LGBTI

Supermodelo Hanne Gaby Odiele revela intersexualidade e quer quebrar tabus

As pessoas intersexuais têm características sexuais tanto femininas como masculinas. Cerca de um em cada 2000 bebés nascem com uma anatomia reprodutora ou com um padrão de cromossomas que não se encaixa na definição de feminino ou masculino

Texto de Cláudia Carvalho Silva • 25/01/2017 - 12:14

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Hanne Gaby Odiele nasceu com testículos internos e sem útero e ovários. Em termos genéticos, Hanne é masculina: tem os cromossomas sexuais XY. Foi-lhe diagnosticado o Síndrome de Insensibilidade Androgénica (AIS), um estado em que os indivíduos são resistentes a hormonas masculinas, ditas androgénias, como a testosterona. Agora, com 29 anos, a modelo revela ser “intersexual”, na esperança de conseguir combater os tabus que existem em torno deste assunto.

 

Um “intersexual” é uma pessoa que nasce com uma anatomia reprodutiva ou sexual que não pode ser inequivocamente definida como sendo do sexo feminino ou masculino. O termo “intersexual” corresponde a um leque de mais de trinta diferentes condições em que uma pessoa nasce com uma variação na sua anatomia sexual, ficando com elementos tanto do sexo feminino como masculino. De acordo com as Nações Unidas, esta situação afecta até 1,7% da população mundial, aproximadamente a mesma percentagem de pessoas que nascem com o cabelo ruivo, por exemplo.

 

“É muito importante para mim quebrar o tabu”, diz a modelo em entrevista ao USA Today, considerando que, “nesta altura, nesta época, deveria ser completamente normal falar sobre isto”. A supermodelo, natural de Kortikk, na Bélgica, fez uma cirurgia aos dez anos para que lhe serem removidos os testículos. Esta cirurgia ocorreu depois de os médicos informarem os pais de Hanne que a permanência dos testículos poderia causar cancro e que Odiele não se desenvolveria como uma rapariga normal.

 

Na altura, a modelo não soube verdadeiramente a que é que estava a ser operada nem qual era, exactamente, o seu estado. “Já depois da cirurgia, sabia que não podia ter filhos e sabia que não tinha o período. Sabia que algo estava errado comigo”, explica. Só aos 17 anos é que leu sobre um caso similar numa revista e decidiu contactar um grupo de apoio na Holanda. Aos 18 anos – um ano depois de ter sido descoberta pelo estilista Tom Van Dorpe – fez uma nova cirurgia de reconstrução vaginal.

 

A modelo considera que estes procedimentos foram angustiantes e tenciona desencorajar outros pais, com filhos em situações similares, a evitarem fazerem cirurgias que são, em muitos casos, desnecessárias. “Não é assim tão grave ser-se intersexual”, diz a modelo, que não esconde o trauma provocado pela situação, explicando que preferia que tivessem sido sinceros com ela desde o início.

 

À Vogue, Odiele diz que os “médicos pensam que têm de ‘normalizar’ os bebés”, numa tentativa de os fazer parecer ou meninas ou meninos, razão pela qual a modelo se encontra agora dedicada a tentar evitar as cirurgias “que são irreversíveis e não consensuais, feitas quando [as pessoas] são demasiado novas”. Odiele, que se assume orgulhosa da sua situação, tem de tomar um substituto hormonal desde os dez anos.

 

É a altura dos intersexuais "saírem da sombra”

A modelo vai colaborar com a interACT Advocates for Intersex Youth, uma organização sem fins lucrativos que tem o objectivo de sensibilizar para a temática dos intersexuais e que tenta travar os tratamentos médicos invasivos e desnecessários, sem o consentimento dos visados. Num comunicado de imprensa, a presidente da associação, Kimberly Zieselman, que também é intersexual, afirma que a modelo conseguirá ajudar a “proteger a juventude intersexual e pôr fim às infracções de direitos humanos que demasiadas pessoas sofreram”. Adianta ainda que a interACT tem tido várias declarações de apoio por parte de organizações como a Organização Mundial de Saúde e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

 

Apesar de o quadro intersexual não ser tão raro assim, “as leis e práticas médicas ainda falham na protecção das pessoas intersexuais de cirurgias desnecessárias e irreversíveis que são, muitas vezes, prejudiciais tanto a nível físico como psicológico”, lê-se num comunicado da organização. Zieselman, presidente da interACT, também foi operada aos 15 anos para remover um útero e ovários parcialmente formados para que, segundo o seu médico, não se tornassem cancerígenos. Há dez anos, pôde consultar o seu registo médico e descobriu que a cirurgia que fez foi para remover testículos internos e que nunca tinha tido ovários nem útero; descobriu que era intersexual.

 

Odiele começou a sua carreira em 2005; já fez trabalhos como modelo para a Marc Jacobs, Chanel, Dior, Givenchy e Prada. A supermodelo é um dos primeiros nomes do mundo das celebridades a assumir-se como intersexual. “Sinto-me pronta para partilhar esta parte importante de quem sou”, afirma a supermodelo, considerando que “chegou a altura de as pessoas intersexuais saírem da sombra”.

 

O marido de Odiele, John Swiatek, disse estar feliz e “incrivelmente orgulhoso” da decisão da sua mulher de “defender crianças intersexuais de forma a dar-lhes uma oportunidade de decidirem sobre os seus próprios corpos, ao contrário da falta de opções e de informação com que a Hanne e a sua família se depararam”.

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