Jason Briscoe/Unsplash

Crónica

O meu dicionário de moda: Cai-cai e dress code

Não esperem encontrar por aqui o mais rigoroso dos dicionários de moda

Texto de Marta Moura • 30/05/2017 - 11:28

Marta Moura, jurista e autora do blogue fashiONoir

Distribuir

Imprimir

//

A A

Cai-cai

No dicionário online a que costumo recorrer a palavra aparece como caicai, desconfio que por causa dessa tragédia que é o acordo ortográfico. Embora escreva segundo o acordo (enquanto trabalhadora em funções públicas fui a isso obrigada, muito contrariada, pelo que a designação perfeita seria desacordo ortográfico), recuso-me a escrever caicai, soa-me estranho. Assim, apresento desde já as mais pouco sinceras desculpas por esta facadinha no bom (?!?) português.

 

Cai-cai é uma peça de roupa feminina que cobre o peito, sem alças nem mangas, existindo cai-cais para todos os gostos: vestidos, tops, soutiens, biquinis ou macacões, é à vontade da freguesa.

 

Estou tão habituada, desde criança, a ouvir a expressão, que nunca me interroguei sobre a sua origem. No entanto, se pensarmos um bocado, ela mais não é do que um grito desesperado e esperançoso, até ouço a multidão em uníssono: caaaiii, caaaiii.

 

Os brasileiros, mais práticos do que nós, condensaram na perfeição o sentido da coisa e chamaram-lhe tomara-que-caia. Simples, não é? (ainda me passou pela cabeça que, enquanto povo maioritariamente cristão, lhe pudéssemos ter chamado Deus-queira-que-caia, mas lembrei-me entretanto que isso podia ser considerado blasfémia, e alguém mais sensato deve ter alertado para a grande probabilidade de daí advir penalidade celeste).

 

Interessante era começarmos a utilizar expressões análogas a cai-cai para outras peças de roupa: a camisa seria abre-abre, o blazer tira-tira, as calças desce-desce, o soutien desaperta-desaperta, a mini-saia sobe-sobe, etc. e tal (peço pouca desculpa outra vez, mini-saia já não se escreve assim, mas que se lixe).

 

Até já estou a imaginar uma cena bem bonita: num momento de intimidade o homem a sussurrar, em tom excitado, à cara-metade (ou a quem quer que seja, não temos nada a ver com isso), ui, isso, abre-abre, huumm, sim, sobe-sobe, agora tira-tira, aahh...

 

Bem, acho que é melhor ficar por aqui. Antes que isto descambe-descambe.

 

Dress code

Em português significa algo como código de vestuário e consiste num conjunto de regras, escritas ou não, relacionadas com o que se deve usar em determinadas ocasiões e lugares. Há dress codes próprios para diferentes tipos de trabalho, assim como para cerimónias, formais ou informais.

 

Num casamento, por exemplo, a regra básica diz que as convidadas não devem vestir-se de branco, para não ofuscarem a noiva.

 

Mas há mais regras-chave: se o casório tiver lugar durante o dia, o comprimento dos vestidos do mulherio deve estar ali pelo joelho (ou algo acima ou abaixo, não é preciso radicalizar); se acontecer ao final do dia ou à noite, os vestidos podem/devem ser compridos.

 

Já o dress code dos homens é muito menos formal: desde que não se apresentem de calças de ganga rasgadas, t-shirt havaiana e crocs, deve estar tudo bem (uma dica de ouro, por falar nisso: não se apresentem de crocs em lado nenhum, está bom?).

 

Porque também aqui estou para vos facilitar a existência, parece-me de todo o interesse partilhar três regras básicas de dress code, mas ao contrário, ou seja, sobre o que nunca devem usar, independentemente da ocasião.

 

Para os meninos desaconselho vivamente o uso de botões de punho e (pior ainda) os botões de âncora dourados, por regra aplicados em blazers azul marinho. É que ninguém merece levar com eles nas vistas e já não se usam, pelo menos, desde 1749.

 

Sapatos com berloques também não abonam a vosso favor. Ainda que o resto do look esteja irrepreensível, uma pessoa olha-vos para os pés e pensa ok, és cabeça-de-lista do CDS à Câmara Municipal de Penamacor.

 

Finalmente, nunca, em qualquer circunstância, usem desabotoados os botões da camisa até ao nível dos mamilos (um pouco de decoro, s.f.f.). Já sei que muitos utilizadores do Tinder, neste momento, me estão a chamar démodé, mas que querem? Em aspetos fulcrais continuo a ser uma gaja conservadora.

 

Às meninas proíbo o uso de saltos agulha, a não ser que tenham um dom ou, no mínimo, 350 horas de experiência comprovada. De que vale estarem maravilhosas em cima de uns saltos de 10 centímetros se, quando caminham, parecem avestruzes com uma artrose aguda?

 

Também desaconselho o uso de roupa de cerimónia, comprada numa loja de cerimónia, quando vão a uma cerimónia. Hoje em dia, com tanta oferta, já não se justifica parecer um anúncio-neon-mas-em-mau.

 

Para terminar, esqueçam os chokers (são colares que se usam bem apertados ao pescoço), especialmente os que são uma fita de tecido. A não ser que tenham 15 anos ou sejam tão uau que tudo vos é permitido, os chokers não favorecem. Parece, antes, que andam a frequentar um curso de preparação para o suicídio.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que