Nelson Garrido

Crónica

Manual do bom turista

É claro que a Covilhã precisa de turismo. É um facto inegável. Mas ela precisa de turistas que não apresentem certos comportamentos profundamente irritantes para nós, os “locais”

Texto de Estefânia Barroso • 14/03/2018 - 11:45

Estefânia Barroso
Estefânia Barroso é professora por esse país fora. Cronista nas horas vagas.

Distribuir

Imprimir

//

A A

Quer se queira, quer não, a maioria dos portugueses vive uma relação que se pode caracterizar por amor-ódio com estes seres que denominamos turistas.

 

Nunca fui uma grande apreciadora do Algarve, assumo, porque sempre que lá ia, de férias a “turistar”, sentia que não era tratada com a simpatia que considero que me era devida. Não falo, de um modo geral, dos funcionários com que me cruzava nos hotéis, cafés, restaurantes, mas, sobretudo, dos habitantes locais. Sempre me pareceu que estes se mostravam algo zangados com a azáfama que trazíamos connosco, com as lotações esgotadas que em todos os sítios e estabelecimentos se verificavam e com o trânsito caótico que a minha presença (e a de outros turistas) aportava às cidades algarvias. É claro que o Algarve vive de turismo e dele necessita, mas à data não parava para analisar o quanto invasiva era aquela onda de turistas de todas as nacionalidades.

 

Quis a sorte (e sobretudo o trabalho) que fosse viver para Albufeira há uns anos. Sim, essa Albufeira, essa cidade que identificava como “o último lugar do mundo onde eu desejo passar férias”. E foi nessa minha estadia (que se revelou muito simpática e proveitosa) que consegui, finalmente, entender o porquê de não me sentir bem recebida quando ia passar férias ao Algarve. A verdade é que os habitantes de Albufeira vivem numa cidade pacata (excepção feita à zona da Oura), calma, com um trânsito que flui normalmente, em grande parte do ano. Ir a um restaurante é algo normal e não uma verdadeira odisseia como se sente no Verão. Ir às compras é tão fácil e normal quanto o é em qualquer outra cidade. Foi vivendo por lá que percebi que nós, os turistas, por estarmos em número tão elevado e por nem sempre termos os comportamentos mais correctos, transformávamos aquele pedacinho de céu em algo muito próximo do inferno. Manter a vida normal de quem vive por lá o ano inteiro (trabalhar, fazer compras, passear) torna-se quase impossível. O que no resto do ano se faz em meia hora leva, no Verão, de hora e meia a duas horas. Finalmente entendi a sensação de “devia gostar de ti porque trazes dinheiro para gastar cá e geras emprego, mas odeio-te visceralmente porque me incomodas, porque me obrigas a alterar o meu modo de vida”.

 

E a verdade é que não sei por que razão levei tanto tempo a perceber isso, uma vez que tenho passado boa parte da minha vida a sentir essa irritação latente na pele (e na alma) em virtude de viver perto da Serra da Estrela. Provavelmente dever-se-á a uma dificuldade em colocar-me no lugar do outro: no Algarve sou turista. Na Serra da Estrela sou uma covilhanense.

 

Contrariamente ao que acontece no Algarve, em que a invasão se dá nos meses de Verão, a nossa invasão acontece nos meses de Inverno, no Carnaval e na Páscoa, em particular. Se o Inverno for muito rigoroso, então, com muito frio e muita neve, a invasão acontecerá todos os fins-de-semana.

 

É claro que a Covilhã precisa de turismo. É um facto inegável. Mas ela precisa de turistas que não apresentem certos comportamentos profundamente irritantes para nós, os “locais”. Vejamos alguns dos comportamentos que nos conseguem irritar.

 

Nem sempre se pode subir à Serra e apreciar a sua beleza e tudo o que de bom ela tem para nos oferecer. Se estivermos perante dias de chuva e frio, será bastante provável que esteja a nevar na Estrela. Insistir em subir — "Só estão a cair uns flocos de neve e vim cá para isso" — é colocar-se em risco, demonstrando um comportamento inconsciente. Regra número um: quando está a nevar é muito difícil para o Centro de Limpeza de Neve manter as estradas praticáveis. Se o trânsito está cortado é porque não é possível manter as condições mínimas de segurança. Não insistam em subir e em querer passar. Colocam-se em perigo a si e àqueles que terão de os ir resgatar. Estamos na Serra e estas situações podem acontecer. Sim, vieram à Serra e não foram à Torre. Pode acontecer! E com frequência. Não se queixem em voz alta pelos cafés da Covilhã, referindo que “é mesmo cidade de interior” e que noutros locais — “Andorra e afins” — isso não aconteceria. É desagradável e, no fim de contas, não altera em nada a situação.

 

Por favor, não usem o outfit típico do turista na cidade. A Covilhã está às portas da Serra da Estrela, mas não é a Serra da Estrela. Uma pequena pesquisa antes de vir servirá para entender que as temperaturas não são tão baixas que exijam que se use botas, calças e casacões de neve. O equipamento para a neve serve para isso mesmo: para a neve. Não serve para se passear nos centros comerciais, onde a temperatura tem mais de ameno do que de frio. É no mínimo estranho e, quanto a mim, pouco saudável, uma vez que devem destilar dentro dos coloridos outfits. Vistoso, mas pelas piores razões.

 

Relembrem, antes de vir, que a Serra da Estrela não é Andorra nem estamos nos Alpes. Poderá dar-se o caso de visitarem a Serra e não haver ponta de neve. As pistas para o ski são pequenas, mas isso já não será novidade para ninguém, penso eu. Como tal, não façam comparações pouco simpáticas. Apreciem aquilo que a Serra tem de diferente. E se não houver neve, há cidades para conhecer, museus para visitar, um sem fim de coisas igualmente interessantes a fazer.

 

Por fim, e muitíssimo importante: entendam que estão de férias, em passeio, mas que outros podem não estar. O dirigir em câmara lenta porque se quer “visitar” a cidade de carro e ver com calma é, no mínimo, exacerbante para quem vive na cidade e tem o seu tempo contado. Não é, de todo, uma forma de respeitar o outro.

 

Tem chovido muito estes dias na Covilhã. Na Serra tem caído bastante neve. Está-se a criar uma paisagem de sonho. Quando a chuva parar e formos agraciados com sol, não tenho dúvidas de que chegarão os turistas em catadupa. São bem-vindos. Mas leiam o manual do bom turista antes. Todos agradecemos.

Voltar ao topo

|

Corrige
Eu acho que