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Crónica

O fim do InterRail

Num repente deixei de ter na ideia o sonho de um dia viajar por InterRail. Num repente, deixámos de acreditar no Pai Natal

Texto de João André Costa • 04/07/2016 - 10:53

João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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Nunca tive dinheiro para fazer um InterRail. Nunca tive dinheiro para poder viajar por uma Europa de portas destrancadas e chaves deitadas fora, una e uníssona, diversa e multifacetada, cheia de encantos e recantos ao virar de cada esquina, revestida de cores e línguas, de Portugal aos Balcãs, de Calabria ao Cabo Norte. Nunca tive dinheiro para poder, durante três semanas de Agosto, fugir de casa à procura de uma namorada espanhola, francesa ou sueca (querias!) numa dessas noites de Verão onde o amor acontece e os beijos se apartam à luz da manhã em duas moradas escritas em folhas de papel trocadas, porque a internet ainda não existe nem nós sabemos o que isso é, até que a minha carta, a minha letra, as minhas palavras e os meus anseios cheguem à tua caixa de correio.

 

Não tive dinheiro para sonhar acordado e viajar, mas os meus amigos tiveram, pelo que naquele Verão enquanto eu passava os dias na banheira lá de casa, por causa do calor, os meus amigos viviam o sonho adolescente da fuga sem rumo, a viagem sem fim à vista, onde a descoberta, o assombro e o deslumbre são uma constante de cidade em cidade, de comboio em comboio, ora dormindo em viagem ou pernoitando nesses "hostels", à data ainda por chegar a terras de Portugal, e onde a juventude europeia confluía ao melhor estilo de um parlamento europeu em cada camarata, numa troca constante de ideias, projectos e promessas entre álcool, tabaco e olhares comprometedores com a rapariga do lado quando as palavras não chegam.

 

Assim, entre Paris, Bruxelas, Gent, Bruges, Amesterdão, Berlim, Praga e Barcelona, entre a Torre Eiffel, o Atomium, aquilo em Amesterdão que nunca vamos contar aos teus pais, as fotografias à Porta de Brandemburgo ou na Praça da Cidade Velha de Praga, muitas foram as experiências, e ainda mais as recordações, pelo menos até chegarem a Barcelona e ao último comboio antes do regresso a casa onde, no apeadeiro e enquanto estavam de costas voltadas para as malas, roubaram a carteira à Ana. Num repente, uma viagem de sonho numa Europa de sonho, livre e solidária, tornou-se um pesadelo, entre cancelamento de cartões multibanco, chamadas internacionais, o bilhete de comboio que tinha ido à vida juntamente com a máquina fotográfica e todas as imagens por revelar. Num repente deixei de ter na ideia o sonho de um dia viajar por InterRail. Num repente, deixámos de acreditar no Pai Natal.

 

De então para cá, para além da carteira da Ana, já nos roubaram tudo, desde as pescas às indústrias, desde a agricultura à pecuária, eliminando meios de produção e empregos, instituindo monopólios em detrimento de pequenas e médias empresas, alcatroando um país de supermercados, baixando salários e precarizando o trabalho, ao mesmo tempo que nos obrigam a viver de importações às custas de um endividamento crescente o qual, desde a adesão ao euro, nos deixa reféns de uma Europa onde um ministro das finanças alemão acha por bem dizer que Portugal vai precisar de um segundo resgate apenas porque sim, assim afundando ainda mais a nossa economia e o nosso futuro só porque naquele dia acordou do lado errado da cama.

 

Olho para as notícias: na Inglaterra agora é moda insultar os imigrantes, gritar-lhes “vão para casa“; na República Checa o Presidente também quer um referendo sobre a saída da União Europeia; na Áustria, o candidato presidencial de extrema-direita conseguiu a anulação das últimas eleições... nunca mais vou poder andar de InterRail. Nunca mais vou querer andar de InterRail.

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