Depoimento

Paolo Gorgoni: “O VIH tornou-me numa pessoa muito melhor”

Paolo Gorgoni descobriu que era seropositivo aos 23 anos. Um depoimento na primeira pessoa

Texto de Amanda Ribeiro • 30/11/2017 - 23:36

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"Em 2010, dez dias antes de partir para o Brasil com uma bolsa de estudo para um intercâmbio internacional, tive o meu diagnóstico de VIH. Tive uma conversão com sintomas muito agressivos, o que foi bom porque identifiquei imediatamente. Fazia testes regularmente. Tinha uma vida sexual irregular e, mesmo que tivesse muito cuidado, sabia que podia acontecer. Na dúvida, preferia fazer um teste a mais do que a menos. Tinha feito um dois meses antes do meu diagnóstico, estava relativamente descansado. A minha infecção era tão recente que não bastou fazer o teste normal, o Elisa. Tiveram de fazer o teste da carga viral e foi lá que foi identificado. 

 

Foi um pouco estranho receber a notícia. A primeira coisa que eu pensei foi… porra, tenho apenas 23 anos. E o facto de eu ter reflectido imediatamente na idade revela que quando uma pessoa que se identifica como um homem que tem sexo com homens de certa forma já sabe que isto é um risco presente porque a história da nossa comunidade assim nos ensinou. De um dia para o outro percebi 'ok, não sou infinito, não sou imortal e a minha saúde já não é perfeita'.

 

Mas a minha primeira preocupação não foi a minha saúde, foi a minha rede social. O que vai ser de mim, da minha solidão, como é que vou conseguir continuar a ter relações? Foi um medo completamente justificável porque passei por imensa discriminação dentro da comunidade LGBT [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero]. Eu sabia que não ia morrer, que ia viver provavelmente o mesmo que os outros e bem de saúde. Sabia que as terapêuticas existiam, muito mais leves do que tinham sido nos anos 90. Não fiquei muito preocupado com a ideia da morte, ou da doença em si, porque sabia que nunca ia chegar à sida. Mas ao mesmo tempo pensei: se há um mês tivesse falado com um tipo e ele me tivesse dito que tinha VIH eu não teria tido algum receio de me envolver com ele? Sim, teria. Isso quer dizer que a mentalidade das pessoas como eu é essa e agora vou ter de enfrentar isto tudo do outro lado.

 

Num primeiro momento, não quis contar a muita gente, mas ao longo do tempo comecei a achar que isso era completamente necessário. Comecei a colaborar com associações, a escrever sobre VIH em jornais, a expor-me. Chegou a uma altura em que pensei: tenho as ferramentas todas para ser visível e para ter a voz que muitas pessoas não têm. Tenho uma família que sabe e apoia, a orientação e a condição, tenho uma casa, tenho comida, estou bem… se não for eu a fazer isto, quem vai fazer? Tornou-se uma questão de responsabilidade social. Dentro do azar eu tinha muita sorte e era preciso usar este acontecimento dramático da minha vida para que deixasse de acontecer a todos. O VIH tornou-me numa pessoa muito melhor, tornou-me numa pessoa que pensa muito mais antes de fazer um julgamento e tornou-me numa pessoa muito mais aberta às histórias dos outros.

 

Geralmente, usava preservativo, mas não era 100% dos casos, senão… não tinha acontecido. Tinha sido uma relação ocasional. O discurso da protecção é uma coisa muito psicológica. Podes saber que a coisa mais fácil e segura é ter um certo comportamento, como usar preservativo e fazer com que o teu parceiro use, mas isso nem sempre resulta. E 30 anos de epidemia ensinaram-nos isso. Basear uma resposta a uma epidemia num instrumento não chega. Há mais coisas, como a profilaxia pré-exposição, a profilaxia pós-exposição (que é uma medida de emergência, não pode ser abusada, mas existe e tem de ser conhecida), o saber que um certo tipo de relação sexual expõe mais ao risco do que outra.

