The White Room

Organizar a casa para arrumar a vida — é isto que Mariana ensina

Mariana Vidal deixou a indústria da moda para se tornar organizadora de espaços. Aprendeu a deixar ir umas coisas, para receber outras. Quando começou a aplicar isto em sua casa, começou a ver a mesma mudança. Agora, quer ajudar outros com o The White Room

Texto de Renata Monteiro created; ?> •


É uma questão de “honrarmos as coisas que temos”. Isto é, “dar-lhes dignidade”. Mariana Vidal está a pensar nisto enquanto contempla, mãos na cintura, a montanha de roupa colorida que cobre por completo a cama de um dos filhos de Ângela Campos. Nos olhos da primeira, semicerrados a sondar cada peça, só se vê entusiasmo. É como se estivesse a visualizar a paisagem quando as “ervas daninhas” — como a organizadora de espaços chama ao excesso de coisas — desaparecerem. Já os de Ângela Campos, muito abertos, não escondem a surpresa. “No início entramos em pânico”, conta, a segurar duas camisolas iguais em cada mão, uma delas ainda com a etiqueta pendurada. “Só pensamos: ó meu Deus, onde é que eu gastei tanto dinheiro? Tens assim tanta coisa?”, pergunta-se, ora virada para Mariana, ora inclinada para Nuno, o bebé de 16 meses que não percebe o porquê de estar tanta a gente à volta da roupa dele e do irmão. Para Mariana, que começou o projecto de organização de espaços The White Room, é esta a magia de “tirar as coisas do contexto”. Porque mal a roupa dos dois filhos saiu toda dos armários, Ângela percebeu o “volume real do que tinha”. E percebeu, também, que “é de mais”. 

 

Por isso é que, ao fim de algumas horas de trabalho, a montanha gigante está dividida em vários montes mais pequenos. Num dos cantos do quarto estão os sacos para dar às amigas, às primas ou a instituições, devidamente etiquetados. No outro, “a pilha de acção”. É para lá que vão os itens que Ângela ainda não decidiu se ficam ou se vão ser "libertados". Se decide que ficam mas não vão ser usados neste Inverno, então guardam-se no “arquivo”. 

 

“Se visses isso numa loja, agora, compravas?”, pergunta Mariana. “É melhor guardar, não sei se vou para o terceiro”, devolve a farmacêutica. Ângela Campos é rápida a tomar decisões. Na maior parte das vezes, Mariana só serve de guia. “Faço as perguntas certas”, diz. “Pergunto a história das coisas. Não estou a incutir nada, as pessoas que me contratam já se sentem assoberbadas, com imensas coisas. Não sabem é lidar com isso”, explica. “Sim, dificilmente uma pessoa sozinha tem coragem para ir até ao fim”, confessa a farmacêutica.

 

Toca o alarme. Mais uma pausa de cinco minutos. Mariana vai trabalhar com Ângela o dia todo. As duas já se conhecem: em Fevereiro, a organizadora já tinha feito o mesmo, mas no quarto do casal. O esperado é que passe pela casa toda, na marginal de Matosinhos, mas a maratona da organização começou pelo guarda-roupa, a categoria que Mariana acha mais “imediata” para “começar a exercitar o músculo da decisão”. “É mais fácil decidir se ainda gosto da roupa, se me serve, se é o meu estilo neste momento”, explica. Depois, pega nos livros e nos papéis. Para o fim fica aquilo a que chama itens  “sentimentais”. Objectos associados a memórias, coisas herdadas e prendas são deixados para quando o “músculo da decisão já está trabalhado”. 

 

Dez anos de escuridão ou dez anos de amor?

Mariana Vidal está a imaginar o pote da avó. E os muitos naperons que ela fazia. E as meias. “Nasceu nos anos 30, com a crise e a pobreza”, conta, “e ela remendava muito as meias”. Remendava remendo por cima de remendo, diz, os dedos a fingirem ser estas camadas. “E é interessante porque, agora, ao libertar-nos de outras coisas, dei com uma dessas meias”, lembra-se. Estava “completamente esquecida nos confins de uma gaveta, no meio das outras rendinhas todas”. Pegou nela, lavou-a e agora vai emoldurá-la. 

 

“Eu acho que temos coisas que nos são tão importantes e estão no fundo de caixas a apanhar pó na garagem e no sótão”, explica. “Livros que nós adoramos e estão ali fechados, nunca mais vão ser abertos. Se venderes, se deres à biblioteca, vão ter outra vida.” É uma escolha: “ou dez anos de escuridão ou dez anos de amor”. 

 

Mariana não esconde que gosta de consumir coisas: gosta de comprar uma roupa em que se sinta confiante, de consumir livros, objectos de decoração. Mas o que percebe “é que as pessoas continuam a consumir e não libertam, não fazem o círculo, não fazem com que seja sustentável”.

 

Falta "pôr as coisas a rodar". A organizadora de espaços vê muito da mentalidade da avó nestes comportamentos. “Como não tinham muita coisa, queriam guardar tudo. E nós, ainda hoje, agarramo-nos a coisas tão simples como se a nossa vida dependesse disso”, continua. “Nós não precisamos de tanta coisa”, garante. “Porque é que não deixamos ir as coisas que não gostamos tanto para ficarmos com as que gostamos mais?”

