Crónica

O dia em que o estrangeiro concordou comigo

A nossa cultura está em risco e a comida gourmetizada. Os nossos lugares e o nosso espaço foram invadidos por turistas. Estou a pedir-vos, estou a pedir-lhes, que partilhem esta situação. Falem de sustentabilidade, ensinem onde ficar e a ser turistas responsáveis

Texto de Nadine Mussá created; ?> •


Recentemente estive em duas grandes cidades portuguesas. A gentrificação foi tema recorrente. Em Lisboa, falava-se em ser praticamente impossível arrendar casa que não com outras pessoas. Afinal, quem aguenta uma renda tão alta que não cabe no orçamento de quem recebe um salário mínimo? Hostels aqui, ali, chuta-se uma pedra e salta um airbnb. Expulsam os lisboetas, por vezes violentamente, das casas onde viveram a vida inteira e fecham-se portas para “dar vida aos bairros” com turistas. Lisboa, não sejas francesa, ou inglesa, ou alemã. Lisboa, és portuguesa e pertences a nós. Onde estão os nativos e migrantes? Migrando para as periferias. Segundo Francisco Calheiros, os ricos podem viver no Chiado, e os outros "se calhar" têm que ir para Rio de Mouro, e todas as circunstâncias apontam para que ele "se calhar" tenha razão.

 

No Porto fiquei espantada ao ouvir mais outras línguas do que a nossa. Vi eléctricos só para turistas, autocarros turísticos que passam mais do que os da rede de transportes da cidade. Até um helicóptero vi, pousado à beira-rio, à espera de quem pague bem por um passeio a voar por cima do casario que se se estende até ao mar. Ao perceber que o Porto também está a perder a sua portugalidade, descobri que o turismo desmesurado está a afastar-nos de nós.

 

As cidades mudaram com a enchente de turistas. Os apartamentos onde vivíamos foram remodelados ao gosto do turista e são inacessíveis para quem precisa de arrendar para ficar. São agora cidades de plástico para inglês, italiano ou americano ver. Vendem as fachadas de cidades atractivas para outrem enquanto estão a ficar fora do alcance de quem lá vivia. As cidades transformaram-se em sítios genéricos desprovidos do carisma próprio do que é português.

 

E, revoltada, nos grupos de mulheres viajantes nas redes sociais, onde tanto recomendei o nosso país, partilhei um pequeno texto que intitulei “About Portugal” ("Sobre Portugal"). Expliquei o que se está a passar, sabendo que isto acontece em qualquer cidade com atracções turísticas, da maior à mais pequena. Choveram reacções durante dias, provenientes de todo o mundo, incluindo Portugal. A compreensão foi comovente. Muita gente confessou que se passava o mesmo nas suas cidades: Madrid, Amesterdão, São Francisco – a “terra” do Airbnb – e muitas, demasiadas, mais. Pediram-me uma lista de negócios locais para apoiarem, ainda há esperança!

 

Pedi que não cedessem aos senhorios sedentos de dinheiro dos bolsos de quem procura um abrigo por tempo determinado. Falaram em explorar a cultura e gastronomia. A nossa cultura está em risco e a comida gourmetizada. Os nossos lugares e o nosso espaço foram invadidos por turistas. Estou a pedir-vos, estou a pedir-lhes, que partilhem esta situação. Falem de sustentabilidade, ensinem onde ficar e a ser turistas responsáveis.   

 

Não queremos fechar fronteiras e mandá-los embora – embora algumas pessoas saudosistas o queiram – porque sabemos que os turistas contribuem para a economia e segurança nas cidades e porque, dizem, somos um povo muito hospitaleiro. Até nos dá gosto saber que tanta gente se sente atraída pelo que é nosso. O turismo traz benefícios às cidades, obras e espaços cool que surgem para eles, só queremos que no meio disto tudo ainda haja espaço para nós. Estas coisas deveriam ser feitas primariamente connosco em mente. Temos que lidar com cidades a rebentar pelas costuras e dinâmicas instáveis dentro delas, se calhar merecíamos também um pedaço do bolo, não?

 

Queremos partilhar com quem vem para usufruir sem danificar o que é português ou o que está apto para a globalização. Não somos necessariamente contra os apartamentos e quartos arrendados aos turistas; somos contra despejarem-nos, por vezes de forma violenta, ou fecharem-nos a porta em prol de quem vem visitar. Nós queremos ficar!

 

Portugueses e migrantes, eu sei, já não há alma nesta casa onde às vezes petiscávamos sardinhas, mas lutem por ficar! Não temos dinheiro devido às disparidades entre custo de vida e salários, mas tem de haver solução. A regulamentação já começa a existir noutros países. Três meses de arrendamento como limite é um exemplo, e em casa do senhorio, não em casas todas remodeladas, que os turistas elogiam, e que parece que nós não merecemos.

 

Não se pode permitir aos monopólios que comprem casas como no jogo homónimo, deixando os locais sem oportunidade nem competição justa. As pessoas são obrigadas a sucumbir, passivas, à situação tóxica que o arrendamento de quartos e casas a curto prazo trouxe. Não há competição justa, exija-se regras, exija-se direitos, exija-se o nosso lugar de volta! Nós merecemos.