Experiência

Sob o céu mais estrelado: uma noite junto ao maior telescópio do planeta

Passar uma noite no complexo que alberga o maior e mais avançado telescópio do planeta pode ser uma experiência quase religiosa. O VLT, no Cerro Paranal, é um híbrido de mosteiro, resort e colónia extraplanetária numa paisagem como que coberta de cacau em pó

Texto de Frederico Duarte • 13/03/2017 - 13:04

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“Se vais ao Chile tens de ir ao Paranal.” Este foi desafio que o astrónomo português Pedro Russo me fez em Lisboa semanas antes da minha partida para Santiago do Chile. Apesar de ter corrido o mundo como um dos profissionais mais destacados na comunicação de ciência e das ciências espaciais, ele ainda não foi ao maior e mais avançado telescópio do planeta. Mesmo quando em 2009 desempenhou o cargo de coordenador geral do Ano Internacional da Astronomia a partir do seu gabinete na sede do Observatório Europeu do Sul, mais conhecido pela sua sigla em inglês ESO (European Southern Observatory), em Garching, perto de Munique. Mas eu, estando semanas depois (mais) perto e sendo (um mesmo que ocasional) jornalista, poderia solicitar ao ESO uma visita e mesmo uma estada na residência do complexo. O primeiro contacto foi dele. As diligências necessárias para lá chegar e ficar uma noite foram minhas.

 

Muito a Sul da Europa

O ESO é uma organização europeia intergovernamental fundada em 1962 que actualmente conta com 15 estados-membros: 14 estados europeus (Portugal aderiu em 2001) e o Brasil. A sua missão passa por financiar, construir e operar telescópios e outros instrumentos de observação astronómica, colocando-os ao serviço da comunidade científica mundial.

 

Graças às condições únicas de altitude, precipitação, humidade relativa, turbulência atmosférica e poluição luminosa do deserto do Atacama, mas também a factores de ordem política, científica e económica, o Chile foi eleito como a nação anfitriã dos três observatórios hoje operados pelo ESO: La Silla, ALMA e Paranal.

 

Inaugurado em 1969, o Observatório de La Silla foi o primeiro construído pelo ESO no topo de uma montanha de 2400 metros na extremidade sul do deserto do Atacama, a 600 quilómetros a norte de Santiago. Conta com dois telescópios operados pelo ESO e oito telescópios nacionais.

 

O telescópio ALMA, tal como indica o seu nome em inglês – Atacama Large Millimeter/submillimeter Array – observa o universo em comprimentos de onda milimétricos e submilimétricos. As suas 66 antenas de alta precisão, instaladas no planalto de Chajnantor a 5000 metros de altitude e 50 quilómetros a leste de San Pedro de Atacama, no extremo nordeste do Chile, produzem imagens do espaço com uma nitidez dez vezes superior à do telescópio espacial Hubble.

 

VLT, ou Very Large Telescope — em português, telescópio muito grande — é o nome dado pela comunidade científica à principal estrutura do ESO construída a partir da década de 1990 no Cerro Paranal, a 1200 quilómetros a norte de Santiago do Chile. Trabalhar no Paranal é o sonho maior de muitos astrónomos e astrofísicos.

 

Não é, porém, necessário ser cientista ou lá trabalhar para conhecer estas estruturas. De forma a promover a investigação feita pelas suas equipas, mas sobretudo para estimular a imaginação do público em geral sobre o universo o ESO, permite visitas aos seus longínquos pontos de observação do desconhecido.

 

É que não são só as imagens de galáxias, estrelas e outros objectos espaciais registadas por estas estruturas e divulgadas pelo ESO que nos fascinam. As próprias imagens dos seus instrumentos científicos e edifícios, pousados nesta paisagem montanhosa e como que coberta de cacau em pó, fazem com que queiramos ver o que está infinitamente longe e eles nos revelam. Mas também nos convidam a chegar, um dia, a um destes sólidos geométricos entre a máquina e o edifício, o armazém e a nave espacial.

 

A partida

Antes de ser uma estrutura, Paranal é um cerro. Cerro, termo pouco usado pelos portugueses de hoje para colina ou outeiro, é como os chilenos chamam às elevações na paisagem do seu longo e estreito país entre a cordilheira dos Andes e o oceano Pacífico.

