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Paulo Santos Rodrigo é arquitecto e escreve regularmente para o Ecrã

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Tina Fey como Sarah Palin DR

Excerto

Bill Maher disse que “os políticos participam cada vez mais nos programas de comédia, e não porque gostam, mas porque têm que”. Este fenómeno da relação entre a política e a comédia, agora, poderá ser explicado pela maior facilidade das gerações mais novas em melhor “lerem o presente” no programas de Stewart ou de Leno, do que nos canais de informação tradicionais.

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Jon Stewart

Crónica

A comédia, estúpido

Cá a comédia política não existe a não ser no papel; uma "Gaiola Aberta" em Photoshop que é o Inimigo Público e nos momentos extraordinários do "Governo Sombra" da TSF

Texto de Paulo Santos Rodrigo • 07/07/2012 - 17:12

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Robin Williams é Estragon e Vladimir... Steve Martin. 1988. Mike Nichols leva à cena “À Espera de Godot”. Escolhe os dois cómicos. Samuel Beckett aprova. A escolha não é absurda. A peça nasce da paixão de Beckett pelo Vaudeville e especialmente pela dupla Laurel e Hardy. “Do Absurdo” — é assim que é definido o texto escrito durante a Guerra Fria e na espera do cataclismo, no “nada”, tal como Laurel e Hardy na ressaca da Depressão de 1929. Sem cinismo e com um humor apalhaçado, os dois personagens aguardam. “Nada que já não tenha acontecido com todos nós”, disse Beckett. 

 

“Vamos esperar. Nós estamos entediados. Não, não protesto, estamos entediados até à morte, não há como negar isso. Boa. A diversão vem aí e o que fazemos? Deixamo-la ir... De repente tudo vai desaparecer e nós vamos estar sozinhos mais uma vez, no meio do nada!"

 

Grandes escritores “políticos” não esqueceram a comédia. George Orwell ficou conhecido, ainda Eric Blair, pelas suas peças cómicas durante a 2.ª Grande Guerra (foi o principal defensor de P. G. Wodehouse quando este foi acusado de pró-nazi) e o monólogo de Jean-Baptiste Clamence de ”A Queda” de Albert Camus é uma obra perfeita de "stand-up". 

 

Tempos de espera também são estes. Mas ainda nos sabemos rir de nós mesmos? Aristóteles definiu o ser humano como um animal tão político como ridente. A comédia e a política partilham a mesma ética, ou deveriam, e nunca como agora estão presentes no nosso dia-a-dia. O citado Will Rogers, além de actor, comediante ou comentador social, foi candidato a presidente dos Estados Unidos em 1928. Chevy Chase e Bill Murray foram “presidentes” no "Saturday Night Live". Will Ferrell foi um Bush genial e Tina Fey arrumou com Sarah Palin aquando da sua candidatura como vice de John McCain. Curiosamente este foi dos convidados preferidos de Jay Leno e de Conan O'Brien durante anos. Ninguém estranhou o anúncio da candidatura de John Edwards no "The Daily Show" de Jon Stewart . 

 

A relação entre a comédia e a política é altamente debatida. A cor política dos comediantes e a relação com o dito jornalismo sério ficarão para depois. Bill Maher ("Real Time with Bill Maher", HBO) disse que “os políticos participam cada vez mais nos programas de comédia, e não porque gostam, mas porque têm que”. Este fenómeno da relação entre a política e a comédia, agora, poderá ser explicado pela maior facilidade das gerações mais novas em melhor “lerem o presente” no programas de Stewart ou de Leno, do que nos canais de informação tradicionais. E com consequências na comédia em geral. Na Broadway ainda há quem suspire por "Mastergate", a peça de Larry Gelbart. "O Ditador", de Sacha Baron Cohen, ficou aquém do anunciado e o "In The Loop" parece ser a última citação na maioria daqueles que ao tema se dedicam. O mesmo com "The Thick of It" que não chegou a ter a prometida versão americana. 

 

Refiro este dois propositadamente pela simples razão de que, aquando da estreia de "Girls", a HBO apresenta a série "Veep", comandada por Armando Iannucci. O escocês falha redondamente nas suas intenções — a política transforma-se no motivo de umas quantas piadas comuns, não muito diferentes de "Parks and Recreation", que, vendo bem, é a melhor série política do momento —, mas recebeu, mesmo assim, a confiança do canal e tem já aprovada a série 2. Iannucci parece ter sido tomado pelo mesmo tédio de Estragon e Vladimir…

 

Temos a esperança que a tradição seja respeitada com o regresso de "Sim Sr. Ministro". 24 anos depois a série que destronou "Spitting Image" como a melhor comédia politica, volta porque, segundo Jane Rogerson da UkTV, “o panorama político em Inglaterra, neste momento, é perfeito para o seu regresso”.

 

Cá, não há muito, os bonecos do "Contra Informação" desapareceram dos ecrãs. A comédia política não existe a não ser no papel; uma "Gaiola Aberta" em Photoshop que é o Inimigo Público e nos momentos extraordinários do "Governo Sombra" da TSF. A frase chave do "The Thick of It" era: “é tudo, estúpido”. Teremos que exigir mais de nós, porque uma democracia sem comédia, não o é.

 

Apetece dizer… e a comédia, estúpido!... é politica?!

 

P.S. O "The Daily Show" com quase três meses de atraso, mais do que estupidez, é um insulto. Com os "CSIs", "Houses" e "Greys" em "loop" em vários canais, teremos pouco espaço para as séries novas... “Boa. A diversão vem aí e o que fazemos? Deixamo-la ir...”

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