Crónica

Não sou igualitária, sou feminista

Reconhecermos que somos imperfeitxs é necessário para conseguirmos aprender tudo de novo, mas de forma menos sexista, menos machista e menos padronizada

Texto de Marta Guerreiro created; ?> •


Não sou igualitária, sou feminista. Não me ofende quem não se considera feminista mas procura fazer exactamente o mesmo trabalho. O que me ofende é não se ter conhecimento da importância do nome, de o dizermos em voz alta. De nos afirmarmos como tal. Só isso já é uma luta. Embora seja óbvio que ser feminista presume que se seja a favor da igualidade, o nome que dou e que me define é o feminismo — dito de forma clara e sem medo. Assusta a ideia de definir a igualdade de direitos como um nome relacionado com mulheres? Só assusta porque está directamente relacionado com mulheres — Homem é utilizado para definir toda a humanidade e não vejo ninguém assustado.

 

Podia dizer que pior do que um homem cis não se assumir como feminista é uma mulher não o fazer. No entanto estaria a ignorar toda a pressão que as mulheres carregam. Somos construções sociais óbvias e toda a ideia de competição feminina é-nos impingida. É isso que esperam de nós. Já basta tudo o que dizem a uma mulher para ser e depois aparece uma croma como eu que diz "Oh, tu?! Tens que ser feminista". Mais ordens? Esse não é o meu papel, o meu papel é tentar dar bases. As bases que tenho para fazer frente a esta sociedade machista são minhas e não posso esquecer quem não as tem. As mulheres têm tanto direito a não serem feministas quanto os homens, não que faça sentido existirem pessoas que não o são — mas se existem, então parece-me legítimo não definirmos prioridades em relação aos géneros que se identificam como tal —, considero isso mais uma agressão a acumular a tantas outras. No fundo é o mesmo que exigir de uma mulher que foi vitima de violência doméstica uma luta constante e um activismo regular nesse sentido — mais do que esperar um activismo de quem nunca foi vítima. Sim, o testemunho é importante. Sim, a dor é dessa pessoa e nós não sabemos falar sobre ela. No entanto, não nos cabe a nós decidir e tornar a vítima mais vítima, já nos chega o sistema opressor. Somos pessoas, presumo que não tenhamos que passar pelas experiências para lutarmos respeitosamente contra elas. Podemos não falar delas se não as vivemos, mas compreender a necessidade de as mudar. Quando existe compaixão e boa vontade, existe a vontade de mudança e de justiça.

 

Ser activista é um trabalho constante. O que me deixa triste é olhar à minha volta e não sentir o mínimo de reconhecimento — antes pelo contrário. Se é o nome que assusta, de que adianta desvalorizar o trabalho que se faz? Então, pessoas "igualitárias", se estão tão de acordo que o vosso trabalho é o mesmo que o do feminismo (excepto o nome), qual é a necessidade de atacarem directamente um grupo de pessoas, histórias, manifestos, marchas, leis, conquistas, vitórias, liberdade, igualdade, desconstruções? Tudo em tom de piada e sobretudo de falta de informação — só e unicamente porque existem discursos com os quais não concordam.

 

Se andam a ler coisas de uma pessoa "feminista" que quer a mulher superior ao homem, é simples: não é feminista. Eu também posso dizer que sou vegetariana e andar a atacar o fiambre a meio da noite. Isso significa que todas as pessoas vegetarianas atacam o fiambre durante a noite? Não, significa que, conhecendo a sua definição, eu não sou vegetariana. Portanto, esses discursos que procuram, a dedo, serão suficientes para anular todo o tempo investido no feminismo? Ou, reformulando: isso é suficiente para anular todo o tempo investido na constante luta pela igualdade? Chamem-nos feminazis; até porque já não basta o que temos que desconstruir para dar o nosso tempo a lutas gerais que depois ainda levamos com tomates. E, atenção: uma feminista a levar com tomates parece-me bastante ofensivo. Não, não são só as pessoas feministas que lutam. São, no entanto, as pessoas feministas que não se assustam com a confusão constante de serem o oposto de machismo — e corrigem. E explicam. E ensinam. São, no entanto, as pessoas feministas que não têm medo de ter ao colo uma definição que coloca as mulheres como protagonistas. Porque a luta é nossa. A procura de igualdade é a procura de colocar a mulher no mesmo patamar do homem, não o contrário. No entanto, não fechamos os olhos à violência contra homens. Sabemos ver estatísticas, por isso colocamos sinal vermelho em algumas frentes e a frente não é apenas a mulher como vítima. A frente é que o homem cis é quase sempre o agressor, mesmo quando falamos de violência contra homens. Eu lamento se o mundo não gira em torno dos homens cis, mas também dentro do feminismo existem outras lutas: pelos direitos LGBTI, pessoas não-brancas, etc. A agenda é enorme e a urgência também. Ainda assim, se não fosse o feminismo, ninguém se tinha importado com a violência contra homens.

