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Jorge Baldaia escreve quinzenalmente a rubrica "Notícias do Lado de Lá"

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Isnaba fundou, em 2008, com alguns amigos, a Associação Cultural Materiali

Isnaba fundou, em 2008, com alguns amigos, a Associação Cultural Materiali Scenici

As escolhas de Isnaba

Um restaurante
O Il Brutto Anatroccolo , no centro histórico, onde se pode saborear culinária italiana a preços acessíveis, com qualidade e num ambiente rústico encantador

Livrarias
A Libreria Dello Spettacolo e a Hoepli. Em ambas posso adquirir diversos livros nas minhas áreas de interesse, como o teatro e a música

Um parque
O Parco di Porta Venezia, porque fica no centro da cidade e tem um planetário belissimo inaugurado nos anos 30

Um museu
O Padiglione d'Arte Contemporanea, pela sua beleza arquitetónica e pelas exposições revigorantes que nos oferece

Um local especial
A Via Padova. É uma zona multicultural, com lojas e restaurantes de vários países do mundo, com pubs de jazz escondidos em garagens, mercados que vendem objectos improváveis, pastelarias sicilianas e oficinas de bicicletas gratuitas

Bares
Não tenho um preferido mas sim cinco que frequento com regularidade: Birrificio di Lambrate , Beergarden, Magnolia, Jumpin'jazz e Nidaba Theatre

DR

Isnaba Miranda

Crónica

Morar em Milão: a cidade vista por Isnaba Miranda, uma artista portuguesa de 28 anos

Isnaba Miranda vive há sete anos em Milão, onde se dedica à formação teatral e produção vídeo em contextos marginais. Fundou uma associação cultural e não pensa em regressar

Texto de Jorge Baldaia • 01/07/2012 - 17:36

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Todos nós, de longe a longe, fazemos uma retrospectiva das nossas vidas. Olha-se para trás no tempo e faz-se uma espécie de análise do rumo que levou. E queremos sempre acreditar que se tomaram as decisões acertadas. Quem tem a certeza de que as suas foram correctas é Isnaba Miranda, 28 anos, que encontrou em Milão o local ideal para se desenvolver tanto intelectual como profissionalmente. Fundou em 2008, com alguns amigos, a Associação Cultural Materiali Scenici e o resultado tem sido positivo.

 

A primeira vez que esteve em Milão foi em 2003 ao abrigo do programa Erasmus. Mas Isnaba foi uma estudante “atípica". "Acabei por me relacionar muito mais com italianos do que com outros estudantes Erasmus, quer por questões de trabalho, quer por afinidade de interesses”, conta. Talvez por isso mesmo tenha regressado dois anos mais tarde, desta vez para participar num projecto europeu e com uma bolsa Leonardo da Vinci. “Pensei que ficaria apenas por um ano. Mas ainda cá estou e hoje é a cidade que melhor responde às minhas necessidades, tanto emocionais como profissionais”, diz Isnaba.

 

Isnaba licenciou-se em Estudos Teatrais pela Universidade de Évora, onde também obteve o grau de mestre em Dramaturgia e Encenação, e é precisamente nestas áreas que desenvolve a sua actividade profissional. Na Materiali Scenici, Isnaba e restantes colegas ocupam-se “principalmente de formação teatral e produção video em contextos marginais, como estabelecimentos prisionais, comunidades de recuperação de toxicodependentes e centros de acolhimento para menores, entre outros. Basicamente desenvolvemos projectos de dramaturgia de comunidade, organizamos festivais de música e investigação teorico-prática sobre performance social dirigida a um determinado grupo num contexto específico”, esclarece.

 

E é uma actividade economicamente viável. “Quando deixei Portugal nada disto era possível. Experiências de teatro social ou performance social eram rapidamente confundidas com serviço social e não com empreendedorismo jovem. Felizmente encontrei aqui uma outra visão e hoje posso dizer que faço o que gosto”, desabafa.

 

Milão: uma cidade “pouco” italiana

De acordo com Isnaba, Milão está longe de ser uma cidade típica italiana, tal como aquelas a que nos habituamos a ver nos filmes de Fellini. “É uma cidade industrial, cinzenta, que organiza o próprio calendário e vida celebrativa à volta dos eventos do mobiliário, design e moda. Lembro-me de pensar que ia ser muito difícil viver aqui, numa cidade sem mar, sem rio, com pouca luz, com tanta neve durante o Inverno e um calor impossível e húmido durante o Verão. No entanto, acabou por se revelar uma cidade familiar, com mercados semanais, com tantas iniciativas culturais, com transportes públicos que funcionam, com pessoas que chegam de tantos países diferentes”, descreve. Digamos que é uma cidade que se estranha mas depois se entranha.

 

E a resposta para isto parece residir nas várias actividades que dão vida à cidade, sempre com muitos eventos dedicados à moda, cinema ou música. Além disso tem “alguns parques, muitos museus, cinemas e centros sociais". "Tem uma arquitectura mista, centros históricos importantes, como o Duomo e as Gallerie Vittorio Emmanuele, e muitas zonas comerciais e de lazer, como a Via Torino ou a Navigli. É uma cidade onde é muito fácil chegar, mas de onde é muito difícil ir embora”, conclui.

 

A paixão com que fala de Milão é evidente, pelo que não surpreende quando diz que não sabe quando vai voltar a Portugal. Se o fizer será certamente “por motivos pessoais, sobretudo se ligados à minha família, que continua a ser a minha prioridade principal”. Para já e como a maioria dos emigrantes portugueses, Isnaba sente na alma e no corpo os efeitos dessa palavra tão lusitana que é “saudade”. Saudade da “luz, do mar, de ir à praia em Março, dos caracóis e bifanas". "Tenho muitas saudades dos meus amigos”, diz. E eles por certo que têm dela.

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