Orienta-te Redes Sociais

DR

Tecnologia

Neil Harbisson é o primeiro humano oficialmente reconhecido como "cyborg"

Sim, leste bem. Este rapaz de 29 anos, nascido na Irlanda do Norte e criado na Catalunha, tornou-se no primeiro homem reconhecido por um país como organismo cibernético

Texto de Pedro Bártolo • 27/03/2012 - 11:15

Distribuir

Imprimir

//

A A

Neil Harbisson viveu uma “infância confusa”. A sua incapacidade de distinguir as cores suscitou vários diagnósticos, desde o daltonismo a dificuldades de aprendizagem, até que, aos 11 anos, se percebeu que Neil padecia de acromatopsia, doença que lhe permite ver o mundo apenas a preto e branco.

 

Em 2003, altura em que frequentava o Dartington College of Arts, decidiu assistir a uma palestra sobre cibernética que transformou a sua vida. Falava-se de ampliar os sentidos, “perceber por que é que a cor influencia tanto as pessoas” - o que não podia ir mais ao encontro do desejo de Neil Harbisson, de 29 anos.

 

Do diálogo com o palestrante, Adam Montandon, surgiu a ideia de criar o "eyeborg" – fusão das palavras "eye" (olho) e "cyborg" (organismo cibernético) –, dispositivo electrónico que abriu caminho à metamorfose cromática na vida de Neil Harbisson. O aparelho, agora na versão simplificada, “tem um sensor, atrás da cabeça, que recebe as frequências de luz e transforma-as em frequências sonoras”, explica ao P3. A captação da cor fica a cargo de uma câmara, situada acima da testa e, depois, possibilita que Neil recorra aos "ossos – do crânio – para ouvir as cores”.

 

Adaptação à vida de "cyborg"

A adaptação ao "eyeborg" não foi fácil. “Demorei cinco semanas a habituar-me aos sons das cores”, mas, passado algum tempo, “a informação tornou-se percepção e, mais tarde, em sensação”, conta. Assim, acabaram episódios insólitos do quotidiano, como “precisar de testar ambas as torneiras para ver qual corresponde à água quente e à fria”. Sobraram outros, nomeadamente quando ouve música electrónica e  as suas frequências sonoras se misturam com as emitidas pelas cores, daí a vontade de “pôr o 'eyeborg' debaixo do couro cabeludo para diferenciar melhor os sons visuais dos sons auditivos.”

 

O mais mediático de todos os acontecimentos ocorreu em 2004, quando o Reino Unido reconheceu a prótese como parte do seu corpo. À data, Neil Harbisson viu negada a renovação do passaporte britânico por se apresentar na fotografia com equipamento electrónico. Entretanto, gerou-se um movimento de apoio, com os amigos, médicos e responsáveis da faculdade a reforçarem que Neil necessitava do "eyeborg" no dia-a-dia.

 

“Justifiquei que não era equipamento electrónico e que se tinha tornado parte do meu corpo”, uma compensação da sua condição visual. Sim, porque Neil não se lhe chama deficiência ou doença, mas antes sonocromatismo ou sonocromatopsia. “Deficiência é o que as pessoas sentem, não o que têm. Algumas pessoas são esquerdinas e sentem-se incapazes porque o mundo é feito para os destros”, justifica. 

 

Para Neil, a associação cultural das cores é bem diferente. “O vermelho é a cor mais pacífica e indiferente, porque tem a frequência mais baixa. A cor mais violenta é o violeta, por ter a frequência sonora mais alta”, conta.

 

Além de possibilitar a percepção da cor – e de uma forma mais apurada, pois Neil recebe as três propriedades separadamente: o tom através de uma nota, a luz pelos olhos e a saturação pelo volume dos sons -, o "eyeborg" alargou o seu potencial de expressão artística.

 

O dispositivo deu a Neil a hipótese de fundir as suas grandes paixões: música e artes plásticas. Dedica-se agora à criação de retratos sonoros, composições em que converte as cores da face em música, e Color Scores, onde transforma as 100 primeiras notas de grandes obras musicais em pinturas. Por isso, “agora não há diferença entre artes e música”.

Eu acho que

Pub

Videoclipe.pt

Audio

Laura quer que as pessoas entrem no atelier dos artistas "com um clique"

Neurociências

Joana Barroso

Investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto destacou-se com um projecto sobre o papel que o cérebro desempenha na dor crónica e venceu a...

A casa de Ansião é uma mistura de...

Arquitectura // A casa vive para dentro, como um gruta. Ali, no pátio central, tudo é intimista...