 

O que acontece de cada vez que estou a ler artigos que dizem que não concordam com o feminismo actual porque existem pessoas "feministas" que se esquecem de que procuramos a igualdade é que começo a comparar isso com tudo. Só porque um médico é mau, deixam de acreditar nos serviços de saúde? Se existe um extremo, o extremo é exactamente esse. Quando os argumentos passam pelas ladies nights significa que não houve uma reflexão. São-nos dadas bebidas e entradas por sermos um objecto que chama homens — porque se estivermos bêbedas tudo parece consensual. Somos objectificadas. Isso não é recebermos nada, isso é sermos usadas como jogos sexuais, e não tem que ser culpa nossa aderirmos, não é culpa nossa querermos usar espaços de diversão sem que essa passe por sermos desrespeitadas.

 

Esperam de quem é feminista um discurso politicamente correcto "24/7". Somos pessoas antes de sermos activistas, antes de sermos feministas. Já fiz slutshaming. Já critiquei aquela calça justa onde a celulite se vê. Já. Não nasci formatada para andar a lutar contra a violência verbal e física, infelizmente. Nasci formatada para fazer exactamente o oposto. Isto custou-me muitas leituras, muita dedicação. Ainda custa. Quando me dizem "Não dizes, mas pensas", penso algumas coisas erradas mas já não penso noutras. É uma vitória. Não, já não existe slutshaming ou "gordofobia" na minha cabeça, não é só o ponderar e não o verbalizar. Não existe. Reconhecermos que somos imperfeitxs é necessário para conseguirmos aprender tudo de novo, mas de forma menos sexista, menos machista e menos padronizada. Continuo a querer ser mãe, continuo a querer fazer jantar para as pessoas que amo. Ah! E adoro passar a ferro. O feminismo não anula que goste da ideia da maternidade, nem me afasta de casa. O feminismo ensinou-me que é uma decisão da mulher o que quer fazer, e não uma obrigação. Que temos direito a espaço público. Que não temos que ter filhxs. Que não merecemos ser silenciadas em discussões políticas, quando o tio mais velho vai lá a casa, só por sermos mulheres. Que o pai não tem que ser o chefe de família. Que a menstruação de pessoas com vaginas não tem que ser tabu. Que gostamos de muito sexo ou de pouco sexo, independentemente do tamanho das nossas saias. Que não é não. Que o álcool não me pôs a jeito. Que posso amar mais do que uma pessoa sem merecer ser ofendida. Que a minha virgindade não representa a minha responsabilidade. Que não temos que ter medo e que não devíamos ter ainda mais medo de não termos medo.

 

Dentro do feminismo existem várias lutas e várias frentes. Para uma pessoa estar em todas as lutas e todas a frentes, tinha que se multiplicar. E quantas não se multiplicam? Quantas não usam o tempo livre a tentar mudar coisas que parecem minúsculas mas que fazem o mundo mais bonito, mesmo que devagar? O mundo é grande, as pessoas são bonitas —principalmente se têm como base a procura do bem-estar e da igualdade. Feminismo não tem que assustar, porque não existe nada de errado em termos a força num nome que nos lembra mulheres. Isso não quer dizer que não se lute por muito mais. Porque, se perderem tempo a ler e investigar, entendem que as lutas são muitas e as vitórias também.