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Crónica

Particularidades de um hotel com “mutas” estrelas

O perigo destes sítios é que depressa nos habituamos ao bem-bom. O fenómeno de aburguesamento é muito rápido. Ao cabo de três dias já nos transformámos em gordos latifundiários, a quem só falta o mordomo para arrancar as botas

Texto de Gonçalo Puga • 17/04/2018 - 13:27

Gonçalo Puga
O Gonçalo tem o blogue Gonçalve Jarco e também tem asma

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Estive num hotel com mutas estrelas e eis as particularidades que lhe encontrei:

 

Abertura de cama

Pelo nome podia ser uma jogada de xadrez, mas não é. Consiste numa pessoa que se desloca de propósito ao nosso quarto para fazer pequena dobra no lençol de cima, facilitando a entrada de pessoas labregas no leito. E consiste ainda em colocar um panito no chão de cada lado da cama de casal, que mais parece um individual de mesa trabalhado, para que o belo do hóspede não pise o super fofo e imaculado tapete, não vá dar-se o trágico contacto do seu régio pezinho com um miniborboto.

 

Os guardiões do leite

O bufete (palavra claramente preferível a buffet ou bufê) de pequeno-almoço é generoso. Mas os empregados do bufete são estranhamente ciosos do jarro de leite. Levam a mal se nos quisermos servir do precioso líquido com nossas próprias mãos. Eles é que são os guardiões do leite. Por duas ou três vezes cometi a heresia de me servir e fui completamente crivado de olhares fulminantes. Julguei que ia desmaiar. Nestes lugares não podemos extravasar a nossa qualidade de calaceiros profissionais e tentar passar por pessoas normais. Ou bem que somos porcos burgueses ou bem que somos criadagem. Não há sociedades do século XXI. Não há meios-termos. Se queremos brincar ao século XIX temos de ir até ao fim. É justo. Expressões como “Queres leite? Serve-te!” passam neste universo paralelo a “Queres leite? Eu sirvo-te, ó palhaço!”. O “ó palhaço” não é dito, mas está implícito no olhar.

 

A palermice do spa

Hoje em dia, hotel de jeito que é hotel de jeito tem de ter um spa. Eu termas ainda percebo, que sempre se aligeira uma artrite reumatóide ou um valente ataque de gatos nos brônquios. Agora o spa é pura palermice. Não digo que não seja agradável levar com vigorosos jactos de água no lombo, como se quiséssemos relaxar à metralhadora. Mas perante tamanho caudal a jorrar, não consigo conter o merceeiro que há em mim. Só consigo pensar: “Quantas descargas de autoclismo é que estão aqui? Esta malta não se cuide não, que ainda apanha uma surpresa na conta da água.”

 

A sauna é um braseiro que não se pode. Fico lá dois segundos e tenho a sensação que já levo reservas de calor para o resto da vida. Sair cá para fora é um alívio. Dá vontade de avisar os outros “Não entrem lá dentro! Está um calor horrível!”. E o banho turco ainda é pior. Ao calor insuportável junta-se uma fumarada asfixiante. Parece que estamos a assar no forno. Se eu quiser ter uma ideia do que sofre uma dourada ou um peru no forno meto-me no banho turco. É a minha forma de criar empatia com os animais que como.

 

Acho que o melhor do spa é que podemos andar de robe pelo hotel. Temos licença para robar. É um fenómeno curioso nestes hotéis chiques, há muita gente aperaltada, bem vestida, algumas de casacos de peles, e de repente vêem-se lá uns bacanos a passear de roupão e chinelas na descontra.

 

Em casa temos pudor em abrir a porta de roupão, mas aqui a malta passeia-se de robe turco como se estivesse na rua a caminho de mais uma jornada de trabalho. Acho muito bem. Sou todo a favor desta prática extremamente fofa e confortável. Mas é preciso perceber que tem um custo de palermice associado.

 

O estacionamento do veículo

Eis a suprema labreguice. Nestes sítios há pessoas que estacionam o carro por nós. É incrível, mas é verdade! E quando está um frio de rachar sabe que nem ginjas. É daqueles casos em que damos graças por estarmos instalados em Downton Abbey.

 

Mal parámos o carro à porta daquele antigo palácio aparece-nos à frente um tipo de casacão, cabelo à escovinha e auricular no ouvido, qual paquete do KGB. Por momentos pensei que ia prender-nos, mas não, só queria as chaves da viatura. Sim, porque nestes sítios de alto coturno não se diz “carro”, diz-se “o veículo” ou “a viatura”. “Carro” é muito baixo estrato. Pelo jargão, parece que estamos sempre a falar com polícias. Pelo sim, pelo não, nunca mais larguei os documentos da viatura, nem no banho turco.

 

O perigo destes sítios é que depressa nos habituamos ao bem-bom. O fenómeno de aburguesamento é muito rápido. Ao cabo de três dias já nos transformámos em gordos latifundiários, a quem só falta o mordomo para arrancar as botas. O que vale é que o feitiço se quebra mal transpomos a porta do palácio encantado e tanto nós como o carro nos convertemos novamente em abóboras. Ao mesmo tempo, não foi sem alívio que saí dali, porque aquele paquete do KGB já me estava a provocar calafrios. Ainda dei por mim a espreitar pelo retrovisor, para ver se ele não vinha atrás de nós na sua viatura.

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