Cabo Verde

Navvab Aly quer ser a “youtuber” que não teve ao crescer

Começou o projecto Crespas & Cacheadas Poderosas em 2014. Agora está no Facebook como A Preta Aly e, no YouTube, é uma das metades do canal Dois Pontos. A cabo-verdiana Navvab é uma das oradoras do primeiro TEDxWomen no Porto, a 4 de Novembro

Texto de Renata Monteiro created; ?> •


Navvab Aly adora o seu cabelo crespo e isso vê-se à distância. Nota-se melhor ainda quando se aproxima de nós, numa das ruas da Baixa do Porto, fios impecavelmente tratados com cachos volumosos a cair sobre os ombros. Não vai ao cabeleireiro, conta, trata dele em casa. Para a jovem cabo-verdiana, esses são momentos "de amor-próprio e de contacto".

 

Antes de criar a página Crespas & Cacheadas Poderosas no Facebook, em 2014, não queria ter cabelo crespo, nem cacheado: queria-o liso, como a mãe usava. Agora, com 20 anos, é capaz de aparecer à frente da câmara de cabelo liso ou ondulado, se lhe apetecer. Mas bem mais provável é falar para os seus quase 14 mil seguidores no Facebook de cabelo cacheado, apanhado, ou de tranças. Isto porque a “questão do cabelo é importante”, diz Navvab, e mais importante ainda é "toda a conjuntura" à volta dele. O cabelo, sublinha a jovem cabo-verdiana de 20 anos, “não é moda ou enfeite”, é “afirmação da identidade”.

 

Por isso é que, à medida que foi crescendo, Aly deixou de falar só sobre dicas de tratamento de cabelo afro e começou a reflectir sobre o que era ser jovem e negra, a falar da universidade, do corpo e de feminismo. Uma mudança que também se reflectiu na alteração do nome do projecto que desenvolve no Facebook e no YouTube. É agora A Preta Aly. “Comecei a trazer a página mais para mim”, explica. “Primeiro pensei em ‘A Crespa Aly’ e depois disse ‘não, vou colocar 'A Preta Aly' e incluir as questões de racismo’”.

 

Dois Pontos, dois jovens, um canal de YouTube

Como resume, queria ser a youtuber que não teve enquanto crescia e se debatia com estas questões. “Há poucas mulheres cabo-verdianas a fazer vídeos que sejam representativos da mulher cabo-verdiana”, comenta. “Hoje conseguimos encontrar canais de beleza e de cabelos mas acho que cabo-verdianas a falar sobre identidade são poucas, para não dizer nenhumas. Eu acho que com este meu trabalho consigo fazer alguma diferença.”

 

O canal no YouTube, entretanto, ganhou uma nova vida e um novo nome. Agora dedica-se ao Dois Pontos em conjunto com Elgner Ramos, um estudante de engenharia informática, também cabo-verdiano. “Apesar do desenvolvimento do YouTube em Cabo Verde ainda há poucas pessoas que conseguem transmitir discursos fortes para jovens”, diz. Por isso, começaram a fazer vídeos em crioulo, alguns com legendas portuguesas, outros não.

 

Preta ou negra?

Navvab optou pelo nome A Preta Aly — uma decisão que está longe de ser consensual. “Na comunidade negra", explica, "existem estas discussões sobre aceitar-se ou não [a palavra] preta". Tal deve-se ao facto de, muitas pessoas, "usarem 'a preta' no sentido pejorativo'". E, como têm "medo que isto entre no discurso", há outros que "preferem negra". "Não tenho nada contra preta, desde que não seja usado de forma negativa", afirma. Tanto que optou por A Preta Aly apesar de, admite, às vezes preferir “negra” porque mais “do que a cor da pele” simboliza “um cariz de identidade forte”, acredita.

 

Nascida na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, Navvab mudou-se aos quatro anos com os pais e os irmãos para Santiago, a maior ilha do arquipélago. Aí viveu até se mudar para Coimbra, para estudar Relações Internacionais. Quando acabou a licenciatura começou o mestrado em Estudos Africanos, na Universidade do Porto. No futuro, pode estar um doutoramento. Mas o objectivo maior ainda vem a seguir: voltar para África, qualquer país e falar sobre feminismo, educar tanto rapazes e raparigas quanto à igualdade de género, envolver-se na diplomacia e desenvolvimento do continente.

 

É com estas ideias e muitas outras que Navvab vai saltar de trás da câmara para o palco do primeiro TEDxWomen no Porto, este sábado, dia 4 de Novembro. A ela juntam-se Cláudia Morgado, COO da Redlight Software, Gabriella Opaz, blogger de vinhos, Nour Machlan, arquitecto, Sara Ramos, fundadora da New Digital School Porto e o Jovem Conservador de Direita, comediante. Os bilhetes para a conferência já estão esgotados.