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Crónica

É preciso fé para andar de bicicleta em Portugal

Por estar na moda ou por outro motivo qualquer, há cada vez mais pessoas a andar de bicicleta por esse país fora. Mas existe ainda uma vasta maioria que não o faz. Sobretudo quando é para utilizar a bicicleta como meio de transporte. São os Ciclo-Ateus

Texto de Hugo Filipe Lopes • 08/08/2016 - 11:55

Hugo Filipe Lopes
Hugo Filipe Lopes não é escritor porque não acredita na definição mas escreve porque não consegue evitar

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São vários os motivos invocados pelos arautos do Ciclo-Ateísmo para não utilizar a bicicleta como meio de transporte, sobretudo nas deslocações casa-trabalho-casa. O motivo invocado mais frequentemente é chegar suado ao local de trabalho. É um facto, se a distância for considerável e o ritmo elevado, o ser humano sua a pedalar, ao que me perguntam variadas vezes como é que consigo andar assim o dia inteiro, já que na maioria dos locais de trabalho não existe um duche disponível. Em vez de falar de desodorizantes e de mudas de roupa, pergunto-me como é que alguém consegue ficar fechado durante horas numa lata enfiada no meio do trânsito e não chegar ao destino a odiar a humanidade.

 

O segundo argumento mais invocado pelos Ciclo-Ateus é o do cansaço, se não cansa fazer 40 quilómetros todos os dias. Podia falar sobre como deve ser cansativo passar tanto tempo sentado ou deitado, e como a actividade física, outrora divertida, se tornou apenas mais uma tarefa mas pergunto-me se não cansará mais sair a correr de um lugar fechado com o escritório para outro lugar fechado com o ginásio para gastar dinheiro a fazer exercício que poderia ser feito a caminho do trabalho de forma bem mais divertida.

 

O terceiro postulado do Ciclo-Ateísmo é do perigo. Que é perigoso vir de bicicleta pela estrada (frequentemente a marginal) com aqueles carros todos a conduzir à maluca. Enquanto penso que, salvo o do Google, nenhum carro anda à maluca sozinho, pergunto-me se o inquiridor se referirá a si próprio ou ao resto do mundo e lembro-me das estatísticas de sinistralidade rodoviária e a que percentagem corresponderá os acidentes com velocípedes. Aqui seria fácil falar de haver algumas (miseráveis) ciclovias, trajectos alternativos, e de como é essencial ser abraçado pelo ar, sentir o vento na cara, apreciar a paisagem, apanhar sol e perceber como a nossa resistência facilmente aumenta e o corpo rapidamente se tonifica. Acima de tudo podia tentar explicar como é divertido pedalar até ao trabalho, como depois até sabe bem ficar sentado algum tempo, porque na hora de almoço pedala-se mais um pouco, e à saída faz-se o mesmo de volta para casa. Mas há sempre uma nova pergunta e não existe nenhuma resposta que seja melhor do que o empirismo. Claro que há sempre alguém que faz a pergunta clássica “Então e quando chove?”. Quando chove, molho-me.

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