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Dentro desta casa só entram tabus — e esta série vai pô-los a nu

A televisão portuguesa está pronta para uma “série abertamente LGBT”? Os criadores da "Casa do Cais" duvidam e concordam que "faz todo o sentido" que a série seja vista num "smartphone". Projecto, que inclui três conhecidos youtubers, estreia-se a 15 de Janeiro na RTP Play e no canal de YouTube da estação pública

Texto de Renata Monteiro • 14/01/2018 - 21:47

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Pergunta quem há muito já conhece a resposta: “Comentários maus há em todo o lado também, não é?”. Os jovens criadores da Casa do Cais, a nova série portuguesa que se estreia esta segunda-feira, 15 de Janeiro, na RTP Play e no canal de YouTube da estação pública, sabem bem que sim. Francisco Soares já esperava "comentários quase de ódio" muito antes de ter atirado aquela interrogação retórica no final do vídeo de apresentação da série que co-escreve e interpreta com mais quatro amigos. “Nós já sabíamos que ia gerar alguma polémica”, conta por telefone ao P3, em alusão às controversas reacções nas redes sociais. “Até porque estamos a criar a primeira série portuguesa abertamente LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero).”

 

Não é, no entanto, benéfico "que se isole a série como LGBT". Isto porque “é apenas um acaso” quatro das cinco personagens principais e dos autores que as inspiram serem homossexuais. “Tal como é um acaso o teu médico ser gay, por exemplo, diz. Francisco, 23 anos, defende que no entretenimento ainda há falta de representação de outros tipos de relação que não envolvam um casal constituído por um homem e uma mulher. “Estou orgulhoso da série por [contrariar] isso”, acrescenta o youtuber, mais conhecido por Kiko is Hot. Ainda assim, não grita vitória porque acredita que a “verdadeira conquista" passa por projectos como este pararem de ser apelidados como LGBT e passarem a ser vistos apenas como, neste caso, "uma série sobre cinco amigos que vivem juntos".

 

“A Casa do Cais tem conteúdo diferente e dá acesso a uma nova realidade”, confere Ana Correira, a realizadora de 27 anos que também interpreta Ema. “Mas, ao mesmo tempo, os problemas que as personagens enfrentam são transversais a toda a gente", garante, acrescentando que gosta de ver "esta discussão a acontecer num meio como o canal de YouTube da RTP”.

 

“Mesmo antes de o primeiro episódio ser emitido” as previsões dos criadores da Casa do Cais confirmaram-se, constata Élia Rodrigues, uma das responsáveis pelas quatro webseries, que, depois de uma consulta pública, estão a ser desenvolvidas no âmbito do RTP Lab. “Ninguém vai ficar indiferente a esta”, garante a gestora de projectos, reforçando que os temas retratados “são muito relevantes para o público jovem” e que, por isso, faz “todo o sentido que a RTP dê espaço para se contar esta história”. 

 

"Anti-Morangos com açúcar"

A série de humor começa por acompanhar a mudança de Ema para a casa de quatro amigos em Lisboa — há uns anos, a youtuber e designer freelancer fazia o mesmo percurso na vida real, quando foi morar com este grupo de amigos que agora se reúne, outra vez, no sofá de uma apartamento no Cais do Sodré. Depois da chegada à nova casa, é uma luta constante entre a entrevista de emprego a que não pode faltar na manhã seguinte e a festa de boas vindas que se transforma numa rave com 50 pessoas, drogas e álcool, e que só acaba depois do sol nascer (mas ainda assim a tempo da entrevista).

 

“Com um pouco de ficção, mas nós vamos representar uma versão das pessoas que éramos há quatro ou cinco anos”, adianta a realizadora. “Como é que nós não tínhamos um reality show mesmo?”, ri-se Francisco Soares. “A série retrata muito o que é ser jovem e enfrentar uma grande cidade, a procura de emprego, de relações, a auto-descoberta, a descoberta em grupo, a sexualidade e o preconceito”, continua. “É um anti-Morangos com açúcar.”

 

Porquê? “Eu não sei quem disse isso aos guionistas de televisão, mas nós não nos chamamos todos Tomé e Margarida (os habitantes da Casa do Cais chamam-se Ema, Lara, Jay, Alexandre, Helena) e vivemos em casas onde de manhã temos um pequeno-almoço gigante à nossa espera, em que só tiramos uma maçã porque estamos atrasados para a equitação”, ironiza. Esta não é a realidade da maior parte dos jovens que o grupo conhece: “Às vezes acordamos e não temos comida em casa e acabamos a jantar uma lata de atum, ainda da lata, ou dizemos que temos de acordar cedo e ficamos a ver Game of Thrones até às 5h”, ri-se. “E não faz mal.”

 

É a primeira vez que os cinco se aventuram como actores, mas as câmaras não são estranhas à maior parte do grupo: no YouTube se Francisco é Kiko is Hot, Ana é Peperan e Soraia Carrega apresenta-se como Djubsu. Juntam-se Helena Amaral e André Mariño e o resultado é “uma série para a geração digital, que se pode ver no telemóvel ou no tablet, com episódios entre dez a quinze minutos que abordam temas, alguns controversos, sempre com humor”. 

 

A primeira temporada está pensada para ter dez partes, que vão ser divulgadas durantes as próximas semanas, à segunda-feira. “Queremos mostrar que a nossa geração é completamente capaz de produzir por cá o que tanto consumimos lá fora”, afiança Francisco, apesar de tanto a equipa, como o orçamento, serem "muito pequenos". A responsável pelo projecto da RTP prefere não falar de valores, mas avança que os orçamentos das séries para a Internet do RTP Lab “são muito baixos”, não sendo “comparáveis com os de televisão”. “Os criadores também têm de ser criativos a esse nível”, avisa Élia Rodrigues. 

 

Dentro dos próximos dias, o RTP Lab vai apresentar uma nova consulta pública de conteúdos multiplataforma, adianta. Conforme o primeiro desafio, lançado no final de 2016 — que originou quatro novas séries contadas com a ajuda do YouTube, RTP Play, das Insta Stories do Instagram e de uma aplicação móvel — o objectivo é encontrar conteúdos, dentro dos géneros de ficção e humor, “que utilizem novas formas de narrativa baseadas em plataformas digitais”. Caso sejam aceites, as equipas têm de ter capacidade “para concretizar o projecto” sozinhas. 

 

“Queremos explorar novas linguagens e formas de contar histórias que nasçam e vivam num ambiente digital” e fornecer um “espaço para novos criadores, que não o teriam normalmente em televisão”, resume a gestora de projectos. Francisco Soares diz que “faz todo o sentido uma série destas ser vista na Internet” e ainda mais no YouTube, onde os três youtubers combinados contam com 200 mil seguidores. “Gostava muito que desse também na TV, mas uma série destas ser transmitida na RTP?”, pergunta, mais uma vez a já saber a resposta. “Gostava muito, mas ainda não é possível.”

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