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Laura gosta de ateliers de artistas e mostra-os no Duplo Espaço

Há um ano que Laura Sequeira Falé alimenta o blogue Duplo Espaço, em que apresenta ateliers de artistas plásticos portugueses. A partir de agora, os textos também serão publicados no P3

Texto de Amanda Ribeiro created; ?> •


Tudo começou em 2015 com a exposição de Lourdes Castro no Museu Calouste Gulbenkian. Não, até é capaz de ter sido antes, durante os inúmeros encontros com obras e artistas em galerias. Ou então foi mesmo naquele momento em que Laura Sequeira Falé se apaixonou por uma artista plástica e a arte lhe entrou de rompante, e sem pedir autorização, pela vida adentro.  

 

Há um ano que a jovem açoriana de 24 anos alimenta o blogue Duplo Espaço, em que apresenta ateliers de artistas plásticos contemporâneos portugueses. Todos os meses visita um ou dois locais de trabalho, fotografa-os, conversa com os autores; depois, escreve sobre o que viu, acompanhando os relatos com imagens e, por vezes, vídeos das entrevistas, tudo feito com iPhone. “Eu queria que as pessoas com um clique pudessem entrar no atelier do artista”, conta Laura, “que lessem o blogue enquanto esperam pelo autocarro”. Nada de curadoria, crítica de arte, textos “profundos” — antes uma “viagem descontraída” assente na sua percepção. E já lá vão mais de 20 espaços apresentados, entre os quais os de Ana Vidigal, Pedro Zamith, Sofia Areal e Malia Poppe.

 

Natural de São Miguel, Laura chegou a Lisboa aos 18 anos para estudar Filosofia. Depois da licenciatura, seguiu para o mestrado em Coimbra em Filosofia Política e, entretanto, inscreveu-se no doutoramento na mesma área. “Um percurso previsível e normal”, descreve, entre risos. Até que, há três anos, começou a namorar com a artista plástica Ana Tecedeiro e viu-se na singular posição de “observadora muito, muito privilegiada” do mundo da arte. Não só passava muito tempo no seu atelier, um “sítio de experiências” onde Ana “era livre”, como desatou a ir a muitas exposições, onde havia sempre “alguma coisa que faltava”: “Via as obras, lia a folha de sala, trocava duas ou três palavras com o artista e ia embora. Mas nunca ficava a conhecer realmente o artista, todo o trabalho por trás.” O “momento eureka” deu-se na exposição de Livros de Artista de Lourdes Castro, na Gulbenkian. “Pensei que era mesmo giro visitar o atelier da Lourdes Castro. Daí até criar um blogue foi um instantinho.” Para “perceber quem são estas pessoas”.

 

Visitar ateliers como quem estuda Filosofia

Entrar no atelier da Lourdes Castro continua a ser “um grande sonho” (“Quero muito escrever-lhe uma carta, mas nem sei o que hei-de dizer. Como é que uma pessoa se dirige à Lourdes Castro?”), mas essa motivação inicial depressa deu lugar a uma “obsessão”. “Os ateliers são muito peculiares e são todos muito diferentes — não há uma espinha dorsal.” Visitá-los é, diz Laura, um pouco como mergulhar na filosofia ou filósofos. “Tenho sempre uma sensação nova, uma sensação de espanto que é a mesma que tenho quando estou a estudar Filosofia e mudo de livro ou de autor.” É como se, de repente, pudesse ter acesso à mente de uma pessoa, ao processo de pensamento, mas, ao contrário da Filosofia, “de uma forma visual”. De tal maneira que o doutoramento, sabe-o agora, há-de passar invariavelmente por aqui, pelos ateliers, pela noção de “espaço de trabalho que é um espelho do espaço interior”: “Aquela mente explodiu ali. E eu posso entrar e, mais do que isso, as pessoas querem que eu entre.”

 

Nenhum artista lhe recusou a visita. Têm vontade de falar sobre o seu trabalho, percebeu Laura, ela própria uma faladora nata. A conversa, portanto, desenrola-se rapidamente — e, às vezes, durante muito tempo, como no atelier de Tomás Colaço e Sofia Aguiar onde permaneceu durante oito horas. “Combinámos para as 10h, almoçámos, continuou a prolongar-se... até que a dada altura perguntaram-me se queria lá dormir.” Lá se foi embora. Há uns artistas "mais difíceis", que conversam menos ou não estão tão à vontade; já teve um ou outro atelier que "não correu tão bem" e, nesses casos, opta por não escrever nada. "Não quero menosprezar a pessoa... eu sou sempre tão bem recebida, sabes?" O mais difícil até agora? O da própria namorada: "Escrever sobre alguém que me é tão íntimo é difícil."

 

Escolhe os ateliers a partir do seu gosto pessoal e tenta visitá-los na altura de alguma exposição. Depois de um primeiro contacto pelo Facebook, agenda o encontro, geralmente na área da Grande Lisboa, uma limitação geográfica a que não consegue fugir. Afinal, isto sai-lhe do próprio bolso, não conta com qualquer apoio. Há cerca de um mês lançou um novo projecto dentro do Duplo Espaço, o site Pequenos Formatos onde vende obras de arte de dimensões reduzidas a preços mais baixos. “Os ateliers dos artistas têm muito trabalho por trás que não está nas galerias”, explica Laura. Porque são peças pequenas, que não têm lugar nas exposições. Neste site é possível adquiri-las, com preços até aos 400 euros, lucro que reverte grande parte para o artista e uma pequena parte para Laura. “Se a pessoa não tem muito dinheiro ou muito espaço em casa, pode ter uma pequena obra de arte sem grandes custos.” É uma forma democratizar a arte, um meio “super elitista” por excelência. Tal como o próprio blogue, afinal de contas. “As pessoas têm uma ideia muito romântica do que é um atelier... pensam que é um espaço onde a pessoa encontra a inspiração. Não é nada disso, às vezes é um escritório com uma secretária. O verdadeiro espaço do atelier é na cabeça dos artistas. O blogue só mostra o que é visível — e isso é muito interessante de se ver.”