Também tem de haver mais informação relativamente ao estatuto serológico. Se eu não tivesse medo da rejeição, não teria medo de ter um teste positivo. Sabermos que uma pessoa que está a ser tratada, que tenha a carga viral indetectável, não passa a infecção. É a maior protecção de sempre. Parece um paradoxo, mas não é. Ninguém acredita. O pensamento mais comum é: será que me estão a dizer isto para me levar para a cama?

 

Ainda há muito julgamentos por parte dos profissionais de saúde. Imagino que melhore com o tempo mas as pessoas com VIH têm de dizer: tenho direito à saúde, tenho direito à visibilidade, tenho direito a emprego. Levantando a voz as coisas acontecem e as mentalidades também mudam. Por isso é que sempre achei importante dar a cara. Eu posso esconder-me para não ter problemas no meu emprego, mas também posso dar a cara e desafiar o mundo a excluir-me. E até agora tem corrido bem.

 

Não tenho nenhuma relação agora. É complicado. Uma relação já é difícil, ainda mais entre dois homens numa sociedade que nunca construiu um imaginário afectivo para duas pessoas do mesmo sexo. Acrescentar uma dificuldade como esta… 'não quero saber', dizem-te. Dizes e és rejeitado. Cada rejeição é dor. Imagina o que é seres excluído por teres uma coisa que não controlas.

 

Portugal está muito à frente em termos de legislação, mas é muito machista, sexista, retrógado. Não estava à espera que a política reflectisse tão pouco a mentalidade comum. Isto cria-me algumas dificuldades – já não voltas ao armário depois de teres saído. Cria-se muita fricção, ainda mais dentro da comunidade LGBT do que fora. As pessoas de fora não ficam muito chocadas com o teu estatuto serológico porque de facto não as abrange, mas as pessoas da tua comunidade… ah, o olhar é diferente. Eu digo sempre que sou seropositivo. Não sou obrigado, aliás, acho que as pessoas não devem ser obrigadas. Eu posso ter um problema em revelar o meu estatuto serológico por medo que passes essa informação a alguém e agora vou-te passar uma informação sensível que pode danificar a minha imagem, relações pessoais, trabalho… vou-te dar este poder quando eu não tenho nenhum? A pessoa tem é de ter um comportamento o mais responsável possível.

 

Deveriam ser criadas políticas direccionadas a grupos específicos. Campanhas com a linguagem certa. Em vez de ser 'usa preservativo, a sida mata' algo mais real. 'Foste à sauna noutro dia? Fizeste um teste?'. Ou 'Ontem estavas bêbado, não te lembras do que fizeste? Se calhar é melhor pensares numa profilaxia pós-exposição porque estás num grupo de maior risco.” Sermos práticos, não vale a pena estar a demonizar os comportamentos. E devíamos falar muito mais, mostrar que somos “normais”, que temos vidas parecidas. Não é preciso ter medo porque o medo é que te faz ter uma infecção com muito mais facilidade.

 

Estas histórias do chemsex, do surto da Hepatite A… é a solidão. A procura pelo prazer imediato. No meio de grandes cidades o humano está a desaparecer, é tudo uma rede social. E nós somos uma geração que em termos laborais não nos projectamos no futuro. Eu em Portugal até podia adoptar uma criança, mas com o ordenado que eu tenho? Nunca. Que vai ser do meu futuro? Se eu com 30 anos, quatro línguas, dez anos de trabalho, experiências musicais e artísticas, estudos e viagens, activismo, não consigo ter um ordenado para manter um filho… quem é que pode? Infelizmente, continuo sem ver o meu futuro, mas vejo bem o meu presente. E apesar de falarmos em dificuldades, eu estou a ter uma vida muito feliz. Falta alguma coisa, mas Lisboa está a mudar a minha vida e Portugal também. Falta uma relação, um projecto para o futuro. Não é a saúde que impede o futuro. É dinheiro e incompreensão." 

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