Crónica

Museu Português da Ciência: um dia como investigador

Na próxima sala vamos ver como se faz um artigo. Vão poder escrevê-lo na íntegra e, com alguma sorte, não farão parte dos últimos nomes da autoria. Os primeiros autores serão sempre os directores da sala

Texto de João Araújo Gomes created; ?> •


Sejam bem-vindos ao Museu Português da Ciência. Neste sítio, moderno e interactivo, podem experimentar por breves momentos o que é ser um investigador. Preparem-se para vivenciar a experiência da Ciência por alguns instantes e criar a ilusão de serem cientistas.

 

A exposição começa com uma breve e aliciante introdução à história da Ciência portuguesa, com alguns exemplos dos principais investigadores portugueses que puderam visitar o estrangeiro. Pedimos desculpa pela não tradução do conteúdo, mas quisemos reproduzir fielmente aquilo que acontece na realidade. Quem não quiser ler o texto original, pode requisitar um tradutor na entrada, que lhe resumirá os conteúdos. Se quiserem e puderem comprar o tradutor plus ganham entradas vitalícias para os museus da indústria do petróleo sem precisar de entrar neste museu.

 

Ali à frente podem ver uma recriação, em menor escala, de um laboratório científico. Reproduzimos fielmente a maior parte dos instrumentos existentes num laboratório, mas, como não temos espaço para expor todo o conteúdo, dispensámos aqueles que ocupam mais espaço e precisam de mais recursos humanos. Se puderem reparar com atenção, a maior parte das peças expostas não estão a funcionar — eram precisos técnicos a tempo inteiro — e o laboratório está neste momento vazio. Nunca chegam a estar mais do que duas pessoas num laboratório. Por isso, se quiserem experimentar a visita, dirijam-se à secretaria e agendem alguns minutos com a Dra. Esperança. Se não quiserem estar na fila, peçam a um estagiário do nosso museu para vos substituir — dêem-lhes uma palmadinha nas costas e ofereçam-lhes uma carta de recomendação para eles coleccionarem. É também assim que lhes pagamos.

 

Na próxima sala vamos ver como se faz um artigo. Vão poder escrevê-lo na íntegra e, com alguma sorte, não farão parte dos últimos nomes da autoria. Os primeiros autores serão sempre os directores da sala. No final, podem levar uma cópia para casa inteiramente grátis.

 

Se continuarmos pelo corredor mestre, encontramos uma vitrina. Aí observamos uma raríssima cópia de contrato laboral do último cientista contratado. Pedimos que não tirem fotografias com flash porque o reflexo poderá ser nocivo e poderão perder a capacidade de focagem e concentração.

 

De seguida, veremos um simulador de carreira em realidade aumentada, que pode ser observado com recurso a óculos 3D, de modo a fornecer uma melhor imagem virtual. Em breve este módulo será aperfeiçoado com tecnologia 4D para que o utilizador possa sentir por breves instantes o cheiro do dinheiro de uma bolsa de investigação de três meses.

 

Atenção: este museu tem também um gabinete de simulação ao apoio psicológico. Não estamos a receber mais ninguém neste momento, por causa do número de pessoas que se perderam na sala do doutoramento. Há quem saia de lá só ao fim de muitos anos!

 

Contávamos com a participação numa palestra de um dos poucos cientistas em actividade, mas está a trabalhar fora do país. Os poucos que por cá andam estão tão ocupados a escrever artigos, a dar aulas, organizar congressos e constituírem família, que só podiam a 1 de Janeiro ou nos dez dias de férias que tiram fora de época estival. Finalmente, e antes de acabar a visita, todos receberão um diploma e poderão tirar uma fotografia ao lado de um dinossauro em tamanho real. Esse dinossauro só está disponível durante aos fins-de-semana e da parte da tarde, porque durante a semana ainda decora a Universidade.

 

Ao vosso dispor, mas agora não,

 

a Direcção.