 

O espaço onde vivemos molda a forma como vivemos 

Quando tudo isto começou a fazer sentido para Mariana, o emprego que tinha há dez anos, como designer de moda, deixou de fazer. “Sou designer de moda de formação porque sempre gostei de coisas bonitas e de fazer coisas bonitas”, resume. Trabalhou em Portugal, Espanha e na Suécia e foi a meio da estadia em Estocolmo que encontrou um livro. É cliché, mas esse livro, o It’s All Too Much, de Peter Walsh, mudou-lhe a vida. Ou começou, ainda sem saber, uma mudança que se intensificou quando foi trabalhar para Espanha. Queixava-se da desorganização e do “consumismo da indústria da moda” quando, por ironia, passou por outro livro: The Magic of Tidying Up, de Marie Kondo, uma conhecida organizadora japonesa. “Nem sabia que aquilo era uma profissão e ela gere um negócio, super bem sucedido.” Comprou o livro, ficou a pensar durante uns meses “e se e se”, inscreveu-se em cursos online sobre o tema, psicologia e coaching e tomou uma decisão.

 

“Nunca me tinha posto em risco desta forma”, confessa. “É uma coisa que eu nem sabia que existia há um ano ou dois e que tem todo o potencial de mercado, faz sentido para mim, a minha personalidade e os meus valores”. No início de 2017, saiu da Bimba y Lola, voltou ao Porto e começou o próprio negócio de organização de espaços, o The White Room, a partir do Porto. “A missão é simples: quero ajudar a simplificar e a tornar mais confortável a tua casa”, apresenta-se. E quando começou a aplicar isto na sua própria casa, começou a ver mudanças também na sua vida.

 

“Fui perceber porque é que não estava feliz no dia-a-dia”, diz, simplesmente. “Acho que não posso culpar o exterior, foi uma evolução de mentalidade e aceitar isso foi muito libertador.” Afinal, é nisto que Mariana acredita. “Tudo bem, foram dez anos a trabalhar, a dar o meu melhor, as pessoas valorizaram, eu valorizei. É uma mentalidade, é deixares fluir as coisas e perceber o que é realmente importante.”

 

O objectivo é tornar tudo “muito mais usável, orgânico e funcional”. “Imagina: se dissermos que gostamos de um livro e tivermos centenas de livros em montes, uns atrás dos outros, acabamos por não pegar nele porque é um volume tão grande de coisas que o nosso subconsciente também fica preguiçoso só de pensar ‘agora lá vou eu ter de subir àquela estante e pegar no livro que está atrás de tudo’". A organizadora cita uma autora que lhes chama “obstáculos”. “Se tiveres uma cozinha cheia de coisas, condimentos que não usas, esqueces-te que lá atrás tens farinha e fermento para fazeres panquecas”, lembra. “E tu até adoras fazer panquecas, mas depois cais na rotina de usar sempre as mesmas coisas porque nem tens tempo nem vontade para, de manhã, ires investigar por baixo do resto que não gostas.”

 

O critério de escolha que adaptou de Marie Kondo é simples: se te traz alegria fica; se não traz, não fica. “É tão orgânico, intuitivo e adapta-se a toda a gente, não há matemáticas, nem o polícia do minimalismo. Ela deixa tudo à decisão da pessoa que quer ajuda”, explica. É esta a principal razão para, no The White Room, trabalhar com o cliente. “Não ia estar eu sozinha a dizer ‘tens este espaço para livros e o dobro dos livros, metade tem de ir fora’. Não, tenho de perceber e respeitar as decisões e as diferentes personalidade e gostos”, diz Mariana.

 

Ficar só com o que nos faz felizes

Há uma conhecida partida de um jovem norte-americano que começou a substituir, uma a uma, as fotografias que tinha em casa dos pais pelas da cara de um actor. “Foi substituído aqui uma, ali outra e a mãe só reparou que tinha a casa cheia de caras do mesmo actor passadas duas semanas”, ri-se Mariana. A questão é que “nós, às vezes, começamos a tolerar as coisas”. “E depois a ignorá-las”, diz. “Mas o nosso cérebro não deixa de processar uma mensagem”, ou seja, “se vamos tolerando e potencialmente ignorando coisas que nós nem gostamos, mas mantemos por inércia em não tomar uma decisão e não questionar aquilo que está à nossa volta, vamos sendo influenciados por estarmos rodeados de coisas que não gostamos.”

 

A organizadora de espaços já teve como cliente uma criança de dez anos. A mãe queria que a filha fosse mais organizada e chamou-a. Começaram pelo armário da roupa e a organizadora reparou que “a menina não tinha problemas de culpabilidade” e só queria ficar com “o que a fazia sentir-se feliz e confiante”, conta. “Já nós adultos há imensas pressões: ‘temos de ficar com isto porque foi alguém que me deu’, ‘isto custou imenso dinheiro’ ou ‘devia ter aqui 30 chávenas para quando tiver aqui 30 amigos’, elenca Mariana. E, na realidade, “só temos aquela mão cheia de amigos que costumam lá ir à sexta-feira”. 

 

É neste “confronto realmente complicado” que os clientes entram em “fase de introspecção”. Mas quando a casa passa a reflectir aquilo que são, sentem paz. "Porque sou eu e quem entrar em minha casa sabe que isto sou eu”, diz, sorriso na cara. Além disso, fica “muito mais fácil de arrumar e limpar”.

 

O alarme volta a tocar. A montanha de roupa já foi escalada, está na hora do almoço. "Uma vez que vês tudo bonito, fica difícil voltar ao caótico", admite Ângela, a sorrir.