Tiago Matos Silva

Crónica

Ir a Trás-os-Montes, voltar

Voltinhas e voltarecas à volta de Braga, autoestrada, o Porto fora de vista (e aqui tão perto), o risco direito para Lisboa, lá chegaremos, com o cheiro a urze e os caretos a rebolar e o Torga muito sossegadamente a pousar num qualquer discreto canto da alminha, bendito nordeste

Texto de Tiago Matos Silva • 04/01/2016 - 17:38

Tiago Matos Silva é antropólogo, doutorando e investigador

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E lá vamos, do Natal de cá de baixo para espreitar o do canto nordeste: 500 quilómetros para cima, 500 quilómetros para baixo, 500 quilómetros às voltas por aldeias que o Google Maps não sabe onde são.

 

Quatro enfiados num carro, uma que sabe ao que vamos, mapas de papel que somos antigos, o primeiro impacto é sensorial: excesso de oxigénio, frio (não tanto que cubra de neve os cabeços do Larouco), jeropiga numa cave de Varge, a bendita bendita bendita alheira (os ateus a dizer “Bendito seja o nome do Senhor”), a posta mirandesa a derreter no prato e na boca, o som das gaitas e do bombo, o polvo de meia-cura à feira, a feijoada (duas doses para quatro lisboetas, fica comida para mais um pelo menos), o “iiihhihhhúúúúúúú” dos caretos, mijar no mato, os putos a falar uma mistura de francês e castelhano, os cães a fugir, o ligeiro trave oleado da oficina do mestre Tiza.

 

Varge, Bragança, Vinhais, Ousilhão, São Pedro de Serracenos, Grijó da Parada, Constantim, Miranda, riscamos o risco imaginado em Madrid e Lisboa, Verín, Santiago do Couto Mixto, riscamos novamente (quase compro uma samarra em Chaves, durava a vida dum homem!), e novamente estrada do alterne afora (só se vêem matrículas PT) a visitar os irmãos de Mandín: casa de pedra quente, o cão parece um gato patas à salamandra, o tinto é bom e o branco extraordinário, a rádio só cospe gaitas de fole (já vos disse que com uma gaita e uma tarola me levam às margens do Estige?! pois é verdade!), a Lola vai lá dentro com o nosso presunto de supermercado e traz-nos obras de tomate e azeite, as paredes da tasca têm velhos amigos e os bancos corridos novos, o Chico cofia a barba e nem leva a mal que um português lhe fale em mau castelhano, eu como-lhe as azeitonas alentejanas mesmo depois da terceira vez em que ele insiste “são boas, deixa-as para mim”.

 

Caretos a entrar pela aldeia, a comida quente que como que nos abraça, a soltura da música e os líquenes a cobrir a paisagem de árvores de ramos espetados acima, há qualquer coisa de telúrico no ar mas nós, decentes cientistas sociais, recolhemo-nos ao analisável, ao registável, deixamos o sobrante aos poetas e aos místicos; evitamos os merceeiros da cultura, sorrimos às invenções das senhoras das lojas turísticas, compramos burel e máscaras de lata, fotografamos de longe enquanto torcemos o nariz aos artistas da fotografia bonita que sem se aperceberem repetem a cores as fotografias a preto-e-branco do S.N.I.

 

E, desgrenhados filhos de Eva que somos, descemos outra vez, Gerês curva e contra-curva, o carro pejado de garrafas e pastéis e às vezes com tanto bucho cheio e miolo trabalhador que até o silêncio se instala (nem a ti’Teresa rosna às casas dos emigrantes), voltinhas e voltarecas à volta de Braga (e se não quisermos ir para o Bom Jesus de todas as placas?!), autoestrada, o Porto fora de vista (e aqui tão perto), o risco direito para Lisboa, lá chegaremos, com o cheiro a urze e os caretos a rebolar e o Torga muito sossegadamente a pousar num qualquer discreto canto da alminha, bendito nordeste.

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