Crónica

O portão de Auschwitz-Birkenau está fechado?

Lamentar faz parte da vida. Mas tenhamos cuidado para não sermos absorvidos por uma hipocrisia massificada. Lembremo-nos de que Churchill era defensor do eugenismo, apesar de heroicamente ter combatido a frente nazi

Texto de Hélder Ferraz created; ?> •


Acabei de ler o livro Noite de Ellie Wisel. Até há poucos dias não tinha lido nenhum dos seus livros, mas cumpriu-se o que escreveu Kafka: “Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?" E, neste caso, são socos no estômago e murros no crânio do início ao fim, é o escarafunchar das nossas entranhas até ao nosso âmago mais humano. Quando comprei o livro pensei: "É mais um relato do Holocausto e em pouco mais de 130 páginas não poderá ser uma leitura muito profunda." Enganei-me. Não é apenas mais um relato. É o confronto com as nossas certezas mais humanas.

 

Em 2011, quando visitei o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau pela primeira vez, reparei, depois de passar o corredor de barracões, que havia um homem sentado ali perto, com um chapéu às riscas e rodeado de pessoas. Perguntei quem era e disseram-me que era Ellie Wiesel, sobrevivente do Holocausto. Aproximei-me, esperei pela minha vez e cumprimentei-o. Estiquei a minha mão, ele olhou-me e com um sorriso terno devolveu-me o gesto, aconcheguei-lhe a mão entre as minhas, não consegui dizer nada, não sabia o que dizer, olhei-o por breves instantes e julgo que nos entendemos. Assim que nos separámos, uma pergunta assombrou-me: "O que tiveste que fazer para sobreviver?" Talvez outra pergunta devesse ter inundado a minha mente. Contudo, não julguem que a formulei com algum juízo moral, jamais o faria.

 

Estava na Polónia a estudar havia poucos meses. Logo no início, a universidade promoveu uma visita de estudo a Poznan. No hotel dividi o quarto com o Sakhi, um colega afegão e muçulmano. Assim que ele soube que eu era ateu passou várias horas a tentar converter-me ao Islão, em vão, e certamente que no fim daquela experiência compreendeu melhor os meus motivos e a minha descrença em divindades e religiões. Durante a estadia visitámos um antigo campo de trabalho, próximo de Poznan, e fomos acompanhados por dois professores, o Marcin e a Agnieska.

 

Marcin começou por contar que o avô tinha estado ali preso por ter-se recusado mudar a nacionalidade polaca para alemã. Mas enquanto Marcin falava havia algo que me detinha. O campo de trabalho tinha casas residenciais em seu redor, sim, havia casas residenciais próximas do campo de trabalho. Não resisti; indignado, dirigi-me a Marcin e perguntei: "Mas há casas em toda a volta. As pessoas viam e sabiam?" Nunca me esquecerei do olhar e do sorriso tão característico dele enquanto me respondia. "Sim, muitas pessoas sabiam. Umas concordavam com o regime nazi, outras tinham medo do que lhes poderia acontecer, outras talvez tivessem tentado denunciar. Não sabemos, não é?" Na verdade senti-me o tipo mais ingénuo à face da terra. Senti-o na altura e senti-o hoje quando, no fim do livro, li este excerto: “Um operário tirou da sua sacola um bocado de pão e atirou-o para o vagão. Foi uma correria. Dezenas de homens esfomeados lutaram desesperadamente por causa de algumas migalhas. Os operários alemães interessaram-se profundamente por este espectáculo” (p. 117). O apetite humano pela miséria e pela violência foi algo para o qual não estava preparado, não para aquele episódio tão triste para a humanidade. Era estranhamente chocante (ainda é) que a miséria dos outros motive indiferença, mas, pior, que se manifeste em prazer.

 

O tempo que passei na Polónia foi, em grande parte, dedicado ao período da Segunda Guerra Mundial. Artigos, livros, documentários, filmes e visitas a locais como edifícios, museus, memoriais, campos de concentração e de trabalhos forçados, tudo sempre envolvido numa atmosfera de debate em sala de aula e fora dela. É diferente, muito diferente, ver os filmes O menino do pijama às riscas e A Lista de Schindler sentados no sofá, e no fim dormitar, do que ver um desses filmes ou documentários ou ler alguns relatos baseados em testemunhos reais e no dia seguinte entrar no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. A cada passo que dava, bem agasalhado e debaixo de temperaturas entre os cinco e os dez graus negativos, imaginava que, naqueles caminhos, muitos seres humanos foram obrigados a trabalhar vestidos de pijama, alimentados com sopa e pedaços de pão, debaixo de temperaturas de enregelar qualquer um e que podiam atingir 30 graus negativos. Olhei para o interior das barracas, para os beliches de troncos de madeira (três camas cada) e imaginava as pessoas amontoadas enquanto o guia contava que tinha mais probabilidades de sobreviver quem dormia na cama superior do beliche. Isto porque, em caso de doenças, os dejectos eram descarregados sobre os que dormiam por baixo. A seguir, colocou-nos uma pergunta, se algum de nós sabia qual era o local de trabalho que mais probabilidades de sobrevivência oferecia. Alguns atiraram à sorte, mas nenhum acertou. Trabalhar nas limpezas das casas de banho era o local que mais probabilidades oferecia de sobrevivência, pelo acesso a água fresca e corrente, e pelo calor que emanava das fezes e da urina.

