Crónica

Ele anda em campanha e eu também

Se a maioria absoluta é quase certa, poupavas no papel, nos carros pintados, nos assessores e arranjavas a escola da minha filha. Já pensaste no poder que tens na mão?

Texto de Helder Ferraz created; ?> •


Ele anda em campanha e eu também.

 

Ele anda em campanha, anda tranquilo porque a vitória parece um dado adquirido.

 

Eu ando preocupado, intranquilo, a minha filha conhece amanhã a terceira educadora no espaço de 15 dias, ela e os(as) 51 colegas estiveram até ontem apenas com uma assistente operacional a acompanhar os seus dias, 25 colegas têm três anos e iniciaram o pré-escolar. As professoras pedem resmas de papel, a presidente da associação de pais retretes adaptadas a crianças de tão tenra idade porque as que existem parecem banheiras.

 

Ele anda em campanha, anda alegre e sorridente, fala da embalagem mas propositadamente evita o conteúdo.

 

A escola da minha filha tem largos troncos de árvores no recreio. Em tempo de chuva não tem um coberto e ela precisa de ficar dentro da escola a brincar na escada de madeira que sobe ao primeiro piso e desce na mesma direcção. Tudo isto porque não há dinheiro para o coberto, nem para arrancar os troncos das árvores, nem para jogos, nem para instrumentos musicais, nem para um fantocheiro, não há dinheiro para nada.

 

Ele anda em campanha, os carros pintados com a sua cara são vários, as romarias são bonitas, as bandeiras muitas, os folhetos chegam todos os dias.

 

Ontem perguntava-me quanto lhe custou esta campanha e pensava — epá, se a maioria absoluta é quase certa, poupavas no papel, nos carros pintados, nos assessores e arranjavas a escola da minha filha. É que se ajudasses agora, talvez mais tarde não gastasses dinheiro com programas de compensação. Se ajudasses agora talvez evitasses que os mais favorecidos de entre nós matriculassem os filhos em escolas privadas; se ouvisses os pais agora, talvez incentivasses a que fossem mais participativos, menos conformados e inertes, talvez evitasses que os filhos viessem a receber os subsídios do Estado. Na verdade, já pensaste no poder que tens na mão? Podias contribuir para construir um futuro melhor para estas crianças.

 

Ele anda em campanha, não se preocupou antes, mas talvez depois de ser eleito se venha a preocupar.

 

As funcionárias que a minha filha conheceu o ano passado foram quase todas para outras escolas, agora vai ter que conhecer as que ele mandou contratar para este ano. A senhora que “mandou vir” da Segurança Social, vem agora com um contrato emprego-inserção, nunca trabalhou numa escola nem com crianças, mas também o que importa? Qualquer um pode educar, qualquer um sabe de educação. Talvez um educador não saiba de engenharia civil, mas um engenheiro civil sabe de educação. Talvez um educador não saiba de arquitectura, mas um arquitecto sabe de educação. Talvez um educador não saiba de economia, mas um economista sabe de educação. Todos sabem de educação, menos quem se formou em educação.

 

Ele anda em campanha, está a fazer pela vida, e o que diz é que vai lutar pela mobilidade social.

 

A menina com necessidades educativas especiais foi integrada, como ele prometeu, mas a turma tem 25 crianças e a professora não consegue prestar atenção a todos, mas o que importa é o que diz a legislação e a verdade é que está integrada. Sabe-se lá como, mas está dentro da caixa. A assistente operacional que está com ela dá uma ajuda, mas não tem formação para ajudar a menina, mas está ali ao lado dela o tempo todo e pelo menos é meiguinha.

 

Ele anda em campanha e vai ganhar, é quase certo que ganha.