Crónica

“Fofinha é a tua almofada!”

Termos como "fofinha", "queridinha", "queriduxa", "fofuxa", "bebé" e outros que tais são completamente proibidos. Eu tenho um nome. Que tal gravares o meu nome na tua mente e passares a chamar-me assim?

Texto de Estefânia Barroso created; ?> •


Assumo que não sou a típica mulher romântica, que lê poemas de amor sempre que pode, que fantasiou ou que fantasia com o casamento fabulosamente feliz, que sonha com o homem que estará sempre ao meu lado para executar as tarefas mais complicadas e que se derrete perante um ramo de flores. Acredito que haja muitas mulheres que sigam esse padrão. Mas eu não. E acredito que existam outras tantas que, tal como eu, o abominam.

 

A verdade é que existem algumas ideias pré-concebidas sobre as mulheres com as quais eu não me identifico e que me irritam. E assumo que quando digo que não gosto de algumas coisas sou observada com um olhar desconfiado de quem pensa: "Esta mulher é uma pedra sem qualquer tipo de sensibilidade!"

 

A primeira e a mais importante: não gosto de receber flores. Está dito. Abomino receber um ramo de flores. E quanto maior e mais faustoso ele for, pior. Não consigo gostar de flores. Rosas, então… Acho que é mesmo a prendinha última. Aquela prenda que nos diz "Não faço a mínima ideia do que te oferecer, mas ouvi dizer que todas as mulheres adoram flores, sobretudo rosas". Pois, eu digo: não aprecio. Gosto de girassóis. Um só, em jeito de surpresa, é tolerável. Mais do que isso não. Não consigo olhar para um ramo de flores sem pensar: "Este ajuntamento de coisas bonitas e de cores vivas deve ter custado uma fortuna e daqui a três dias estará no lixo porque estará já seco". Há coisas bem melhores, mais úteis e menos efémeras que podem ser oferecidas. Sim?

 

Outra coisa que não suporto e que muita gente acha que as mulheres adoram: aqueles termos supostamente carinhosos que te fazem pensar "Ele acha mesmo que tu gostas de ser tratada assim ou sabe que desta forma não há forma de errar o teu nome?" Termos como “fofinha”, “queridinha”, “queriduxa”, “fofuxa”, “bebé” e outros que tais são completamente proibidos. Eu tenho um nome. Que tal gravares o meu nome na tua mente e passares a chamar-me assim? Aceito diminutivos, ou petit noms, a quem me conhece há muito, a quem é meu amigo, às pessoas de quem gosto muito. Não sou contra um termo ou outro carinhoso, mas não esses do “querida” e da “fofa”, até porque isso não me caracteriza em nada. Não sou querida nem sou fofa. Fofos são a almofada e o colchão das pessoas!

 

Outro pormenor. Gosto de ler. Sempre gostei. E sou mulher… claro. Isso não quer dizer, como acham todos os vendedores das livrarias deste país, que suspire e que goste das histórias de Nicholas Sparks. Conto na minha biblioteca pessoal um sem número de livros desse senhor que me foram oferecidos. Mulher leitora tem de gostar das histórias de amor e de drama do senhor Sparks. Pois eu acho que são do mais enjoativo, que não aportam nada de novo. Portanto, mais um aviso à navegação: nem todas as mulheres gostam do senhor Sparks, da Susanna Tamaro, Paulo Coelho e outros que tais. Continuando no capítulo da leitura, assumo que não sou fã daquelas frases profundamente românticas que pululam no Facebook. Enjoam-me. Não acho lindo, não acho romântico, acho brejeiro. Prefiro uma boa piada no momento certo. É bem mais romântico.

 

Há que chamar a atenção também para aquela mania que algumas pessoas têm em abusar, como costumo dizer, dos "inhos". O uso de diminutivos não torna a conversa mais romântica. Frases como "amorzinho (o horror!), queres um cafezinho e um beijinho porque estás com um ar tristinho" são extremamente irritantes, pelo menos para mim. E já que estamos nesse tema, aconselho a ter algum cuidado com a expressão "beijinho grande". Não tenho nada contra a expressão “beijinho”. Até é simpática. Mas se é “beijinho” não pode ser grande, certo?

 

Por fim, sou mulher e aprecio vinho. Há uma certa mania para achar que a mulher aprecia apenas vinho branco ou rosé — verdade seja dita que, à medida que envelhecemos, se vai perdendo, aos poucos, esta ideia pré-concebida. Sim, gosto de vinho, mas prefiro vinho tinto. Outra ideia pré-concebida: a mulher só gosta de bebidas doces. Sim, gosto de licores, mas não sou fã de uma amêndoa amarga ou de um Baileys. Prefiro um gin bem servido a qualquer licor. Mentalizem-se: cada mulher é uma mulher, com gostos e preferências diferentes.

 

Terminando a conversa, que já vai longa: o que eu quis demonstrar, ao longo deste texto, é que não se pode considerar que, por sermos mulheres, somos todas iguais, apreciando as mesmas coisas. Somos seres únicos com gostos e vontades únicas. Não gostamos todas do mesmo. Nada tenho contra quem gosta de flores, quem gosta de petit noms simpáticos, contra quem ama ser tratada por “fofinha” ou contra quem lê Nicholas Sparks e acompanha a leitura com um licor. Aceito que todos somos seres diferentes. E, por isso, apenas peço que tenham em conta as diferenças que nos individualizam, que não nos tratem todas pela mesma medida, até porque se torna pouco simpático e pouco dignificante.