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Dia dos Namorados

À boleia de duas histórias de amor que começaram em viagem

No Facebook, multiplicam-se os grupos de boleias — existem dezenas e para os mais diversos percursos. E quando uma viagem destas termina numa história de amor? No Dia dos Namorados, fomos conhecer dois casais que se conheceram enquanto procuravam companheiros para partilhar deslocações e dividir custos

Texto de Renata Monteiro • 14/02/2018 - 10:00

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Para Adriana Sousa, 23 anos, e Miguel Jaló, 29, é difícil responder à pergunta “onde se conheceram?”. Poderiam dizer que foi num grupo no Facebook, quando ele procurava boleia para a Covilhã e ela ia partir de Aveiro no momento certo. Ou noutra vez, no sentido contrário. “Ofereço Covilhã - Aveiro. Amanhã, dia 8 de Abril a partir das 17h. Possíveis paragens pelo caminho”, escreveu Adriana no grupo Boleias@Covilhã em 2017, no Sabugal, onde vivia na altura. “PM”, respondeu Miguel (sigla para “private message”, “mensagem privada”, em português). Olhando para trás, dizem, a trivialidade destas primeiras trocas de mensagens dá vontade de rir.

 

Mas mais correcto será dizer que os dois se conheceram no caminho entre a cidade onde trabalhavam e estudavam e a cidade onde viviam. A viagem durou cerca de duas horas e Adriana recorda-se que ia ao volante e que Miguel, no banco de trás, “pouco falava”. “Não íamos só nós no carro, iam outros dois rapazes a quem já tinha dado boleia várias vezes e falávamos bastante entre nós”, lembra-se. Já ele, estava mais preocupado em encontrar um pretexto para iniciar conversa só com ela. 

 

“Fui ao perfil dela e vi que tínhamos o mesmo dia de aniversário. Pronto, decidi pegar por aí”, diz, entre risos. A curiosidade resultou e as boleias, cada vez mais frequentes, acabavam cada vez mais tarde, depois de conversas que se alongavam para jantares.

 

Desde que tinha descoberto o grupo, com mais de nove mil membros, que Miguel largara as viagens de autocarro, mais dispendiosas, juntando-se assim à (agora) namorada e aos mais de 40 milhões de utilizadores de plataformas digitais que se organizam de modo a partilhar deslocações de automóvel, em toda a Europa. Por cá, uma breve pesquisa no Facebook denuncia a popularidade das boleias — e basta pensar que têm surgido cada vez mais empresas especialmente dedicadas a este sector.

 

“Mas antes de entrar no carro da Adriana nunca tive curiosidade de manter contacto com quem me apareceu”, confessa o jovem, quase em jeito de declaração. Ela, utilizadora assídua do grupo, acena em concordância. Desde essas primeiras partilhas de viagens, namoram há cerca de oito meses e continuam a dar boleias, agora juntos. Até porque, depois de alguns ajustes, o ponto de partida dos dois já é a mesma morada. 

 

“Juntar o útil, ao muito agradável”

André Seabra, 27 anos, também se diz satisfeito com 95% das boleias que já deu e apanhou. A pontuação máxima, no entanto, é dada às que tinham Sara Lopes, 25 anos, ao volante. Afinal, foram essas viagens que os levaram até uma relação que dura há quase quatro anos.

 

“Juntou-se o útil ao muito agradável”, brinca o estudante de engenharia electrotécnica que, na altura, tinha ficado sem carta de condução. Ambos estudavam em Coimbra — agora Sara já é médica veterinária na mesma cidade — e queriam ir ao Porto, onde moravam antes de ir para a universidade, ao fim-de-semana. Ele para a Maia, ela para Leça da Palmeira. 

 

“Eu já tinha andado várias vezes com outras pessoas”, diz André, ao telefone com o P3. A diversidade é, aliás, uma das vantagens das boleias. “Conhecemos pessoas num contexto completamente diferente. Já fiz excelentes amigos, passei por pessoas que gostam de falar de política, outras que já tinham ido a quatro dos cinco festivais a que já fui, mas também já andei com pessoas que conduziam mesmo muito mal e já levei outras que, mal entravam no carro, pegavam no telemóvel, punham os auriculares e só voltavam a falar já no destino acordado para perguntar ‘quanto é?’”. 

 

Costuma combinar num grupo de partilha especificamente dedicado a ligações entre Porto e Coimbra, e vice-versa. Às vezes, troca números de telefone para ultimar os preparativos e o normal é dividir o preço do combustível e das portagens, no final da viagem. Por causa deste último ponto, André já chegou a expulsar duas pessoas do carro, antes de chegarem ao sítio acordado. “Recusaram-se a pagar, depois de tudo combinado”, conta. O estudante também chegou a negar algumas boleias, depois de consultar os perfis de quem fazia o pedido naquela rede social: “Tento sempre ver amigos em comum, e desconfio quando algo na nossa conversa não parece natural”.

 

André compara os grupos de carpooling e carsharing com outras plataformas de economia partilhada, como o CouchSurfing e o Airbnb. “É um risco muito grande estar a dividir boleia só tendo como base uma conversa, mas eu acho que temos de ter essa confiança uns com os outros”, acredita. Além disso, as viagens ficam “bem mais baratas do que ir de comboio” e, se combinadas com antecedência, entre pessoas com “horários semelhantes e que queiram ficar em sítios muito próximos”, podem tornar-se jornadas regulares “fáceis de combinar”.

 

Foi o que aconteceu entre André e Sara, que rapidamente trocaram contactos pessoais. Hoje, o estudante continua a deslocar-se à boleia, e ri-se ao dizer que, desde que começou a trabalhar, a namorada "tornou-se mais comodista” e já não usa este método. No entanto, diz nunca ter considerado aventurar-se em boleias mais longas, para fora do país, por exemplo.

 

Quando começou a usar o grupo, em 2013, a plataforma “era mais pequena”, diz, “mas havia mais participação”. “Não sei se foi da mudança do algoritmo do Facebook, mas agora não há tantas respostas aos pedidos.” André acredita que há também quem tenha parado de consultar os grupos de Facebook e começado a aderir a outras plataformas de partilha de viaturas criadas por empresas, como a Via Verde Boleias, que surgiu no final de Junho de 2017. Aquando do lançamento, a Brisa assumiu a intenção de ser a referência em Portugal no sector e apresentou um site e uma aplicação móvel que exigem uma apresentação mais detalhada tanto do condutor como dos restantes tripulantes. Fica só por saber se também já há histórias de amor à boleia desta plataforma. Mas isso fica para outras viagens.

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