MIguel Madeira

Crónica

Três anos na China

E sim, há dias que custam. O coração aperta, a saudade impera e aí questionamos se vale a pena

Texto de Miguel Madeira • 26/02/2016 - 17:00

Miguel Madeira é um português do mundo, apaixonado por pessoas

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Seja pelas milhares de famílias e amigos que a vivem, seja pelos que a usam como arma nas suas causas, a emigração foi, é e será um tópico de inúmeras discussões, opiniões e lágrimas. Quando mudei de Portugal para a China, em 2013, escrevi estas palavras nas quais ainda me revejo. Dando novamente a palavra aos protagonistas, sei da minha sorte de ter saído por escolha e não obrigação, pois assim viajei sem mágoa.

 

Ainda vejo a palavra “emigrar” como feia e acredito que nós, os que saímos, somos uns descobridores modernos. Não importa onde aterramos, trazemos a nossa cultura, história e um sentimento de missão. É-me também mais claro que quem sai, ganha mais do que perde. Ganhamos nós e esperamos que um dia ganhe também o nosso país.

 

Reinventamos o que aprendemos, até porque a distância força novas perspectivas. Por exemplo, percebemos que quem escreveu “Longe da vista, longe do coração” ou não foi emigrante ou então não tinha família e amigos porque vê-los apenas num ecrã não mata mas dói. Descodificamos porque é que “A minha pátria é a língua portuguesa”. Sim, vivemos numa grande aldeia, atravessamos o mundo e encontramos pessoas com os mesmos valores, crenças, sonhos e referências, porém é também verdade que há coisas só nossas e a saudade é uma delas. Ficamos mais nacionalistas, não no sentido bacoco mas por aprendermos a apreciar tudo de bom que temos aqui e na casa que deixámos. Sabemos que “Quem tem boca vai a Roma” e quando há vontade, há solução. Entendemo-nos nem que seja com desenhos, principalmente se formos turistas, contudo quando se vive num país com uma língua tão diferente, um simples corte de cabelo pode ser uma grande aventura.

 

Claro que isto muitos outros emigrantes poderão testemunhar. No entanto, é preciso passar algum tempo na China para perceber o quão especial é o período que aqui se atravessa. Tal como os anos 60 nos Estados Unidos ou os 20 em Paris, creio que esta é uma época histórica, marcada pela explosão do crescimento interno, do desenvolvimento vertiginoso, da euforia em consumir e principalmente pela grande incerteza. O país é tão diversificado e extenso que viajando internamente sinto-me a cruzar fronteiras e conhecer novos povos e culturas. A escala é incomparável. O que aqui é uma“pequena percentagem de pessoas” corresponde a dimensões populacionais de um país europeu e nichos de mercado equivalem a amplos sectores de público-alvo. Por isso há tanta oferta e procura: há sempre alguém que vende, que compra, alguém que precisa. E esses alguéns são milhões de pessoas.

 

Claro que em três anos também aprendi:

- A estar sempre pronto para responder de onde sou quando entro num táxi e ouvir que sou do país do Figo, às vezes do Ronaldo.

- Que a comida vai ser picante mesmo que no menu diga que não.

- Que o silêncio é uma resposta.

- Que céu azul é uma bênção.

- A confirmar que quero a sobremesa depois do prato principal e não como entrada.

- Que o tomate vem em saladas de fruta.

- Que vou encontrar vegetais que nunca tinha visto antes, mesmo depois de 3 anos de compras.

- Que a água quente é sagrada e faz bem aos pulmões.

- A preferir perder os travões do que a buzina da mota.

- Que os semáforos e passadeiras são decorativos.

- Que vai haver sempre muita gente. Um voo para uma cidade pequena, numa noite a meio da semana vai estar lotado.

- Que quanto menor for a cidade, maior atração turística eu serei.

- Que tudo tem entrega ao domicílio.

- A olhar sempre várias vezes para os dois lados da rua mesmo que seja de sentido único.

- Que os Guanxis existem e são vitais.

- Que apertos de mão, abraços e contacto físico em geral não acontecem, excepto nos transportes públicos. Aí o espaço pessoal assume a vertente comunista e torna-se partilhado. Demasiado partilhado.

- Que nada tem regras escritas, às vezes as coisas dão, outras não, depende da disposição da pessoa.

- A empurrar instintivamente.

 

O desejo de partilhar estas e outras experiências, levou-me a criar o Curinga, um projecto pessoal onde as documento em fotografias. Sempre ajuda a família, amigos e curiosos a ver o que eu vejo e a enganar a distância. E sim, há dias que custam. O coração aperta, a saudade impera e aí questionamos se vale a pena. Mas como tão bem sabemos, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

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