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Em Junho, criaram o Tincal Lab, um espaço dedicado exclusivamente à joalharia contemporânea Ana Marques Maia

Telma criou uma colecção onde utiliza o fio atadeiro, um material usado na agricultura Wek

Ana faz peças com formas arrojadas, como estes anéis da colecção "Solar" Ana Pina

Ana Marques Maia

Arte

Tincal Lab, o 4 em 1 da joalharia

Duas jovens artistas criaram um espaço inovador no Porto dedicado exclusivamente à joalharia contemporânea. O Tincal Lab é um atelier, um espaço de “coworking” para joalheiros, uma galeria e uma loja aberta ao público

Texto de Diana Pinto Alves • 06/11/2015 - 16:21

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Ana Pina e Telma Oliveira são joalheiras contemporâneas. Licenciaram-se em Arquitectura e estudaram na escola de joalharia Engenho & Arte, mas neste percurso académico nunca se cruzaram.

 

Iniciaram-se nesta arte em 2012 e foi num evento, no mesmo ano, que as jovens se conheceram. Muito havia em comum e depressa a amizade tornou-se numa parceria de trabalho. Ambas estavam a dar os primeiros passos no seu caminho profissional, cada uma tinha a sua marca, mas sentiram que havia desafios na joalharia conceptual que juntas conseguiriam ultrapassar. A falta de comunicação entre instituições e os espaços fechados ao público espoletaram o nascimento do Tincal Lab.  

 

Aberto desde Junho, este espaço na Rua de Cedofeita, no coração do Porto, é dedicado exclusivamente à joalharia contemporânea. Foi idealizado para que Ana e Telma pudessem trabalhar as suas marcas individualmente, mas funciona também como uma galeria, loja e rede de “coworking”. Um dos aspectos mais importantes deste espaço é que pode ser usado como uma oficina para os jovens joalheiros que precisam de um “empurrão” no seu percurso profissional.

 

É desta forma que as artistas querem ajudar os seus colegas de profissão a ultrapassar as mesmas dificuldades que sentiram quando iniciaram as suas carreiras. Os joalheiros podem alugar o espaço pelo tempo que quiserem e utilizar as máquinas e os instrumentos de alto investimento que precisam para desenvolver os seus projectos. Assim é criada uma rede de partilha de conhecimento sobre a joalharia conceptual, servindo assim como escola e galeria para expor as peças e trabalhos dos jovens empreendedores. Apesar de todas estas funções, o Tincal Lab não é apenas um espaço físico e é através da internet que as artistas querem divulgar a joalharia contemporânea e projectar o Porto como local de referência nesta arte.

 

Talento, técnica e criatividade

Ana Pina tem 35 anos e quando acabou o curso de arquitectura nunca pensou que o seu caminho seria feito na joalharia: “Já tinha algum interesse em jóias, mas não tirei o curso de arquitectura com esse propósito. Na verdade, cheguei a trabalhar na área, mas sentia-me insatisfeita”, diz a artista.

 

Telma Oliveira ingressou no mesmo curso mais tarde. A jovem de 29 anos sempre gostou de moda e de afirmar a diferença na forma de estar e vestir. Não se arrepende de ter escolhido a arquitectura como área de formação, porque tudo o que aprendeu neste curso transportou para a joalharia.

 

Talento, técnica e criatividade são os ingredientes para o sucesso na joalharia contemporânea. As jovens reconhecem que é necessário uma formação adequada nesta área: “principalmente quando trabalhamos com metais nobres”, especifica Ana Pina. “É preciso saber como os trabalhar e isso só vem do conhecimento e não do talento”, continua. “Mas para além da técnica, temos de ter em conta a criatividade. Não nos limitamos a fazer peças, nós desenhamos e criamos conceitos, isso só vem do nosso lado criativo e é o que distingue um artista”, completa Telma Oliveira.

 

Apesar dos percursos muito semelhantes, a arte e as marcas das duas amigas diferenciam-se em muito. Ana utiliza técnicas tradicionais, mas com um design mais arrojado e contemporâneo. Inspira-se na arquitectura, na geometria e no desenho e utiliza essencialmente metais nobres como prata ou prata banhada a ouro. Já Telma, com a marca Wek, interessa-se mais por uma joalharia plástica e gosta de explorar novos conceitos, nunca esquecendo a sua grande influência, a arquitectura. Os materiais que usa são mais incomuns e irreverentes, como o fio atadeiro, um material utilizado na agricultura que Telma transportou para uma colecção.

 

São todas estas diferenças que tornam a joalharia contemporânea mais rica. Nesta arte há espaço para experimentar e brincar com todos os materiais e conceitos, até os mais invulgares. As artistas fizeram outras formações que serviram de complemento ao curso na Engenho & Arte, onde enriqueceram o seu conhecimento quanto a novas técnicas e materiais. São estas formações mais conceptuais que também querem promover no seu espaço.

 

“Mas ainda há muito por fazer”, diz Telma. “Só agora é que começou a ultrapassar-se algumas barreiras”, explica. O que as jovens têm reparado desde que iniciaram o seu percurso, em 2012, é que o público começa a estar mais interessado e a quebrar preconceitos em relação aos materiais e ao design da joalharia contemporânea. Contudo, Ana aponta como grande dificuldade a falta de divulgação e de valorização dos trabalhos dos artistas. A comercialização das peças também tem tido algumas barreiras: “Não há muito espaço nas lojas comuns para as jóias contemporâneas”.

 

A joalharia clássica e a contemporânea não se distinguem apenas nas características. Até os consumidores são diferentes: “O nosso público é mais ligado à moda e às artes, com vontade de ser diferente, não tem idade, mas tem de ter um certo poder económico”, explica Telma ao P3.

 

Para o futuro, as jovens têm muitos planos. Mas preferem dar passos cautelosos nesta grande iniciativa. Como projecto mais próximo, lançaram um desafio a artistas contemporâneos para criar jóias inspiradas na arquitectura, com o valor máximo de 50€, mostrando que a joalharia contemporânea é acessível a todos os bolsos. Foram 30 joalheiros de 10 países que aceitaram o desafio e cada um está a criar três peças para ter em exposição e à venda no Tincal Lab a partir de 14 de Novembro até ao final do ano.

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