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Crónica

O meu dicionário de moda: Iris Apfel e Jet Set

Não esperem encontrar por aqui o mais rigoroso dos dicionários de moda. Este não é um dicionário técnico, é certo, mas é muito mais divertido

Texto de Marta Moura • 20/06/2017 - 11:29

Marta Moura
Marta Moura, jurista e autora do blogue fashiONoir

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Iris Apfel

Estudou História de Arte e era designer de interiores, tendo percorrido vários países (com o seu marido, Carl, falecido em 2015) à procura de pechinchas originais. Penso que essas viagens e a constante procura por objetos únicos influenciaram e refinaram a sua forma especial de ser. Tem 95 anos, os óculos redondos e enormes são a sua imagem de marca e, nas suas palavras, é uma "starlet geriátrica". Só posso concordar.

 

Iris é exuberante e excêntrica, reflexo da sua personalidade libertadora e algo libertária. Defensora da autenticidade e do ser (por contraposição ao parecer), é igualmente espirituosa, sábia e divertida, dizendo verdades inconvenientes com o à-vontade de quem está a dizer uma banalidade desinteressante qualquer.

 

E porque, mais do que a cota super star, admiro — muito — a mulher, não podia ignorá-la neste meu dicionário.

 

Não é tanto o seu estilo que aprecio (gosto do conceito menos é mais, já Iris diz que more is more & less is a bore); é o facto dela ser extremamente peculiar, do seu exterior materializar a sua personalidade e dela se marimbar para o que os outros pensam que verdadeiramente me apaixona.

 

Acredito que o que vestimos é uma extensão do que somos, e se há algo que me irrita é o provincianismo que teima em subsistir no nosso país. Sim, continuamos a ter uma mentalidade pequena, a olhar de soslaio para quem e o que é diferente, a cochichar entre risinhos abafados, a criticar entre dentes. E o mais curioso é que quem, por regra, critica, veste de forma tão desinteressante que mesmo com lentes fundo de garrafa é difícil notar que vive alguém ali.

 

Prefiro mil vezes ver uma pessoa diferente mas que se faça notar (se mais não for porque se sente bem na sua pele) do que uma pessoa que se anule. Chama-se individualidade, no seu melhor sentido.

 

Por isso, ao invés de nos ocuparmos com mesquinhices tontas — preocupados, essencialmente, com as opiniões alheias e com o dever ser (um conceito cheio de nada) — que tal nos dedicarmos a ser, sem amarras nem complexos, sem receios de rejeição?

 

Porque, como diz Iris, "You have to try it. You only have one trip, you’ve got to remember that". Dificilmente alguém diria melhor.

 

Jet set

Achei que fazia todo o sentido falar por aqui no Jet set, por estar irrevogavelmente relacionado com o mundo da moda. E não é que por força das profundas pesquisas que faço para escrever estas crónicas descobri que Jet set significa "conjunto de pessoas que se deslocam a jacto"? Pois é, sempre a aprender.

 

A expressão surgiu nos anos 50 — atribuída a Igor Cassini, um colunista de fofocas do New York Journal American — para designar um grupo social com poder de compra suficiente para viajar frequentemente de avião a jacto.

 

Entretanto, o significado tornou-se mais abrangente e actualmente designa um grupo de pessoas que frequenta festas e lugares de acesso restrito.

 

A verdade é que em Portugal não existe Jet set. Ou, explicando melhor, existe, mas é muito difícil pôr-lhe a vista em cima porque ele foge do "Jet setzinho" como o diabo da cruz. Então — perguntam vocês — como é que se distingue o verdadeiro Jet set do "Jet setzinho"? Fácil, fácil. Anotem:

 

1. O pessoal do "Jet setzinho" aparece nas revistas do social em festas promovidas por revistas do social, por canais de televisão nacionais e pelas discotecas pimba em voga, sendo certo que espaços como a Kadok ou o Seven são um depositário natural do "Jet setzinho". Já o Jet set só aparece nas revistas em funerais de figuras de Estado ou da nata da sociedade portuguesa, bem como em exposições de artistas intelectualmente superiores (género Paula Rego). As suas festas mantêm-se privadas porque o Jet Set não precisa aparecer, discrição é o seu nome do meio.

 

2. Se o critério anterior não for suficiente (porque há sempre pessoas do "Jet setzinho" que conseguem furar a segurança dos convívios do arqui-rival e pessoal do Jet set que, acometido de um acesso pontual de javardice, quer ir dançar o Despacito), há que atentar na vestimenta das miúdas. Se a moça usar um vestido Chanel, complementado com uns Manolo Blahnik e uma clutch Dior, mas tudo muito sóbrio e equilibrado, estamos face a uma Jet setter. Se o vestidinho gritar lantejoula e/ou glitter, e a sandália estiver a espremer os deditos, é certo que o outfit — emprestado pelo Alex´s Closet, que fica ali em Carcavelos — está a ser usado por uma "Jet setterzinha".

 

Perceberam o princípio? Qualquer dúvida que surja, é só perguntar.

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