 

A minha mente começou a levar-me a embrenhar-se naqueles episódios, naquela realidade doentia e perturbadora. Os choques eram diários. Consegui compreender um pouco melhor porque é que mães negavam os próprios filhos e porque filhos e pais, a determinado ponto, esqueciam-se que o eram para se focarem somente na sua própria sobrevivência. Passavam a ser apenas homens, homens sozinhos num mundo que os tinha abandonado. Ainda me choca, sim, ainda me choca, mas é impossível não tentar compreender os motivos. Há uma passagem no livro de Wiesel que impressiona. O relato de um episódio, depois de uma longa caminhada, entre campos de concentração, poucos dias antes da libertação, portanto já no limite das forças daqueles prisioneiros. O Rabi Eliahou procura o filho junto de Wiesel que, não se recordando, informa desconhecer o paradeiro daquele ou mesmo se ainda está vivo. Mas, lembrar-se-á depois:

 

“(…) o filho dele tinha-o visto perder terreno, tinha-o visto passar para a cauda da fila. Tinha-o visto. E tinha continuado a correr, deixando aumentar a distância entre os dois. Um pensamento terrível ocorreu ao meu espírito: ele tinha querido desembaraçar-se do pai! Tinha sentido o pai enfraquecer, tinha pensado que era o fim e tinha levado a cabo esta separação para se ver livre daquele peso, para se libertar de um fardo que poderia diminuir as suas hipóteses de sobrevivência. Tinha feito bem em esquecer-me disto. E estava feliz por o Rabi Eliahou continuar a procurar o filho querido” (p. 107).

 

Estou certo de que os seres humanos, quando colocados sobre as condições mais difíceis, perdem o que de mais emocional os liga ao mundo social, a razão esvai-se a seguir e ficam apenas os instintos, fica apenas o animal que cada um de nós é.

 

A Declaração Universal dos Direitos Humanos comemora, a 10 de Dezembro, 69 anos desde a sua ratificação pelas Nações Unidas. O documento, que tem como base uma futura paz mundial e a salvaguarda do ser humano, teve também o acordo dos Estados Unidos da América e da ex-URSS. Mas não nos esqueçamos de que os Estados Unidos da América mantiveram a segregação racial até 1964 e a ex-URSS manteve, até 1956 (sob a era estalinista), perseguições e execuções extrajudiciais. De recordar, ainda, que ambos os países mantiveram o mundo ocidental dividido pelo Muro de Berlim (1961-1989), numa tensão que colocou em constante risco a paz mundial, a Guerra Fria.

 

Lamentar faz parte da vida. Mas tenhamos cuidado para não sermos absorvidos por uma hipocrisia massificada. Lembremo-nos de que Churchill era defensor do eugenismo, apesar de heroicamente ter combatido a frente nazi. Lembremo-nos de que a Bélgica promoveu o último zoológico humano em 1958. Lembremo-nos de que a Suécia perseguiu a comunidade cigana e com base na lei forçou a esterilização das mulheres ciganas até 1974.

 

Lamentar faz parte da vida. Mas atentemos para a construção de uma vedação em aço e arame farpado promovida por Viktor Órban ao longo da fronteira entre a Hungria e a Sérvia, visando impedir a entrada de seres humanos que fogem da guerra provenientes da Síria, do Iraque, da Somália, entre outros países. Não ignoremos as afirmações do eurodeputado polaco Janusz Korwin-Mikke, alegando que as mulheres devem receber menos por serem, em vários aspectos, inferiores aos homens e menos inteligentes. Não descuremos os resultados animadores da extrema-direita na Holanda, na França, na Alemanha e, no passado dia 15 de Outubro, na Áustria, que, apesar de não vencerem as respectivas eleições, integram uma solução governativa. E, não menos importante, pelo contrário, não desconsideremos a eleição de Trump nos Estados Unidos da América. Afinal trouxe uma “nova visibilidade” ao Ku Klux Klan, veio dar força ao movimento “alt-right” e prepara-se para construir um muro na fronteira com o México.