 

Para chegar ao Cerro Paranal há que primeiro chegar ao Chile. Como não existem voos directos entre Lisboa e Santiago do Chile, escolhi Paris como cidade de escala. Poderia ter escolhido Londres, Madrid ou Roma, sabendo que, tal como para a Air France, também para a British Airways, Madrid ou Alitalia o voo para Santiago é o mais longo voo directo de cada uma destas companhias aéreas: 14h40min, 13h40min, 13h40min, 15h15min… Poderia ainda ter feito conexão em São Paulo ou no Rio de Janeiro, dividindo o tempo de voo pelos dois continentes. Mas não era a mesma coisa (e não custava o mesmo).

 

Dos 18 voos diários entre Santiago e Antofagasta operados pela LatAm e pela low-cost Sky escolhi a opção mais barata. A viagem de duas horas acompanha toda a costa chilena e termina com uma aproximação dramática ao aeroporto de Antofagasta, localizado a 20 quilómetros da cidade, precisamente no meridiano do Trópico de Capricórnio, numa planície rodeada de cerros e outras aflorações rochosas em vários tons de castanho que termina em escarpas arenosas sobre o oceano Pacífico.

 

Na viagem de uma hora do aeroporto para o meu hotel o transfer colectivo vai deixando passageiros nos vários sectores da cidade, passando por bairros de casas populares cor de lama com decorações de Natal, anúncios de condomínios fechados com vista para o mar, rochas repletas de pelicanos.

 

Fundada em 1868 como cidade boliviana, Antofagasta passa para mãos chilenas em 1904, já depois do boom do salitre – o célebre salitre ou nitrato do Chile, cujos painéis publicitários em azulejo desenhados nos anos 1920 pelo espanhol Adolfo Lo´pez-Duran Lozano ainda hoje se encontram em Portugal e Espanha – que até ao crash de 1929 trouxe à cidade o porto, o caminho-de-ferro e imigrantes ingleses, espanhóis, gregos, árabes, chineses. Hoje é o cobre do Chile que faz de Antofagasta a quinta maior e mais rica cidade chilena.

 

Ao fim da tarde de uma sexta-feira de Primavera tardia as ruas pedonais do centro da cidade estão cheias de gente às compras, casais a tirar selfies, famílias a ouvir e ver bandas de rua e ranchos folclóricos. Ao fundo, dominando o anfiteatro da paisagem urbana, a massa castanha da cordilheira da Costa do Pacífico Sul.

 

Como não existem transportes públicos para o Cerro Paranal, aluguei um carro e levantei-o no aeroporto, onde cheguei de táxi – também não existem transportes públicos entre o centro e o aeroporto – e logo a seguir fiz todo o caminho de volta ao centro até chegar à Avenida Salvador Allende e virar à esquerda. Daqui comecei a terceira parte da minha viagem.

 

A chegada

Quando a avenida acaba e a estrada começa, o terreno eleva-se, endurece, escurece. Passando a cordilheira chego à Ruta 5, mais conhecida por Panamericana del Norte, viro à direita. Seguem-se 120 quilómetros de uma quase ininterrupta recta numa estrada de qualidade e sinalização irrepreensíveis. A paisagem torna-se mais aberta, mais suave, mais clara. De um lado e do outro do alcatrão a presença vegetal, animal e humana é quase nula. Um carro de vez em quando. Camiões. Autocarros (carreira Santiago-Antofagasta: 18 horas e 25 minutos). Outdoors, muitos sem anunciante. Um céu como só nos filmes.

 

Antes do meio do caminho passo pelo bairro industrial La Negra, sede de empresas associadas à exploração mineira, um aglomerado de armazéns, estruturas industriais e camiões envoltos numa nuvem de pó. Mais a sul passo o entroncamento com a ruta B-55, estrada que 145 quilómetros a leste chega a Mina Escondida, a maior e mais produtiva mina de cobre do mundo. Faço os últimos oito quilómetros sempre a subir, na variante que termina no portão do observatório. Chego mesmo antes das duas da tarde.

 

A Fugas ficou alojada na Residencia do Observatório do Paranal a convite do ESO - European Southern Observatory

 

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