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É desta que descobrimos quem é Bruno Aleixo?

"Aleixo Psi" leva Bruno Aleixo, figura de culto do humor português, a sessões de psicanálise. Descobrimos mais dele, vemos um pouco de nós. A estreia é esta sexta-feira, 28 de Abril, na SIC Radical

Texto de Mário Lopes • 28/04/2017 - 10:40

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Trata-se, portanto, de um homem nos seus 50 e muitos, sentado no cadeirão do consultório a falar da sua vida ao psicólogo clínico. Enquanto decorrem as sessões de psicoterapia, vamos sabendo mais sobre o homem, o seu grupo de amigos e a vida que o levou ali. Vamos sabendo que há coisas que esconde e que não conta de ânimo leve. Dito assim, torna-se óbvio. Aleixo Psi, a série que se estreia esta sexta-feira, 28 de Abril, às 23h30, na SIC Radical, traz de volta à TV o espírito de Os Sopranos. Ou quase. Afinal, Aleixo Psi é uma série de humor. Para começar, há isso.

 

Outra diferença é que este consultório está em Coimbra, não nos Estados Unidos. E o protagonista não é Tony, um mafioso com alguns problemas de consciência, mas um coimbrão, espertalhão e manipulador, com ascendência na Bairrada e no Brasil, adepto do União de Coimbra e da Portuguesa dos Desportos e que passa grande parte da sua existência no café O Aires, na zona de Coimbra-B. Chama-se Bruno Aleixo e é um cão que fala com o sotaque peculiar que a ascendência lhe legou. Tem por comparsas um busto de Napoleão que se chama Busto, um antigo camarada de tropa, barbudo, peludo dos pés à cabeça, chamado Homem do Bussaco, ou um universitário ingénuo, já trintão, que parece incapaz de terminar o curso — e cujo rosto é estranhamente parecido com o do Monstro da Lagoa Negra. Pois, à parte a existência de um consultório de psicologia clínica e de o protagonista ser o paciente, Aleixo Psi não tem qualquer relação com Os Sopranos. Como o poderão confirmar Samuel Úria, Fernando Alvim, Rita Camarneiro ou o adepto benfiquista Barbas, todos eles com participações especiais na série — a rede de contactos de Bruno Aleixo é vasta.

 

“Pareceu-nos que esse formato ‘sopraniano’ seria um bom motor para ele [Bruno Aleixo] revelar uma série de episódios da infância, da juventude, do tempo da tropa”, explica João Moreira, co-criador de Bruno Aleixo, a quem dá voz e com quem partilha dois traços: a residência em Coimbra e a ascendência bairradino-brasileira. Aleixo Psi, série semanal de seis episódios, será o momento da revelação. Porque, afinal, já conhecemos há muito tempo Bruno Aleixo, criado por Moreira e Pedro Santo, que dá voz a Busto (inicialmente tiveram o auxílio do realizador e animador João Pombeiro). Conhecemo-lo há quase uma década, tempo suficiente para se ter tornado personagem de culto com sucesso on-line e presença televisiva e radiofónica, tempo suficiente para vermos o homem Aleixo tal como é.

 

De certa forma, de resto, já conhecíamos Bruno Aleixo e a sua galeria de personagens há mais tempo ainda. Não é por acaso que, em 2009, num artigo do PÚBLICO sobre o humor em Portugal, seu passado e seu presente, Herman José afirmava que Aleixo representava o único humor a que se pode chamar português desde Vasco Santana. “É tudo uma amálgama das nossas avós, das pessoas que conhecemos, de referências da nossa infância e juventude”, diz João Moreira. “O Pedro Santo é de Leiria, mas de um arrabalde rural, eu sou de Coimbra, mas a minha família é da Bairrada. Há uma mescla de urbano e rural que consegue abranger o país quase todo." Assim é, de facto, mas com um factor distintivo importante. Quando recordamos a Pedro Santo o elogio de Herman José, ele dirá que a ideia talvez nasça por se mostrar aqui “um Portugal fora de Lisboa”, o que conduz a que haja perante Bruno Aleixo duas reacções. “Funciona por identificação” com os locais, o imaginário e as expressões, e “funciona pela estranheza que provoca”. Recorda um insulto que Aleixo utiliza recorrentemente, “vacão”. “É uma expressão marcadamente leiriense, uma ofensa querida que se diz na cara de outra pessoa quando se quer que tu saibas que estás mesmo a ser camelo” – quando Aleixo o diz, entre aquele linguajar em que o sotaque e expressões do Centro do país se misturam com importações brasileiras (nunca o ouvimos dizer nu, mas “pêládo”, por exemplo), o efeito cómico é irresistível.

 

O Centro pouco explorado

Bruno Aleixo nasceu onde nascem as coisas no século XXI. Surgiu na Internet no início de 2008, em pequenos clipes onde deixava conselhos para a vida. Pouco depois, um vídeo em que Aleixo, ainda com aspecto de Ewok da Guerra das Estrelas, surgia ao lado de Nuno Markl ateou o rastilho. O culto tornou-se oficial. Bruno Aleixo e as expressões, o temperamento e o sotaque de Aleixo começavam a fazer o seu caminho no imaginário nacional — no processo gerar-se-ia igualmente culto brasileiro (a canção do genérico de Aleixo Psi não nasceu por encomenda, foi gravada por uma fã brasileira há três anos).

 

Meses depois, em Novembro de 2008, a SIC Radical estreava O Programa do Aleixo, onde se operava a desconstrução da ideia de talk-show. Seguiram-se mais séries on-line, como Aleixo no Brasil ou Aleixo na Escola, e chegou à RTP um programa como Copa Aleixo, supostamente para discutir as equipas participantes no Mundial de futebol e o avanço da competição, mas onde se passava mais tempo a saber, por exemplo, da carreira de Bussaco no Luso Futebol Clube. Em 2015, Bruno Aleixo ganhou presença semanal na Antena 3, com as rubricas Aleixo FM e Aleixopédia, esta dedicada à música, dos Nirvana a Fábio Jr. E, agora, eis-nos chegados a Aleixo Psi.

 

Tal como Copa Aleixo, a nova série é uma produção O Som e a Fúria, produtora cinematográfica a que estão associados, por exemplo, os realizadores Miguel Gomes ou João Nicolau. Quando Santo e Moreira foram abordados por Luís Urbano, da produtora, este pretendia que se aventurassem a levar Aleixo para o grande ecrã. Fora atraído “pelos longos silêncios e trocas de olhares, que considerava muito mais cinematográficos do que de sitcom”, conta João Moreira. O filme ainda não chegou, mas, espera-se, não tardará. Será o projecto que se seguirá à série que agora se estreia, onde já foram afinados alguns dos processos a explorar em cinema, como a interacção entre as animações e os cenários e actores reais (o psicólogo é interpretado por Henrique Guerra).

 

Lê o texto completo em PÚBLICO.PT

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