Emigração

O que é que a Suécia tem?

São profissionais qualificados em áreas como engenharia, arquitectura e saúde e procuram na Suécia uma oportunidade de carreira. Há mais de 4000 portugueses registados neste país nórdico e em 2016 o número de entradas atingiu um valor recorde

Texto de Ana Maria Henriques created; ?> •


Em 2010, ano em que aterrou em Estocolmo pela primeira vez, era “raríssimo ouvir falar português”. Agora, sete anos depois do primeiro contacto com a capital sueca, a bordo do programa Erasmus, Filipa Reis já considera “mais natural” cruzar-se com alguém a falar português no metro ou nas ruas. “Sinto que a comunidade portuguesa é maior”, diz, e os dados estatísticos dão razão à jovem arquitecta. De acordo com números recolhidos pelo Observatório da Emigração, registou-se, em 2016, um novo máximo de entrada de portugueses na Suécia: 380. A tendência de emigração para este país está a crescer, de forma quase contínua, desde 2000. Até ao ano passado, a Embaixada de Portugal em Estocolmo contabilizou 4196 inscritos — e o número pode, até, ser superior, já que o registo consular não é obrigatório. O que tem o país do Spotify e do Ikea para atrair cada vez mais profissionais qualificados portugueses?

 

“A primeira coisa que me surpreendeu foi o facto de estar à procura de um estágio e me terem contratado imediatamente como arquitecta”, recorda a portuguesa de 28 anos que se manteve nesse mesmo escritório durante mais de quatro anos. Mudou de emprego há poucas semanas, mas sempre sentiu que havia interesse em apoiar a sua evolução profissional. Para quem aguentar um Inverno muito frio e muito escuro, há oportunidades neste país escandinavo com quase dez milhões de habitantes — e os jovens portugueses estão a aproveitar. Durante 2016, “394 cidadãos portugueses efectuaram as suas inscrições consulares (voluntárias) na Suécia, das quais 251 em Estocolmo — número mais elevado registado desde 1991 — e 143 em Gotemburgo”, informa, por e-mail, a Secção Consular da Embaixada de Portugal em Estocolmo.

 

“A grande maioria dos portugueses que, mais recentemente, escolheram a Suécia para viver são profissionais qualificados, estando as principais profissões desempenhadas relacionadas com as áreas das tecnologias de informação e comunicação (TIC), saúde, engenharias, arquitectura e investigação, não sendo também de desprezar o número de estudantes portugueses no país, quer em programas de pós-graduação quer em programas de mobilidade”, caracteriza a Secção Consular.

 

Filipa Reis faz parte deste retrato traçado pela embaixada, assim como Nuno Costa, João Soares e Fábio Amaral. São jovens e qualificados, atraídos por uma “taxa de desemprego relativamente baixa” (7% em 2016, segundo o Eurostat) e pela “carência de profissionais em algumas áreas”. “O bom momento económico que o país atravessa pode ajudar em parte a explicar o aumento do interesse na Suécia como país de destino”, continua a embaixada liderada por José Júlio Pereira Gomes. O embaixador foi recentemente nomeado para secretário-geral do Sistema de Informações da República (SIRP) pelo primeiro-ministro português, António Costa, num processo que desencadeou polémica e terminou com a renúncia de Pereira Gomes ao novo cargo.

 

Menos hierarquia, mais proximidade

“No escritório sento-me ao lado do CEO e se usasse a caneca preferida dele provavelmente não acontecia nada.” É assim que Nuno Costa, 27 anos, descreve o ambiente laboral de Estocolmo, cidade onde vive há apenas quatro meses. Depois de ter passado pelos Estados Unidos, França, Índia, Tailândia, China e Japão, este maiato trabalha como consultor de recursos humanos numa empresa sueca, com “bastante autonomia e liberdade”, no âmbito do programa INOV Contacto. A ausência de uma hierarquia vincada nas empresas é uma das características que os portugueses apontam. “Existe mais proximidade”, refere João Soares, 30, a trabalhar numa equipa de 700 pessoas do gigante tecnológico sueco Ericsson. “Em Portugal havia outro formalismo.”

 

Uma “coisa muito sueca”, diz João, é a preocupação com o equilíbrio entre as vidas profissional e pessoal. “Além de teres de cumprir os objectivos que te são postos, como em qualquer trabalho, noto muita preocupação para que te desenvolvas.” A economia, reforça Nuno, “está sempre a girar e com alguma criatividade é fácil conseguir um salário”. “Basta ser um pouquinho pró-activo”, acredita. Fábio Amaral, cabeleireiro lisboeta de 29 anos, não abdica da “qualidade de vida” que tem em Gotemburgo, para onde se mudou por amor: “Quando vivia em Lisboa havia sempre coisas a acontecer mas pouco dinheiro para as fazer”, resume. “Aqui tenho trabalho e ganho o suficiente para ir a Portugal de dois em dois meses ou viajar para outros destinos, coisa que nunca tive.”

 

Filipa e Fábio falam sueco, João está a aprender numa escola pública com currículo pensado para estrangeiros e Nuno não sabe mais do que uma dúzia de palavras no idioma. “É um luxo todos falarem muito bem inglês, não é preciso saber sueco para sobreviver”, esclarece João. O “luxo” pode ser também um problema na hora de aprender uma nova língua; durante muito tempo, sempre que Filipa falava em sueco, os suecos respondiam em inglês — “eles gostam muito de falar inglês”.

 

Suecos "não sabem lidar com o confronto"

A imigração e o acolhimento de refugiados estão na ordem do dia. Desde 2009, a Suécia tem recebido, em média, 100 mil refugiados por ano; em 2015, esse valor chegou aos 170 mil. “Os suecos tentam ser relativamente cuidadosos com o que dizem. São muito pró-refugiados, mas depois há uma representação parlamentar de extrema-direita [Democratas Suecos]”, comenta João. “E nós, em Portugal, não temos isso.” Nos últimos anos, Filipa assistiu a manifestações contra e a favor da imigração e as opiniões “extremaram-se”: “Sempre que há uma manifestação contra a imigração, há outra a favor no mesmo dia ou no dia a seguir. E normalmente bastante maior, o que de certa forma dá algum conforto”.

 

Filipa, que conheceu o namorado brasileiro em Estocolmo, sente-se “mais confortável” quando pensa no futuro na Suécia. Como país nórdico, está orientado para as famílias. “Os suecos são muito mais tranquilos do que os portugueses”, compara. “É o sítio ideal para fazer carreira e construir família”, defende Fábio. Frustrante, desabafa a arquitecta, é o facto “de não saberem lidar com o confronto e, por isso, terem uma dificuldade grande em dar um feedback directo”. São “muito subtis e, na sua maioria, introvertidos”. “São simpáticos, mas não sentes aquela recepção calorosa”, completa João.

 

Seja Verão ou Inverno, a bicicleta é um meio de transporte muito comum e seguro em Estocolmo, “claramente o aspecto mais positivo” para Nuno. O consultor de recursos humanos, com formação em Física, achava que se tinha mudado para um país com um grande foco na sustentabilidade e com práticas ambientais exemplares. Agora, poucos meses depois de ter chegado, tem uma opinião crítica: “O nível de consumismo aqui é bastante alto comparado com outros sítios onde já estive e, no geral, as pessoas estão habituadas a um nível de vida e conforto que exige bastantes recursos”. Em Estocolmo não falta oferta culinária mas, curiosamente, não há um restaurante português. “É mais uma oportunidade de negócio”, insinua João.

 

Artigo actualizado às 22h12 de 14 de Junho de 2017.