Crónica

A “Guerra dos Mundos” do século XXI

Todos os dias é fácil tropeçar em “notícias” e “alertas” que chocam o público. Resta descobrir o que é verdade e o que só serve para enganar. O que é deontológico do que é “palha”

Texto de Nadine Mussá created; ?> •


Quem já não tropeçou numa notícia bizarra nas redes sociais? Não me refiro às que um famoso locutor recolhe todos os dias para uma rubrica radiofónica dedicada às coisas estranhas que acontecem pelo mundo, porque esse profissional sabe ver as suas fontes e, perdoem-me a parcialidade, nutro carinho pela sua rubrica. Também não falo de grandes fontes de notícias falsas que são conhecidas por tal, aquelas feitas por entidades que a maioria do público sabe que propagam “notícias” cobertas de sátira e que servem para divertir ou alertar para situações caricatas que não correspondem à verdade. O objecto deste artigo é outro.

 

Quem usa as redes sociais decerto já se deparou com supostas notícias e artigos falaciosos que, por momentos ou mais do que isso, induzem as pessoas em erro sem que haja alguém que pense duas ou três vezes ou verifique as fontes e acabe por partilhar esses conteúdos, porque é material feito para incitar o público a divulgar histórias bizarras, atractivas e sensacionalistas para contar aos amigos. Este tipo de partilha de informação falsa poderá resultar, ironicamente, em falta de informação, desta feita, séria e relevante.

 

Vivemos numa altura em que muitas pessoas passam bastante tempo nas redes sociais e estas serão bastante úteis em várias ocasiões. Pedidos de ajuda, partilhas de petições, notícias de fontes credíveis estão fora desta análise. Todos os dias é fácil tropeçar em “notícias” e “alertas” que chocam o público, o que resulta num número de partilhas impossível de determinar a olho nu. Resta descobrir o que é verdade e o que só serve para enganar. O que é deontológico do que é, peço perdão pela expressão, “palha”.

 

Alerto então o público, nesta fonte credível de informação jornalística, para a existência de fontes falsas e sensacionalistas de supostos sites noticiosos, que são um tsunami de informação chocante com títulos cobertos do que se chama clickbait — um título chamativo pelas suas componentes escandalosas, que chega para que os utilizadores das redes sociais menos informados partilhem massivamente, muitas vezes sem sequer ler mais do que o título da autoproclamada notícia.

 

A chave para fugir ao sensacionalismo forçado de títulos de notícias falaciosas está em pequenas técnicas: verificar se a notícia vem de um site credível, de um jornal real. Muitas vezes não é preciso clicar na hiperligação – aliás, recomendo vivamente que não o façam, hoje em dia as maleitas da tecnologia pululam –, basta ver a origem da notícia directamente na rede social, porque muitas vezes esta anuncia o site que produziu a notícia.

 

Por vezes, estes títulos das supostas “notícias” são tão bizarros que não se pode deixar de desconfiar; ainda assim, há sempre alguém que publica. Milhares de pessoas partilham, achando que estão a prestar serviço público ao alertar para ondas de calor absurdas de graus ridículos ou aparições de animais exóticos que jamais surgiriam no nosso meio ecológico. Por vezes basta clicar para se perceber que o site se dedica exclusivamente a este tipo de sensacionalismo, com imensos artigos absurdos que deveriam servir como mecanismo de diversão, mas acabam por servir para alimentar os medos e para assustar quem toma as “notícias” por reais.

 

Não aponto o dedo a meios de comunicação nacionais e internacionais que espalham boa disposição com as suas sátiras, mas as notícias falsas desses meios causam pânico desnecessário, partilhas infinitas e fazem com que imensas pessoas realmente acreditem que se trata de informação factual, pesquisada e de fontes sérias.

 

As notícias falsas, com o seu toque de humor, são deveras divertidas para quem as encontra neste mundo online, nas redes sociais, mas não se deve ignorar as mentiras, as partidas, os alertas falsos, os artigos vazios. Basta pesquisar por outras fontes e percebe-se que se trata de algo que é só anunciado por aquele site em específico e aquele site é uma brincadeira sedenta de cliques para que os administradores lucrem com as visitas e publicidade. Existem até mecanismos para que o comum cidadão construa, passo a passo, a sua notícia falsa com imagens apelativas que enganam ao parecer virem de sites de renome!

 

Alerto também para os mitos urbanos que ainda circulam e assustam as pessoas, seja no mundo virtual ou de boca-em-boca. São várias as teorias da conspiração que surgem de ninguém sabe onde e são partilhadas em murais como se fossem alertas credíveis, quando muitas vezes foi alguém aborrecido que decidiu inventar uma história – muitas vezes baseada em xenofobia, racismo e preconceitos no geral. Conteúdos que alimentam o medo do desconhecido nas pessoas, que já de si carregam preconcepções sem fundamento ou generalizam etnias, nacionalidades, orientações afectivas, orientações relacionais, entre outras. Essas desconfianças são entendidas como factos relevantes quanto a pessoas que se teima em não conhecer, a pessoas que mudariam certamente as suas opiniões. Afinal, o medo do desconhecido alimenta o medo geral.

 

Aqui fica todo o meu respeito pelo profissionalismo de tantas pessoas de índole ética que trabalham no meio jornalístico e média em geral, que de si também são comparadas a colegas na forma de apresentação das diferenças nas notícias publicadas por diferentes órgãos de comunicação. Acredito que estas comparações são necessárias para abrir a mente do comum cidadão, mas também acredito que os nossos verdadeiros jornalistas trabalham com afinco e honestidade. Ao público geral, resta a necessidade de fazer a triagem do que é real ou não, separar o trigo do joio e evitar alarmismos provenientes de fontes falsas.

 

Custa a crer que ainda há quem caia nas armadilhas de clickbait e de artigos absurdos hoje em dia. Sugiro que se crie, através de uma fonte credível como este jornal para o qual estou a escrever e através de páginas oficiais de organismos públicos e verdadeiros, campanhas de alerta para estas situações. Corremos o risco de um dia destes alguém acreditar na versão actual da Guerra dos Mundos de Orson Welles, aquela que foi lida na rádio como se tratasse de algo real, desta feita no formato século XXI. E, de tanto a internet gritar “lobo”, nós, a população do conto, descartaremos como boato e não levaremos a sério problemas reais e os “Pedros” ficarão sem ajuda porque estaremos ocupados a acreditar que o mundo acaba – pela enésima vez – daí a meses.