Crónica

Até o James Bond filmou algumas cenas em Portugal!

Se tudo correr bem, Portugal encarregar-se-á de voltar as costas a Boris Johnson, sem esquecer o devido pontapé, e o mesmo em Espanha, por favor "nuestros hermanos", porque se Inglaterra quer ser uma ilha, uma ilha será, ao sabor das ondas e que Deus a acuda

Texto de João André Costa created; ?> •


Ou assim nos disse o Boris à chegada a Portugal, no seu estilo inconfundível de quem nunca se sabe se está verdadeiramente incomodado ou, ao invés, a gozar com isto tudo ou, terceira hipótese e a mais provável, como se estivesse a chegar a um hotel (e, se calhar, está).

 

Isso e o Tratado de Windsor. Qual tratado, perguntam vocês, porque eu também não sei, e desta vez não vou ao Google, não quero ir ao Google e tenho raiva de quem vá ao Google porque agora se percebe como não só o Reino Unido está de joelhos, o Reino Unido admite estar de joelhos. Do ponto de vista médico, reconhecer o problema é o primeiro passo para a sua cura. No entanto, o paciente insiste em avançar. Porquê? Também não sei, mas desconfio.

 

O Brexit é o maior tiro no pé, um tiro em cada pé, não, dois tiros em cada pé, da história de um país. Sem uma ponte com a Europa, num mundo globalizado, ninguém, nem os próprios ingleses, vão querer saber deste país. E a conta aí está por pagar, ao melhor estilo dos portugueses, 100 mil milhões de libras mais coisa menos coisa, e isto é apenas o prato de entrada num país que só não está mais endividado por ter armas nucleares. Tivesse Portugal uma pistola do mesmo tamanho e, muito provavelmente, o FMI nunca teria cá entrado.

 

Disse-nos então o Boris que a velha amizade entre Portugal e o Reino Unido, juntamente com o tal Tratado de Windsor, obriga os dois países à entreajuda em momentos de aflição, isto vindo da boca de quem nem sequer sabe se o Vinho do Porto é produzido, lá está, no Porto, e o Algarve uma região de Portugal e não um país à parte. E, por conseguinte, nada como um belo momento de aflição para se lembrarem deste pequeno país à beira mar plantado, o mesmo onde tantas vezes nem sequer se lembram de si próprios, filhos incluídos, tal o grau de alcoolemia, quanto mais de nós. Mas não se preocupem porque os direitos dos 400 mil portugueses e um milhão de polacos estão garantidos e ninguém terá de voltar para casa. Resta-me saber por que carga de água os ingleses nos metem sempre no mesmo saco com os polacos.

 

Para quem ande no centro de Londres é impossível não reparar nas inúmeras torres de habitação em construção para futura venda à módica quantia de 1,5 milhões de libras por cada T1, de preferência alcatifado. Investimento, portanto, investimento o qual está, obviamente, à espera de retorno, entre tantos outros exemplos de investimento, ainda, numa das maiores cidades do mundo, ou não tivesse a Bloomberg inaugurado, na semana passada, a sua sede europeia na City, 1000 milhões de libras depois, e aqui sublinho a palavra europeia.

 

Não sei muito bem o que é a democracia, a qual estará — hoje e sempre — por acontecer enquanto as empresas, a finança e o dinheiro ditarem as regras. Se isso é verdade em Portugal, ainda é mais verdade no Reino Unido. Por isso esta surpresa em relação ao Brexit e à necessidade premente deste Governo em responder à vontade das populações em nome de um referendo cujo erro histórico é por demais evidente a cada dia que passa, desde logo para mal das próprias populações.

 

Por isso, e porque os senhores com dinheiro não estão minimamente interessados em perdê-lo, ao dinheiro, o Brexit nunca acontecerá. Entretanto, o Boris passeia, hoje em Portugal e amanhã, estou certo, em Espanha, a oferecer Gibraltar como moeda de troca. Entretanto, o Boris passeia. Se tudo correr bem, Portugal encarregar-se-á de lhe voltar as costas, sem esquecer o devido pontapé, e o mesmo em Espanha, por favor nuestros hermanos, porque se Inglaterra quer ser uma ilha, uma ilha será, ao sabor das ondas e que Deus a acuda.

 

Quanto ao James, ainda agora o vi a passar a grande velocidade, pela esquerda pois claro.