Crónica

O meu dicionário de moda: Yuppie e Zzzzz

Este não é um dicionário técnico, é certo, mas é muito mais divertido. A única conclusão a que chego não vai mais longe do que aquela a que já chegara antes de escrever uma única palavra: somos bichos muito estranhos

Texto de Marta Moura created; ?> •


Yuppie

Deriva de Young Urban Professional, que significa jovem profissional urbano, e serve para denominar os homens entre os 20 e os 40 anos que se situam ali no limbo entre a classe média e a alta, especialmente os ligados ao mercado de capitais. São altamente consumistas e usam as melhores marcas, que gostam de ostentar nos locais da moda que têm por hábito frequentar.

 

Como maluquinha do cinema, associo os yuppies a personagens da sétima arte, e de imediato, sem sequer perder tempo a pensar nisso, vêm-me à cabeça as personagens de Bud Fox, desempenhado pelo não muito certo Charlie Sheen em Wall Street, de Jordan Belfort e Mark Anna em O Lobo de Wall Street (interpretados sem mácula pelo "Leozito" DiCaprio e pelo Matthew McConaughey), e o serial killer mais sexy de todos os tempos, o muito peculiar Patrick Bateman de Psicopata Americano, magistralmente interpretado pelo fofo do Christian Bale.

 

Não consigo dissociar as personagens que referi do consumo de cocaína. Mais do que isso, não consigo dissociar os yuppies em geral do uso dessa droga para fins não recreativos. E se a culpa dessa ideia vem também do cinema, que passa essa imagem, pergunto-me como é que sobrevive quem se dedica aos mercados de capitais — em que o cérebro tem de estar sempre alerta e pronto a agir — sem recorrer a uma ajudita extra.

 

Claro que esta é uma representação algo tosca de quem tem uma existência calma q.b. De facto, embora fuja à regra do socialmente correcto e me dê até um certo prazer em assumi-lo — principalmente porque já estou nos "entas", não sou casada, não tenho filhos, vivo apenas com a gata Maria, gosto de saídas com amigos e de com eles beber uns copos — o máximo da loucura a que me entrego, por estes dias, é beber um shot quando o rei faz anos e, se estou mesmo com a pica toda, render-me à eficaz Vodka-Red Bull e rezar para que alguém acompanhe o meu andamento.

 

Isto para concluir que sei que há pessoas respeitabilíssimas que usam todo o tipo de drogas, no trabalho e/ou fora dele. É com elas, não tenho nada a ver com isso.

 

O que me deixa indignada é quando ouço comentários pouco felizes, especialmente das mães de família, esses poços de virtude, que criticam "A" por ter apanhado uma piela, "B" por fumar uns charros — o "drógado" (sim, com esta entoação) —, e "C" por fazer ambas as coisas. Mas esquecem-se de que todo o santo dia tomam um comprimido qualquer para conseguirem dormir e, na manhã seguinte, outro para conseguirem pôr os pés fora da cama. Serei só eu a achar que há algo de altamente incongruente neste tipo de discurso?

 

Zzzzzzz

Com esta crónica, a 13.ª, concluo "O meu dicionário de moda". Não é um número redondo, mas é um dos meus preferidos, o que dá a este final um saborzinho especial (gosto de ser do contra, o que querem?).

 

Foi em Maio que surgiu esta oportunidade e o tempo, esse sacana que está sempre um passo à frente, passou a correr.

 

Quem me acompanhou durante este período com certeza percebeu que acabei por escrever muito pouco sobre moda. Claro que podia estar aqui a tagarelar sobre termos semi-técnicos — que interessam a quase ninguém — ou a discorrer sobre a vida e obra de grandes nomes, o que também acaba por ter interesse relativo face à quantidade de informação disponível à distância de um clique ou de um toque. Assim, e não obstante o facto de adorar moda, dei por mim a escrever sobre aquilo que mais me apaixona: as pessoas. Os seus comportamentos, receios, palermices e idiossincrasias. Os preconceitos, dúvidas e encantos.

 

Depois de 13 crónicas a escrever, de forma mais ou menos velada, sobre o mesmo, a única conclusão a que chego não vai mais longe do que aquela a que já chegara antes de escrever uma única palavra: somos bichos muito estranhos.

 

Não pensem que este foi um desafio fácil. Só quem nunca escreveu tem aquela ideia romântica de que quem o faz se senta em frente ao computador, fecha os olhos, inspira, e as palavras tomam conta dos dedos e saem, fluídas, perfeitas, suaves. Nada disso.

 

Algumas das crónicas que aqui escrevi já há muito estavam cá dentro, e foi sem grandes dificuldades que as materializei em algo legível. Mas outras (ah, as outras) deram luta, as cabras, e não fosse o facto de me ter comprometido a entregar um texto, semana a semana, tinham ido parar sem grandes hesitações ao caixote do lixo virtual.

 

Bem ou mal ou mais ou menos, este dicionário chega agora ao fim. Muito obrigada a quem acompanhou (e, espero, se divertiu com) os meus devaneios parvos.

 

Até já.