Crónica

Lisboa, não sejas francesa

França tem vindo a ocupar, nos últimos anos, a segunda posição no ranking dos principais clientes de Portugal. Em vários sectores tradicionais e com peso na nossa economia, a França é mesmo um dos primeiros clientes

Texto de Lúcia Tomás created; ?> •


As relações bilaterais entre França e Portugal vivem um momento de franco desenvolvimento. De França recebemos, actualmente, um incremento verdadeiramente assinalável no que diz respeito ao investimento económico. Importa, neste momento, salientar o peso que assumem factores como os antigos e profundos laços culturais, a partilha do espaço europeu e a assinalável comunidade portuguesa que muito tem contribuído para a evolução desta relação.

 

França tem vindo a ocupar, nos últimos anos, a segunda posição no ranking dos principais clientes de Portugal. Em vários sectores tradicionais e com peso na nossa economia, a França é mesmo um dos primeiros clientes, como é o caso dos vinhos do Porto, da Madeira e Verde, do mobiliário, dos materiais de construção, do papel, das cerâmicas e cortiça ou dos moldes; ocupando também posições muito relevantes noutros produtos dentro da indústria automóvel, do têxtil ou do calçado, entre outros.

 

De salientar que os efeitos da crise global estão a trazer de volta ao nosso país importadores franceses que tinham “desviado” as suas compras de Portugal para a China, mas que regressam agora dado o aumento dos custos de transporte e da mão-de-obra chinesa, bem como pela necessidade de reduzirem as quantidades importadas, aumentar a garantia de qualidade, preferindo a proximidade geográfica, o que beneficia Portugal.

 

Temos vindo a assistir a um crescente interesse pelo investimento em Portugal — casos recentes de aquisições da Robbialac e de diversas unidades vitivinícolas no Douro ou a instalação de uma fábrica ligada ao grupo Louis Vuitton em Ponte de Lima. A Câmara de Comércio Luso-Francesa em Lisboa regista mais de 400 sociedades com capital francês. De acordo com a classificação anual das 500 maiores e melhores empresas em Portugal, publicada pela revista económica Exame, cerca de 20, em termos de volume de negócios, são sociedades, directa ou indirectamente, de capital francês.

 

Em 2015, França foi o terceiro investidor em Portugal, com 346 milhões de euros de investimento líquido. Hoje, segundo os dados da Aicep, França é o segundo maior investidor estrangeiro em Portugal, tendo investido, nos últimos cinco anos, uma média de 6,3 mil milhões por ano. Por seu turno, alguns dos maiores grupos industriais portugueses têm também aumentado consideravelmente a sua presença neste mercado nos últimos anos — caso da compra pela Inapa do segundo distribuidor de papel francês (Mafipa); da construção de uma fábrica de produção de peças plásticas em Valenciennes pela Simoldes; da fábrica Isoroy, filial da Tafisa do grupo Sonae Indústria; da fábrica GBP (Granger Bouguet Pau) pelo grupo Frulact; ou, ainda, dos desenvolvimentos da Logoplaste, Martifer e Visabeira. Também na área do comércio, a França tem vindo a ser alvo, por parte de cadeias de distribuição portuguesas, de abertura de lojas. É o caso do grupo Salsa (com oito lojas em França) e da Parfois (21 lojas em França).

 

Seria interessante, neste ponto, citar Romaine (2009:10) quando, no seu estudo, 52% das pessoas inquiridas — que não falam inglês — revelaram comprar apenas bens ou serviços em sites onde as informações estão presentes nas suas línguas. Este número atinge os 60% nos casos dos compradores franceses e japoneses. Por fim, neste mesmo estudo, 56,2% dos inquiridos afirmam que, no acto de tomada de decisão para a compra de um bem ou serviço, a presença de informação redigida nas suas línguas tem mais importância do que um preço mais baixo. Neste sentido, as empresas de tradução têm todo o interesse em apostar na oferta de serviços linguísticos que correspondem a países onde os comportamentos de compra determinam a necessidade em ler informações nas suas diferentes línguas.