Crónica

A Judite é que sabe

E se fosse o teu filho, Judite? E se fosse outro, ou outra, a fazer a reportagem em directo da piscina enquanto o INEM retira o corpo de quem também não tem culpa da distopia que insistes em criar?

Texto de João André Costa created; ?> •


A Judite é que sabe, porque a Judite é bem e a Judite gosta de aparecer, sei lá, porque ela é capas de revista e livros, ela é eventos da moda e passerelles, porque a Judite é da linha e nós não. Nós somos o resto, os outros, os queimados no chão, estendidos no chão, mortos no chão, não pelo fogo, mas pela Judite, em nome das audiências, em nome da fama, em nome do horror (volta Albarran, estás perdoado) e, quem sabe, mais um prémio de jornalismo ao final do ano, ou não estivesse a Judite a piscar-nos o olho por entre as chamas.

 

E se fosse o teu filho, Judite? E se fosse outro, ou outra, a fazer a reportagem em directo da piscina enquanto o INEM retira o corpo de quem também não tem culpa da distopia que insistes em criar?

 

Mas não, porque a Judite é que sabe, e portanto aí está ela, meus amigos, fulgurosa, vaporosa com um top da Gucci cujo decote de fazer inveja a muitas cinquentonas engata qualquer moçoilo fogoso numa daquelas noites do bairro, sem esquecer as calças Karen Millen, mas que bem, e por isso não percebo aqueles ténis brancos de marca branca, talvez porque assim a Judite é do povo, faz parte do povo, é do povo, é uma de nós, como eu ou tu, principalmente quando acordamos de manhã com o personal trainer ao lado na cama ainda em tronco nu mais o batalhão de maquilhagem lá fora à nossa espera.

 

Mas não, porque a Judite é que sabe, fez uma reportagem em directo às custas da morte de uma mulher e a Judite tem as costas quentes, não do fogo, mas da TVI, a qual já veio dizer em alto e bom som como “não recebe lições de ninguém”. Para bom entendedor...

 

A Judite está em directo na televisão. Atrás de si o corpo de uma mulher, estendida no chão, morta no chão há já várias horas. Não lhe vemos o rosto, apenas uns fios de cabelo loiro por debaixo da coberta. E não estivesse a Judite de costas para o corpo e em directo para as câmeras e, bem o sei, não deixaria de reconhecer aquelas calças e os ténis brancos que o vento acabou de descobrir.