeitoso, o que dá logo um up a qualquer kilt, mas ainda que ali houvesse uma barriguita de cerveja não fazia mal: um kilt dá sempre um charme.

 

Dito isto, e já que há dias mundiais para tudo, alguns verdadeiramente estúpidos - como o Dia Mundial do Disco Voador ou Dia Mundial de Lavagem das Mãos - para quando o Dia Mundial do Kilt?

 

Os homens usavam-no nesse dia (podia ser alugado, não tem problema nenhum), sem nada por baixo, claro, que há tradições que não se devem perder (além de que os gajos ainda não estão formatados para usar saias) e saíamos todos a ganhar.

 

Eles por experienciarem uma cumplicidade viril durante um dia inteirinho, não é todos os dias que andam a apanhar ar fresco no material.

 

Elas por saberem que eles iam andar um dia inteirinho a apanhar ar fresco no material. E não, não era preciso insinuarem nada, que o ato de usar um kilt é autossuficiente. Porque a imaginação continua a ser o mais saboroso dos condimentos.

 

Lesbian-Chic

Prometi a mim mesma que não ia voltar a fazer referência, neste dicionário, a qualquer-coisa-chic (até porque tinha pensado em escrever sobre o LBD, ou seja, o Little Black Dress, e, antes de explicar o que a abreviatura significa, fazer uma piada parva, do género Aposto que as luzinhas da vossa mente pervertida começaram logo a piscar, a achar que vou debruçar-me sobre uma qualquer prática sexual, verdade? Como Lesbian Bondage Date ou Libidinous Beat Desire) mas descobri que, no mundo da moda, existe a expressão Lesbian-Chic (só para avançados) e pensei Pára tudo, tenho de escrever sobre isto (atenção que pára se escreve atualmente para, mas como isso não faz sentido nenhum e induz quem lê em erro, violo uma vez mais o desacordo ortográfico).

 

A expressão Lesbian-Chic foi adotada para fazer referência à encenação e atitudes das modelos em campanhas publicitárias e editoriais em que, de forma mais ou menos explícita, se faz alusão ao sexo (no caso concreto, entre mulheres).

 

Ora, bastou que algumas mentes visionárias descobrissem que este tipo de campanha é extremamente eficaz - nomeadamente pela polémica que provoca e, em consequência, por gerar discussão pública -, para grandes casas de moda aproveitaram a deixa e recorrerem a esta estratégia (como a Dior, a Louis Vuitton ou a Gucci) e, sem grandes dificuldades, amealharem mais uns trocos.

 

Não tenho nada contra. Toda a gente sabe que os homens adoram ver mulheres com ar de que se vão comer e a nós não faz grande confusão (digo eu, de forma leviana, que deve haver por aí gente que não concorda com estas minhas afirmações generalistas). Penso, no entanto, não estar enganada se disser que se aceita mais facilmente ver duas mulheres seminuas em poses lascivas do que dois homens nos mesmos preparos. 

 

O que me faz confusão é o elitismo do conceito, que me soa a exclusivo de grupos restritos e poderosos. Por exemplo, suponhamos que a MO (a antiga Modalfa) ou a a C&A resolvem fazer uma campanha fotográfica com duas moças vistosas em poses marotas. Considerá-lo-iam Lesbian-Chic?  Hum, tenho dúvidas, falta-lhe o elemento chic.

 

Assim, e porque defendo a igualdade de oportunidades, proponho a criação do movimento Lesbian-Cool (há que cultivar o desenrascanço), a ser implementado pelos grupos empresariais com menos poder socioeconómico. Porque todas as classes sociais devem ter direito ao seu momento lesbian.

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