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Nelson Nunes

Nelson é escritor disfarçado de jornalista armado em investigador

Excerto

"Vamos lá a ver se a gente se entende. Patronato: não somos crianças a brincar de faz-de-conta ao mundo dos adultos. Somos adultos a querer deixar de ser garotos. Queremos sair de baixo das saias da mamã. Queremos ser responsáveis e tornar-nos gente independente. Queremos poder constituir família (mesmo que o agregado familiar tenha, além de nós, um gato ou um canário)."

Reuters

Crónica

Trabalhar de borla?!

Por muito que seja difícil pagar salários, não tenham a cara de pau de pedir trabalho de borla. O século XIX já lá vai

Texto de Nelson Nunes • 20/11/2013 - 17:21

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Bem sei que o fenómeno não é novo, mas coincidências da vida ou não, tenho sido assaltado por cada vez mais anúncios de estágios e supostos postos de trabalho para a área da comunicação – e não só. Até aqui tudo excelente, não fosse a particularidade extraordinária de se pedirem funcionários não remunerados.

 

Um desses anúncios – confesso que não lhe comprovei a veracidade – tem a graça de uma idiota anedota. Consta que um restaurante “oferece” – qual favor dotado de enorme benevolência – o espaço a um músico que queira animar as noites das sextas e sábados, tendo assim a “oportunidade” de mostrar a sua música e vender os seus discos. Uma resposta ao anúncio, seja ela fictícia ou real, tem a sua graça. Consta que o músico em questão terá “oferecido” a sua cozinha para que o restaurante ali fosse usufruir da “oportunidade” de cozinhar e assim poder mostrar os seus pratos ao artista em questão.

 

Vamos lá a ver se a gente se entende. Patronato: não somos crianças a brincar de faz-de-conta ao mundo dos adultos. Somos adultos a querer deixar de ser garotos. Queremos sair de baixo das saias da mamã. Queremos ser responsáveis e tornar-nos gente independente. Queremos poder constituir família (mesmo que o agregado familiar tenha, além de nós, um gato ou um canário).

 

Antes que as caixas de comentários se encham com acusações de ingenuidade ou desconhecimento da realidade, atrevo-me a dizer que não me escapam as dificuldades das empresas em pagar a mais funcionários para dar conta do trabalho que se tem. E também sei que nós, os afortunados empregados, andamos a trabalhar o triplo e a receber metade do que acontecia de há alguns anos a esta parte.

 

Por muito que seja difícil pagar salários, não tenham a cara de pau de pedir trabalho de borla. O século XIX já lá vai. E, se for possível, façam um pequenito esforço e olhem para vós próprios, quando tinham a nossa idade. Onde andavas tu, patronato, quando tinhas 20, 25, 30, 35 anos? Se quiseres eu respondo: estavas de vida feita. Pois olha que a nós não nos deixam crescer. Querem que sejamos rapaziada dos biscates para sempre. A posição hierárquica faz-vos olhar para nós como moços de recados a quem podem dar um chupa e fica tudo feliz e contente. Estão redondamente enganados.

 

Como já disse antes, é triste que a faixa etária mais bem preparada seja a menos bem empregada. Talvez o patronato tenha medo da competência e da qualidade. Talvez esteja ainda perdido nos anos cinquenta do século passado. Mas uma coisa é certa: têm ao vosso dispor uma carrada de jovens cheios de talento e têm a indecência de achar que esta rapaziada lhes pode andar a fazer favores a torto e a direito, como se não tivesse nada mais importante ou útil a fazer com o seu próprio tempo. Empresários, patrões e todo o tipo de contratantes: querem trabalho e do bom? Paguem-no.

Eu acho que
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