Crónica

O fogo só vem quando se chama

O eucalipto e a acácia, para além de não serem indígenas, são pirófitas e consequentemente “irónicas”. Pirófitas porque resistem à queima, irónicas porque o termo pirófito traduzido à letra significa “amigas do fogo” — belas amigas!

Texto de João Araújo Gomes created; ?> •


Somos todos especialistas do fogo. Sabemos todos chamar nomes aos que consideramos culpados do país em chamas. De quem é a culpa? Eu digo.

 

Numa altura em que ainda não se apurou a verdadeira causa do incêndio de Pedrógão Grande, e que nos deparámos com uma das maiores e mais devastadoras épocas de incêndios em Outubro de que há memória histórica, o que importa reter é que, mesmo que se prove que os fogos foram ateados, o maior crime foi feito há muito mais tempo. E não, a culpa não é dos bombeiros, que se lhes tivessem de chamar um nome diferente do que têm só se fosse para acrescentar “muito” antes do “bom...”.

 

O problema começou quando importámos espécies arbóreas alóctones e as começámos a plantar indiscriminadamente. Para que se saiba, o clima de Portugal continental é, segundo Koppen, de tipo mediterrânico com influência atlântica, com invernos chuvosos, verões quentes e secos no centro sul, e quentes e menos secos no litoral Oeste e centro-norte. Este tipo climático suporta espécies de árvores típicas deste tipo climático como, e só para dar alguns exemplos, castanheiro, aroeira, choupo, sobreiro, carvalho, azinheira, nogueira e salgueiro.

 

Então e o eucalipto!? Não. O eucalipto não é português! Eu não tenho nada contra o eucalipto propriamente dito. Até cheira bem. A folha faz bem à tosse dos miúdos e até pode crescer em terras degradadas, impedindo o corte de outras espécies arbóreas. Viva o eucalipto. E vivam as acácias também, outras espécies de árvores maravilhosasamente importadas sem que ninguém se tenha importado — o que era realmente maravilhoso era têmo-las deixado no sítio de origem, que era a Austrália (quase todas, creio).

 

Ambas as espécies, eucalipto e acácia, para além de não serem indígenas, são pirófitas e consequentemente “irónicas”. Pirófitas porque resistem à queima, irónicas porque o termo pirófito traduzido à letra significa “amigas do fogo” — belas amigas! Juntamente com outras espécies resinosas, são árvores que não só aguentam combustão como também se regeneram rapidamente.

 

“Então a culpa é de das empresas de celulose que incentivam o cultivo de eucalipto e de acácias!?” Também! Mas não principalmente.

 

A culpa é do desleixo e da impunidade. A culpa é da chefia que deixou que o cultivo de eucalipto, acácia ou pinheiro se tenha continuado a fazer sem que tenha sido estabelecido um limite e controlo prévios. A culpa é de quem não ordena que sejam restabelecidos postos de vigia florestal e serviços de manutenção e limpeza — porque para isso eu não me importo nada de pagar impostos, muito pelo contrário!

 

A culpa é de quem sabe que tem uma das maiores concentrações de “pólvora” arbórea da Europa à espera de ignição —agora talvez já não — e não evita que ela arda descontroladamente. A culpa é de quem podia ter adquirido em 2005 sem grandes custos, de um inventor português, sistemas de aprisionamento de água para serem usados nos C-130 da Força Aérea Portuguesa para o combate de incêndios.

 

A culpa é nossa que, agora que sabemos disto, não nos indignamos e pedimos mudança na Estratégia Nacional para a Florestas.

 

Embora não sejamos o único país da zona climática mediterrânica a ter estas espécies importadas, continuamos a ser o país da União Europeia como mais incêndios! E se pensarmos que as alterações climáticas contribuirão progressivamente para um aumento de temperaturas e intensidade de ventos com possibilidade de estender a duração das estações quentes... ficamos com uma ideia do que aí pode vir, se ainda houver mata para arder. Uma coisa já sabemos — o fogo só vem quando se chama.