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Crónica

O meu dicionário de moda: Evasê e Fast fashion

Não esperem encontrar por aqui o mais rigoroso dos dicionários de moda

Texto de Marta Moura • 06/06/2017 - 16:43

Marta Moura, jurista e autora do blogue fashiONoir

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Evasê

A palavra consiste numa adaptação do francês, inerente ao corte das roupas que se abrem na parte inferior (em forma de A ou de cone), podendo esse tipo de corte ser feito em calças, saias, tops, blusas ou vestidos.

 

Embora tenha sido uma péssima aluna de francês, diz-me a lógica que evasê deriva do verbo évaser, que significa, nomeadamente, dilatar, alargar e abrir, o que facilita a tarefa de reconhecer uma peça de vestuário deste tipo: se a sua extremidade inferior for mais larga do que o resto, em princípio será evasê.

 

No mundo da moda é muito frequente utilizar-se estrangeirismos, principalmente do inglês (logo seguido do francês, parece-me), pelo facto de este ser um fenómeno global e, logo, da consequente necessidade de que determinado conceito seja facilmente entendido por todos.

 

Acresce que o estrangeirismo sobre o qual me debruço – evasê – soa a chique, com uma aura algo romântica e pluricultural, pelo que defendo a sua utilização em conversas de teores vários. Dou alguns exemplos para que percebam o que quero dizer: ‘Ó querida, o Algarve devia estar ótimo, estás com um bronze de fazer inveja! Mas estás um bocadinho mais evasê, foram as Bolas de Berlim?’ ou ‘Merda, não sei se deixei o carro evasê.’ ou ‘Eh pá, quando chegámos ao hospital a Catarina já tinha o colo do útero muito evasê… nove dedos! Estava a ver que paria na autoestrada.’ ou ‘Yes, a dieta está a resultar, esta saia já me está evasê.’ ou ‘Queres ir jantar agora? É que corremos o risco de lá chegar e ainda não estar evasê’.

 

Como vêem, não é nada difícil elevar o patamar de uma conversa (de forma leve e despreocupada), ainda que ela seja perfeitamente banal ou mesmo sobre coisa nenhuma. No entanto, se acatarem os meus conselhos amigos, preparem-se para a eventualidade do vosso interlocutor não perceber um caraças do que lhe está a ser dito. Mas também que interesse é que isso tem? Ele que se cultive! E o que é verdadeiramente relevante é que, de forma simples-mais-simples-não-há, se conquista logo ali todo um outro estatuto, granjeado a curiosidade e deslumbramento. Depurado com uma pitada subtil de glamour.

 

Fast fashion

É um termo contemporâneo que se refere a um padrão de produção e consumo imediatos. As coleções de fast fashion (ou moda rápida) inspiram-se nas mais recentes tendências, dependendo este modelo de negócio da produção instantânea, em grande escala e com custos baixos. Resumindo e simplificando, a filosofia é a do usa e deita fora.

 

Foi a Zara, do grupo espanhol Inditex, que definiu os parâmetros desta indústria, e é a este grupo que pertencem algumas das lojas de fast fashion mais populares do mundo – como a Pull&Bear ou a Stradivarius –, a par de concorrentes como a H&M e a Mango.

 

Eu, que adoro trapinhos e nutro um carinho especial por peças giras a preços baixos (não me calhou na rifa herdar uma fortuna e não me alapei num gajo rico, armada em mulher moderna com a mania da independência), compro grande parte da roupa em lojas de fast fashion.

 

Penso que a grande virtude deste conceito é a de ter, de alguma forma, democratizado a moda, tornando-a acessível a (quase) todos. Se há uns anos não era tanto assim, hoje em dia só não veste bem quem não quer ou quem não tem bom gosto. E esse não há dinheiro que o compre (por transação direta, pelo menos, porque quem tenha guito pode sempre contratar alguém que o tenha - como eu, cof, cof - para o auxiliar).

 

Mas claro que há um grande mas nisto tudo. Obviamente que preços baixos para o consumidor implicam custos baixos de produção, que é o mesmo que dizer mão-de-obra impreparada e escravizada (não raras vezes com recurso a trabalho infantil), tendo os direitos dos trabalhadores tanta importância quanto o nível de alcalinidade dos lagos de Plitvice.

 

E se em grande parte do tempo isso tem a relevância que tem – uma relevância relativa face aos dramas reais e palpáveis do dia-a-dia -, às vezes, quando vou fazer uma comprita ou outra, baixa em mim um sentimento de culpa que tento afastar como quem escorraça uma mosca chata. Que mania esta de me deixar perturbar com os problemas dos outros.

 

Quando era criança e acordava com pesadelos punha-me a pensar em carrosséis que se moviam ao som de uma música mágica para afugentar o medo, e é curioso como, tantos anos depois, continuo a utilizar o mesmíssimo método, devidamente ajustado: nos momentos altamente inconvenientes em que o cérebro (esse insubordinado!) pensa naquilo que não deve, direciono-o para praias paradisíacas e risos e francesinha à moda do Porto, e num instante me passam os sentimentalismos. Aaahh, melhor assim. Até porque, vendo bem as coisas, estou mesmo a precisar de uma t-shirt vermelha e branca às riscas. E, já se sabe, uma t-shirt às riscas melhora o humor de qualquer um.

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